
ME ACORDE APÓS O INVERNO
Capítulo 2
Os pequenos países regidos por monarquia desde sempre sofreram ataques dos mais diversos em razão da ambição pelo trono. A maioria deles, no entanto, seguiam firmes e fortes, tendo passado por todas as adversidades. Era o caso de Avalon. E até então eu achava que meu país se mantinha sob o regime da monarquia por minha competência. Até me dar em conta de que Magnus e Estevan tinha algo muito mais precioso do que uma coroa em suas cabeças ou um trono para sentarem. Aliás, eles eram o "trono", onde suas mulheres certamente sentavam por horas seguidas.
Embora eu nunca tivesse admitido, sentia sim inveja de Estevan D'Auvergne Bretonne. E sempre achei que fosse por conta de Satini. Então percebi que talvez eu também sentia inveja de Magnus e até de Dereck. Eles tinham algo que eu não tinha e não poderia comprar: família, composta de esposa e filhos.
Olhei para Satini, que ria sem controle enquanto olhava para Estevan, achando engraçado algo que não tinha graça alguma, certamente em função do álcool. Teria eu dado a ela toda felicidade que tinha ao lado de Estevan? Eu sequer sabia se podia ter filhos! Claro que Estevan queria tirar o sobrinho do poder... Mas não era só por ele ser um filho da puta traidor. Mas porque queria proteger Satini e as filhas daquilo tudo.
Declarar a independência de Alpemburg era garantir que a família D'Auvergne Bretonne estaria praticamente fora do comando do país para sempre, com liberdade para viverem como bem quisessem e financiados por qualquer tipo de governo que assumisse o poder.
Magnus? Bem, o primo de Estevan nasceu para ser rei. E ninguém tinha dúvidas alguma de que seria um dos melhores monarcas que Noriah Sul já teve. No entanto Katrina passou por tantas coisas em função da ambição pela coroa que ele também soube que ficar longe daquilo era a melhor forma de proteger o amor de sua vida. Então declarou Noriah Sul como um país republicano e democrático e levou de brinde o castelo onde morava, a mulher que amava e um filho, que por sua vez casou com uma das filhas de Satini, Alexia, que era doce como o mel e ao mesmo tempo forte como uma tempestade.
Dereck também nasceu para governar, independente de ser monarquia ou república. Poderia ser rei no lugar do irmão, mas acabou optando por ser presidente. Fez história ao lado de Dom até que decidiu "aposentar-se". O motivo? O mesmo de Magnus e Estevan... O amor. Adotou um filho e descobriu então que a política não era mais a coisa mais importante da sua vida.
A mim? Bem, a mim restava a política, a coroa e todas as responsabilidades que vinham com ela. E se eu pretendia declarar Avalon um país republicano? Não, em hipótese alguma. Um dos motivos era que eu sabia o quanto foi difícil tomar aquele lugar que sempre pertenceu a minha família por direito. Passei boa parte da minha vida num lugar perdido no meio do nada, escondido, montando estratégias desde criança de como e quando tomar o castelo de Avalon e destronar o rei Stepjan.
Avalon era feliz com sua forma de governo. Minha família era feliz e orgulhosa de carregar o sobrenome Beaumont. Éramos os legítimos Beaumont's e não precisávamos mais se esconderem sob o sobrenome "Leeter". E se eu dissesse que não gostava de todo conforto e prazer que o dinheiro trazia, estaria sendo um hipócrita.
Mas eu tinha saudade de Samuel Leeter. No entanto sabia que trazê-lo de volta era impossível. Ele havia ficado perdido num bar na Travessia, onde com sua guitarra se apresentava para a meia dúzia de meninas que gritavam seu nome e só queriam que ao final da noite as levasse em casa e lhes desse beijos e fizesse promessas de amor eterno.
Samuel Beaumont só se envolvia sexualmente e algumas vezes ainda fodia uma mulher enquanto sua mente lhe pregava peças, fazendo-o ver Satini. Eu era ciente de que qualquer pessoa que se envolvesse comigo queria muito mais do que amor ou promessas de felizes para sempre. O sonho de usar a coroa na cabeça era bem maior do que qualquer coisa. Então todas sentavam no "trono", mas nenhuma era apta a usar a coroa.
Eu era diferente dos meus amigos. E feliz do meu jeito. Certamente não sonhava como eles ou compartilhávamos os mesmos interesses a não ser de uma batalha como há muito tempo não tínhamos. De tudo que vivemos, Dom foi o que me sobrou. Nunca imaginei que fôssemos ficar amigos, mas a solidão nos uniu. Tínhamos muito em comum e sinceramente não nos orgulhávamos daquilo. Compartilhávamos tristezas, perdas e rejeições. Ainda assim seguíamos firmes e fortes, em busca de algo que sequer sabíamos o que era. Ou talvez soubéssemos... Tentar tapar um buraco no coração que jamais seria coberto. Mas nunca falamos abertamente sobre aquilo, embora mencionássemos vez ou outra alguma coisa, como se já soubéssemos e dizer as palavras não fosse necessário.
Era claro que Dom ainda sentia algo por Katrina. Mas eu não conseguia entender como ele teve esposa e filha e seguiu com sua vida de rebeldia e devassidão. E aquilo era só mais um dos assuntos dos quais ele fugia.
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