
Maternidade Roubada, Vingança Servida
Capítulo 2
O cheiro de café requentado e o zumbido baixo dos computadores preenchiam o ar, uma melodia familiar que eu não ouvia há seis meses. Voltar ao escritório depois da licença-maternidade era estranho. Meu corpo ainda parecia pertencer a outra rotina, uma de fraldas, mamadas e canções de ninar sussurradas na madrugada. Minha mesa estava exatamente como eu a deixei, coberta por uma fina camada de poeira.
Colegas passavam, sorriam, perguntavam sobre o bebê. "Como está o pequeno Léo?", "Dormindo bem à noite?". Eu respondia com um sorriso cansado, mas feliz, mostrando fotos no celular. Sentia-me dividida entre a profissional que eu era e a mãe que me tornei.
Foi no meio da tarde, enquanto eu tentava me concentrar em uma planilha, que uma mulher que eu só conhecia de vista se aproximou da minha mesa. Ela era de outro departamento, mais velha, com um olhar permanentemente cansado e cabelos grisalhos presos num coque frouxo.
"Com licença, você é a Júlia, não é? A que acabou de ter bebê."
A voz dela era baixa, quase um sussurro.
"Sim, sou eu", respondi, forçando um sorriso amigável.
Ela se inclinou sobre a minha mesa, o olhar dela era intenso, quase suplicante.
"Eu preciso da sua ajuda. É uma coisa muito importante."
Achei que ela ia pedir para eu cobrir alguma tarefa, ou talvez uma doação para alguma campanha interna. Como nova mãe, meu coração estava mais mole. Eu queria ajudar.
"Claro, no que eu puder ajudar."
"Eu soube que você está amamentando", ela continuou, a voz ainda mais baixa, como se compartilhasse um segredo de estado. "Eu preciso do seu leite."
Fiquei um pouco surpresa, mas não chocada. Já tinha ouvido falar de bancos de leite, de mães que doavam para bebês prematuros. Talvez ela tivesse uma neta, uma sobrinha que precisava.
"Ah, entendi. Eu tiro o excesso todos os dias na salinha de amamentação. Posso guardar um pouco para você em um recipiente esterilizado. Para quem é?"
A expressão dela se fechou. Ela balançou a cabeça vigorosamente, como se a minha sugestão fosse um insulto.
"Não, não. Assim não serve."
"Como assim não serve?", perguntei, a confusão começando a tomar conta de mim. "O leite extraído é perfeitamente bom. Eu congelo e o Léo toma quando eu não estou."
"Não para o meu filho", ela disse, a voz ganhando uma ponta de impaciência. "Quando você tira e guarda, ele perde os nutrientes mais importantes. A energia vital. Precisa ser direto da fonte."
Eu a encarei, tentando processar a frase "direto da fonte". A imagem que se formou na minha cabeça era absurda demais para ser real. Eu devo ter entendido errado.
"Direto da... fonte? O que você quer dizer com isso? Você quer que eu...", eu não conseguia nem terminar a frase.
"Sim", ela me cortou, o olhar fixo no meu, sem um pingo de hesitação. "Eu preciso que você amamente o meu filho."
Um silêncio pesado caiu sobre nós. O zumbido dos computadores pareceu parar. Eu a olhei, esperando o sorriso, a piada, qualquer coisa que indicasse que aquilo era uma brincadeira de péssimo gosto. Mas o rosto dela estava mortalmente sério.
"Seu... seu filho?", gaguejei. "Quantos anos ele tem?"
Ela respondeu sem pestanejar, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
"Dezoito."
Meu queixo caiu. Literalmente. Senti minha boca se abrir em um "O" mudo de choque. Dezoito. Dezoito anos. A palavra ecoou na minha mente, ricocheteando nas paredes do meu crânio.
Eu olhei para os seios que, naquele momento, estavam cheios e um pouco doloridos, pensando no meu Léo, meu bebezinho de seis meses. A ideia de um homem adulto, um estranho, tocando em mim daquela forma... O nojo subiu pela minha garganta como bile.
A mulher, que mais tarde eu descobriria se chamar Dona Sofia, continuava ali, parada, esperando uma resposta, como se tivesse me pedido um copo de água.
O conflito estava estabelecido. Não era sobre ajuda, era sobre uma violação tão bizarra, tão impensável, que eu não tinha a menor ideia de como reagir.
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