
Marília: O Retorno Triunfal
Capítulo 2
A dor lancinante no meu peito era a última sensação que eu conhecia, um frio que se espalhava pelos meus membros enquanto a vida me deixava.
Meus olhos, turvos, focaram nos dois rostos acima de mim.
Joana, minha irmã adotiva, a quem eu amava e protegia, segurava um frasco vazio com um sorriso vitorioso.
Ao lado dela, Ricardo, meu noivo, o homem para quem eu havia prometido meu coração, olhava para mim com um desprezo que congelou minha alma mais do que o veneno.
"Finalmente", Joana sussurrou, sua voz doce como mel envenenado, "tudo o que é seu será meu. O trono, o poder, tudo."
Ricardo não disse nada, apenas observou meu último suspiro com uma frieza calculada.
A escuridão me engoliu.
Foi um fim patético.
Mas então...
Uma luz forte me cegou, seguida por vozes e música alta.
Abri os olhos, confusa.
Eu não estava no chão frio do meu quarto, morrendo. Eu estava sentada em uma cadeira ornamentada, em um salão de festas vibrante e cheio de gente.
O ar cheirava a flores e bolo.
Minhas mãos não estavam frias e sem vida, elas estavam quentes, descansando no meu colo sobre um vestido de seda azul.
Olhei para minhas mãos, jovens e sem as cicatrizes da luta final.
Que lugar era esse?
Uma criada se aproximou com um sorriso.
"Princesa Marília, está se sentindo bem? A senhora parece pálida."
Princesa Marília.
Meu nome.
Minha cabeça girou.
"Que dia é hoje?", perguntei, minha voz um pouco trêmula.
"É o seu aniversário de dezoito anos, alteza. A festa está maravilhosa."
Meu aniversário de dezoito anos.
Eu tinha voltado. Tinha voltado três anos no tempo, para o dia que marcou o início da minha queda.
Meu coração começou a bater descontroladamente.
Isso não era um sonho. Era real.
As memórias da minha vida passada inundaram minha mente como uma avalanche. A forma como Joana, pouco a pouco, roubou a afeição do meu pai e do meu irmão, como ela me isolou, me pintando como uma princesa mimada e cruel. Como Ricardo a ajudou, sussurrando mentiras no meu ouvido e nas costas. Lembrei-me da morte do meu pai, o Rei, declarada como uma doença súbita, mas que eu sabia ter sido obra deles. E, finalmente, minha própria morte.
Uma fúria fria e clara tomou o lugar do choque.
Eu não ia deixar acontecer de novo.
Desta vez, eu não seria a vítima ingênua. Desta vez, eu faria com que pagassem por cada lágrima e cada gota de sangue.
Meus olhos varreram o salão, procurando.
E então eu a vi.
Joana.
Ela estava no centro de um grupo de nobres, rindo e encantando a todos. E ela usava um vestido. Não era um vestido qualquer. Era um vestido de um tecido dourado brilhante, bordado com o emblema do sol nascente, um tecido e um design reservados exclusivamente para a herdeira do trono.
Na minha vida passada, eu vi isso, me senti magoada pela audácia dela, mas não fiz nada. Eu não queria estragar minha própria festa ou envergonhar minha irmã na frente de todos.
Que tola eu fui.
Aquilo não foi um erro inocente. Foi uma declaração. Um teste.
Desta vez, ela não passaria no teste.
Levantei-me, minha postura ereta e decidida. O barulho ao meu redor pareceu diminuir enquanto eu caminhava em sua direção. Todos os olhos se voltaram para mim.
Eu não parei até estar bem na frente dela.
O sorriso de Joana vacilou quando viu a expressão no meu rosto.
"Irmã", ela começou, com sua voz falsamente doce, "o que foi? Você não está gostando da sua..."
"Tire esse vestido", eu a interrompi, minha voz baixa, mas carregada de uma autoridade que surpreendeu a todos, inclusive a mim mesma.
Joana piscou, confusa.
"O quê?"
"Eu disse", repeti, mais alto para que todos pudessem ouvir, "para você tirar esse vestido. Agora."
O silêncio caiu sobre o salão. A música parou.
Joana olhou ao redor, seu rosto começando a se contorcer em uma máscara de vítima magoada.
"Marília, por que você está fazendo isso comigo?", ela choramingou, lágrimas brotando em seus olhos. "Foi você mesma que me deu este vestido. Você disse que eu ficaria linda nele."
O primeiro golpe da vingança tinha sido dado. E eu mal podia esperar para dar o próximo.
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