
Marília: O Retorno Triunfal
Capítulo 3
As lágrimas de Joana eram uma arma que ela usava com maestria.
Elas escorriam por seu rosto perfeitamente maquiado, desenhando um quadro de inocência ferida. Os convidados começaram a cochichar, alguns olhando para mim com desaprovação.
"Ela está sendo tão cruel com a pobre Joana."
"Joana é sempre tão doce, não faria mal a uma mosca."
Na minha vida passada, essas palavras teriam me ferido, me feito recuar. Agora, elas apenas alimentavam minha determinação.
"Eu te dei este vestido?", perguntei, com uma sobrancelha arqueada. "Joana, você sabe muito bem que este tecido, o 'Sol da Manhã', é tingido com açafrão das terras do leste e tecido por artesãos reais. Seu uso é restrito à família real direta. Mais especificamente, à herdeira do trono."
Eu dei um passo à frente, diminuindo o espaço entre nós.
"Então, me diga, irmãzinha, em que momento eu, a herdeira, te daria um vestido que simboliza meu próprio status? Você está me chamando de tola ou de traidora do meu próprio sangue?"
A lógica fria na minha voz cortou o ar, e os cochichos mudaram de tom. A acusação de Joana de repente pareceu fraca, infantil.
O rosto dela ficou pálido. Ela não esperava essa reação. Ela esperava que eu ficasse com raiva, que gritasse, que parecesse uma princesa mimada fazendo uma birra. Ela não esperava que eu usasse as regras e a lógica contra ela.
"Eu... eu não sabia", ela gaguejou, agarrando-se à sua última defesa. "Eu só achei bonito. Irmã, por favor, me perdoe. Eu não quis ofender."
"Você não sabia?", eu ri, um som sem humor. "Você vive neste palácio há dez anos. Você foi educada junto comigo. Você conhece cada regra, cada protocolo. Não me trate como uma idiota."
Minha paciência, forjada na morte e no renascimento, era zero.
"Eu não vou repetir de novo. Tire o vestido."
Joana ficou parada, seus olhos se enchendo de um desafio teimoso por baixo das lágrimas. Ela não ia ceder. Ceder seria admitir a culpa.
"Se você não tirar", eu disse, minha voz perigosamente calma, "eu mesma arranco."
Estendi a mão e agarrei a manga do vestido dela. O tecido caro pareceu frágil sob meu aperto. Joana deu um grito agudo, tentando se afastar.
Foi então que uma mão forte agarrou meu pulso, me forçando a soltá-la.
"Marília, já chega! O que você pensa que está fazendo?"
Virei-me e encontrei os olhos irritados de Ricardo, meu noivo. Ele estava ao lado de Joana, protetoramente, assim como na minha memória da vida passada. A cena era idêntica, mas desta vez, a dor da traição foi substituída por um desprezo gelado.
"Me solte, Ricardo", eu disse, tentando puxar meu braço.
"Não até você parar com essa cena ridícula", ele retrucou, seu aperto se tornando mais forte. "Você está envergonhando a si mesma e a mim! É só um vestido. Peça desculpas a Joana e vamos acabar com isso."
"Pedir desculpas a ela?", repeti, incrédula. "Ela está usurpando um símbolo do meu poder, e eu é que tenho que pedir desculpas?"
Ricardo olhou para mim como se eu estivesse louca.
"Pelo amor de Deus, Marília, pare de ser tão dramática e ciumenta. Joana é sua irmã."
Ele se inclinou para mais perto, sua voz um sussurro ameaçador que só eu podia ouvir.
"Lembre-se do nosso noivado. A reputação da sua futura Duquesa precisa ser impecável. Se você continuar agindo como uma criança mimada, as pessoas vão começar a pensar que talvez Joana fosse uma escolha melhor para mim. E para o trono."
A ameaça pairou no ar entre nós. Ele não estava apenas me repreendendo. Ele estava me chantageando. Estava me dizendo para escolher: meu orgulho ou meu futuro como sua esposa.
Na minha vida passada, eu escolhi meu futuro. Eu recuei, humilhada.
Desta vez, eu escolheria a mim mesma.
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