Capa do romance Marcas da lua

Marcas da lua

7.9 / 10.0
Selena é uma bruxa poderosa e exilada que vive nas sombras. Durante um ritual proibido, seu destino se entrelaça ao de Rurik, um lobo solitário traído pelo próprio bando. O surgimento desse laço ancestral e impossível desperta uma conexão brutal entre a feiticeira e a fera. Envolvidos por uma profecia sombria e um desejo perigoso, eles enfrentam inimigos dispostos a tudo para impedir que essa união amaldiçoada se concretize e mude o mundo.

Marcas da lua Capítulo 1

A floresta sussurrava o nome dela como se tivesse medo de esquecê-lo.

Ou medo de lembrá-lo.

Selena Vólkhavaar andava descalça sobre folhas molhadas, as solas dos pés calejadas pela terra crua e pelas decisões erradas. O vento puxava seus cabelos negros como se quisesse esconder o rosto dela do mundo - ou protegê-lo. Mas era tarde demais para proteção. E cedo demais para perdão.

O exílio não a quebrou.

Fez pior: a fortaleceu.

No alto da colina onde os relâmpagos evitavam cair e os pássaros não pousavam, Selena desenhou um novo círculo de poder. Os antigos símbolos queimaram na pedra com o calor do próprio sangue, e quando ela falou a primeira palavra em Étir, a língua do submundo, o mundo tremeu sutilmente sob seus pés.

Feitiços proibidos.

Magia de carne e alma.

Poder conquistado pelo prazer, não pela submissão.

- Que os Deuses se engasguem com sua moral - sussurrou, enquanto riscava a última linha com a lâmina curta presa à coxa. O corte era limpo. Ela não tremia mais. Não desde que fora banida por "corromper os dons da lua".

Era ironia.

A mesma lua que regia as bruxas... também regia as feras.

E a conexão entre ambas era mais antiga que qualquer juramento humano.

Ela se levantou devagar, o corpo coberto por cicatrizes finas e tatuagens mágicas. Cada marca contava uma história. Nenhuma delas tinha final feliz.

Selena não acreditava em finais felizes.

Ela acreditava em poder.

E o poder viria. Com suor, sangue e luxúria.

O calafrio veio sem aviso. Um arrepio que subiu pela espinha como língua quente.

Ela congelou.

Alguém a observava.

- Covarde... - murmurou para o vazio.

A floresta calou.

Ela sorriu. Sabia que tinha tempo. O destino era um animal teimoso.

E ela já podia sentir seus dentes se preparando para morder.

Selena recolheu o punhal, limpando a lâmina na própria coxa. O sangue escorria lento, como se obedecesse. Havia aprendido a comandar o próprio corpo antes de tentar controlar o mundo. Foi a primeira lição. E a mais cruel.

O fogo no círculo se apagou, deixando apenas brasas azuis crepitando no chão.

Silêncio.

A floresta parecia conter o fôlego quando ela estava ali.

Os animais sumiam. O vento ficava denso.

Até a própria noite parecia hesitar ao seu redor.

Ela atravessou o limite do círculo sem olhar para trás. Nunca olhava.

Não por arrogância - por cálculo.

Magia respondia à vontade. Se vacilasse, ela feria. E Selena já tinha se cortado demais.

Caminhou até sua cabana, uma construção retorcida, mais raiz do que madeira. Crescida da terra, moldada pela força da intenção. A porta não tinha tranca. Quem ousaria entrar?

Dentro, o cheiro era de ervas, cera derretida e algo mais denso.

Prazer aprisionado.

Em um dos frascos, uma essência feita do gozo de um homem que implorou por mais antes de morrer.

Em outro, o suor de uma virgem.

Selena não usava ingredientes comuns.

Usava lembranças. Usava alma.

Ela se despiu sem pressa, jogando as roupas sujas no canto. O corpo nu refletia a luz da vela em linhas suaves, mas havia dureza ali. Força.

No espelho negro pendurado no teto - um artefato ancestral roubado do clã - ela viu o reflexo se contorcer. Não seu corpo. A imagem atrás dele.

Algo movia-se no mundo espiritual. Uma sombra alongada. Algo que a encarava.

Não com olhos. Com presença.

Ela estreitou os olhos.

- Quem é você...?

O reflexo se dissipou antes que pudesse ler mais.

Mas ficou.

Não o vulto.

A sensação.

Densa. Quente.

Como uma respiração no cangote.

Ela não estava sozinha.

Não ali.

Não mais.

Selena tocou o colar de ossos pequenos pendurado entre os seios. Era um amuleto antigo, que tremia apenas diante de uma coisa: vínculo de sangue e destino.

E ele tremia agora.

Pela primeira vez.

Ela não sorriu. Não praguejou.

Apenas fechou os olhos, ouvindo os batimentos do próprio coração.

Um. Dois. Três.

A contagem da guerra começara.

A vela se apagou sozinha.

Selena não se moveu.

No escuro, sentia melhor.

Ouviu o estalar da madeira da cabana como se a construção tivesse espasmos. O mundo reagia. A estrutura mágica ao redor dela - a barreira que mantinha espíritos afastados - vibrava como se algo estivesse tentando atravessar.

- Não - sussurrou. - Não hoje.

Fez um gesto com os dedos, e o chão brilhou em linhas vermelhas, traçadas com sangue seco e cinza de ossos. A barreira se estabilizou. O ataque cessou. Mas o aviso ficou.

Estavam sentindo.

O Conselho.

As Anciãs.

A matilha, talvez.

Quem quer que fosse o dono daquele reflexo no espelho.

Selena se jogou sobre a rede de peles costuradas, o corpo ainda nu, a lâmina repousando sobre o peito. Seus olhos encararam o teto, onde marcas arcanas pulsavam como constelações.

Ela estava ficando inquieta. E isso era raro.

Não medo. Nunca medo.

Mas antecipação.

Se o que sentira no espelho era o que parecia ser...

Um vínculo, um chamado instintivo, algo mais fundo que magia -

Estava fodida.

Porque vínculos eram para cadelas submissas e machos territoriais.

E ela não era nem uma coisa nem outra.

Virou-se de lado, enfiando a lâmina sob o travesseiro.

Dormiu com os olhos meio abertos.

Sonhou com floresta.

Com dentes.

E com um par de olhos cor de prata, fitando-a como se já a possuíssem.

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