
Magoada pelo amor, salva pelo sacrifício
Capítulo 3
Esther se afastou rapidamente do toque de Julian, o movimento sendo reflexo, abrupto e quase instintivo.
A mão de Julian congelou no ar, sem saber como reagir, e sua testa se franziu, uma confusão momentânea surgindo antes de dar lugar a uma irritação visível.
"O que há de errado com você?", ele exigiu, a voz cortante. "Você ainda está fazendo birra? Já te disse, a punição acabou."
Ele se aproximou e continuou, agora com um tom ameaçador e baixo: "Não me force a fazer algo pior. Você não vai querer prejudicar o bebê, vai?"
A menção do bebê foi como um golpe direto, uma facada no estômago de Esther. Sua respiração ficou presa na garganta. A dor, tão aguda quanto real, atravessou a anestesia que parecia ter invadido seu corpo.
"O bebê...", ela começou, sua voz se arrastando, rouca e frágil. "Julian, o bebê está..."
Antes que ela pudesse continuar, o som do celular dele interrompeu suas palavras.
Ele olhou rapidamente para a tela e, ao ver que era Katia, atendeu sem pensar duas vezes.
Sua voz suavizou de imediato, deixando a raiva em relação a Esther para trás. "Katia? O que aconteceu?"
Esther conseguiu ouvir, através do celular, a voz suave e chorosa de Katia. "Julian... Estou com medo. Está chovendo muito e a luz acabou. Você pode vir até aqui?"
"Já estou indo", ele respondeu sem hesitar, então desligou, pegou as chaves e, com passos rápidos, se dirigiu para a porta.
Ele parou na entrada, se virando para Esther. "O que você estava dizendo?"
Ela observou as costas de Julian, que se afastava, indo correr para confortar a amante enquanto sua esposa se despedaçava em silêncio em casa. As palavras desapareceram na garganta dela.
"Não é nada", ela disse, como se as palavras não tivessem peso algum.
Ele se foi.
Logo depois, um estrondo de trovão fez as janelas vibrarem, fazendo Esther saltar.
Um grito involuntário escapou de seus lábios. Desde a infância, as tormentas a aterrorizavam.
Maria, a empregada, correu até a sala, com uma expressão de preocupação estampada no rosto. "Senhora McGee, está tudo bem? O senhor McGee saiu tão rapidamente."
Esther se abraçou, o rosto pálido e cansado.
Ela se lembrou de um tempo em que Julian teria movido céus e terras para protegê-la durante uma tempestade.
Agora, todo esse cuidado, essa proteção, era oferecido a outra mulher.
Outro trovão ressoou pela cobertura, e Esther se deixou cair no chão, se encolhendo em um pequeno feto, buscando algum tipo de conforto no vazio.
Ela passou a noite ali, sem conseguir dormir, perdida em seus próprios sentimentos de desamparo.
Na manhã seguinte, Maria a acordou suavemente de onde ela havia caído, exausta, no sofá. "Senhora McGee, o senhor McGee já voltou. Ele pediu que a senhora descesse para o café."
Com passos lentos e pesados, Esther desceu pela escada principal, parecendo mais um fantasma do que uma mulher viva.
E lá, à mesa de jantar, estava Katia French.
"Bom dia, Esther", disse Katia, com um sorriso falso e radiante.
Julian, colocando um prato de panquecas na frente de Katia, lançou um olhar desaprovador para Esther. "Não seja mal-educada, Esther. Katia teve a gentileza de vir aqui esclarecer as coisas depois de você tê-la chateado."
Katia passou o braço pelo de Julian, exibindo uma falsa simpatia. "Está tudo bem, Julian. Eu estou bem. Sei que ela não quis dizer aquilo."
Ele acariciou a bochecha de Katia, os olhos brilhando de adoração. "Você é bondosa demais com ela."
Esther se sentou, os observando, mas seu olhar estava vazio. Era uma encenação do que um dia ela teve com Julian, agora transformada em uma paródia grotesca de amor e devoção. Ela mexia a comida no prato, com o gosto de cinzas na boca.
O celular de Julian vibrou com uma ligação de trabalho.
Ele beijou a testa de Katia antes de sair para seu escritório. "Já volto."
Incapaz de suportar mais isso, Esther se levantou abruptamente, decidida a sair.
"Espere", disse Katia, sua voz agora fria e afiada, e levantou um documento. "Julian assinou algo para mim ontem à noite."
Os olhos de Esther se fixaram na assinatura na parte inferior. A caligrafia de Julian, ousada e familiar, fez seu coração apertar.
Era o acordo de divórcio, o mesmo que seu advogado havia redigido, o mesmo que ela pedira para Katia fazer com que ele assinasse.
"Ele estava distraído", Katia disse, quase com prazer. "Eu só coloquei o documento no meio de uma pilha de papéis de investimento que ele tinha que assinar antes de dormir. Ele nem sequer olhou para isso."
Ele havia prometido e jurado amor, mas havia assinado o fim do casamento deles com a mesma facilidade com que assinava um contrato de negócios, enganado por uma mulher.
Katia sorriu, um sorriso venenoso, triunfante. "Ele vai fazer tudo o que eu pedir. Tudo. A minha pontuação com ele já está em 90%. Está quase no fim para você."
Esther a encarou, o rosto vazio, impassível.
"Parabéns", disse ela, com a voz fria e monótona.
O sorriso de Katia vacilou, surpreendida pela reação. Ela esperava lágrimas, raiva e um colapso, e precisava ser a vítima para garantir sua vitória, mas a calma gelada de Esther a desconcertava.
Foi exatamente quando Julian entrou na sala que a expressão de Katia mudou e ela agarrou a mão de Esther, seus olhos brilhando com uma ideia cruel e repentina.
"Esther, por favor, não fique brava comigo!", ela gritou, sua voz transbordando de terror falso.
Então, empurrou Esther com toda a força que pôde reunir.
Na direção do topo da grande escada.
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