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Capa do romance Lutando por Amor

Lutando por Amor

Criada na fazenda de Ilda Farrel, Clarice cresceu ao lado de David, desenvolvendo um laço profundo. Temendo essa proximidade, Ilda enviou o filho para longe, separando os amigos por oito anos. Agora, o destino força um reencontro inesperado. Ao se verem novamente, as mágoas antigas ressurgem com a intensidade da juventude, transformando a amizade infantil em um turbilhão de emoções complexas enquanto enfrentam as consequências do passado.
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Capítulo 2

Clarice sonhou muito naquela noite. Sonhou com o baile do dia seguinte, sonhou com Ilda Farrel gritando com ela e sonhou com David.

Acordou bem cedo e foi trabalhar. O tornozelo já havia melhorado.

Ela era professora na escolinha da fazenda.

Estava terminando a faculdade de língua portuguesa e ensinava as lições básicas para os filhos dos trabalhadores da fazenda, mais de trinta crianças entre seis e onze anos.

Trabalhava em dois turnos, mas como era sábado ela reunia todas as crianças para atividades extras e para tirar as dúvidas que os pequenos tinham.

Após a aula, foi até o lago e lembrou-se de quando era criança, das vezes que brincou com David ali.

Foi uma época muito feliz. Ela tinha doze anos e ele quatorze.

Sentou-se sob uma linda laranjeira e fechou os olhos.

- Por que temos que crescer? Por que nos separaram? Senti tanto a sua falta. Nunca tive outro amigo como você.

- Eu também não.

Clarice assustou-se e virou tão depressa que até derrubou um de seus livros na água.

- Droga era meu melhor livro.

- Eu pego pra você.

Pegou o livro e entregou-o pra ela.

- Obrigada. Mas, o que faz aqui?

- O mesmo que você: matando a saudade. Não sei como nunca nos encontramos aqui. Eu sempre vinha aqui na esperança de que você lembrasse que esse era nosso lugar favorito e viesse pra cá.

- Eu não saia de casa com medo de você aparecer por lá e não me encontrar. Hoje me deu uma saudade daquele tempo e tive que vir aqui.

- Que bom que hoje você veio. Como está o tornozelo?

- Está bem. E seus amigos?

- Estão conhecendo a fazenda com meu pai. Podemos conversar sem sermos interrompidos.

- Conversar sobre o quê? Não somos mais aquelas crianças. Crescemos, nossos mundos são diferentes agora, na verdade já eram naquela época, eu é que nunca havia percebido. Eu sou uma caipira e você um homem rico da cidade.

- Sempre fui rico e nunca se importou com isso. Por que se importa agora?

- Eu ouvi ontem você e seus amigos me chamarem de caipira e rirem de mim.

- Eu não fiz nada disso. Se tivesse prestado atenção teria me visto brigar com eles. Se você pensa que me tornei um playboy só porque fui para a cidade está enganada. Ainda sou aquele garoto que você conheceu.

- Eu não disse que você virou um playboy. Olhe lá vêm seus amigos.

- Droga! Nosso sossego acabou.

Uma ruiva estonteante chegou e abraçou David pela cintura.

- Se encontrando às escondidas, querido? Não é cortês de sua parte deixar seus convidados sozinhos, podemos nos perder.

- Vocês não estavam sozinhos, estavam com meu pai. Onde ele está?

- Dissemos a ele que podia voltar para a fazenda.

- Vocês são loucos? Sabem o tamanho disso aqui? Se por acaso se perdessem demoraríamos muito para achá-los.

- Você deveria estar conosco e não com uma caipira fedendo a porcos e galinhas. – Agrediu Ana.

Carlos e a outra moça começaram a rir.

- Não sou uma caipira fedendo a porcos e galinhas. Só porque moro aqui e amo este lugar não sou pior que vocês.

- É sim – disse Ana – É uma caipira que está se oferecendo para o filho do patrão através de uma amizade de oito anos atrás que nem existe mais.

- Olha moça, não vou discutir com você porque sou educada. Mas para encerrar nosso assunto, quem está se oferecendo para David é você. Você quer o dinheiro dele, eu não quero e nem preciso. Agora, se me derem licença, estou cansada porque trabalhei a manhã toda, coisa que vocês nem devem saber o que significa e preciso ir para casa. Tenho um baile para ir hoje à noite.

- Uiiii, a caipira tem vida social. Ela tem um baile. Me diga uma coisa, está falando do baile que os pais de David estão organizando?

- E se estivesse?

- Você tem roupas para ir a um evento como esse?

- Não tão caras e extravagantes como as suas, até mesmo por que eu tenho um gosto mais refinado e menos chamativo, mas sim, tenho roupas de festas, não que isso seja de sua conta. Para lhe informar, eu sou uma pessoa bem sociável, nas fazendas vizinhas fazem muitos bailes e sempre sou convidada. Não que isso também seja de sua conta. Até mais, e David, obrigada.

- Pelo quê? – David não estava entendendo o agradecimento.

- Por provar pra mim quem sou na sua vida, o que realmente significo pra você. Sua namorada tem razão, nossa amizade já não existe mais. Sua defesa foi valiosa.

- Clarice, eu...

- Não precisa falar mais nada. Agora eu tenho certeza David, de que nunca mais será como foi naquela época. Eu ainda acreditava que poderíamos ser amigos como fomos há oito anos, mas me enganei o tempo muda as pessoas. E você se tornou um rico homem da cidade e eu uma caipira fedendo a porcos e galinhas. Não sirvo mais para ser sua amiga, na verdade nunca servi por isso sua mãe te mandou pra longe daqui. E sabe, se você quisesse mesmo ter me visto nas outras vezes em que esteve aqui, teria ido até minha casa, mas nunca fez. Por isso, não me venha com essa baboseira de que vinha para o lago esperando que eu também viesse por que essa não cola. Eu demorei tempo demais para ver quem você realmente é. Foi um prazer revê-lo e foi triste saber que nosso passado não significa mais nada pra você, se é que algum dia significou alguma coisa. Bem eu já vou, não quero mais poluir o ar com meu fedor de porcos e galinhas. Meu fedor pode fazer mal para sua namorada.

- Clarice, espere, não é nada disso. Você está enganada.

Mas ela não parou.

Saiu de cabeça erguida e passos firmes, mesmo tendo lágrimas nos olhos e o coração destruído.

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