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Capa do romance Logan - Irmãos Creed livro 1

Logan - Irmãos Creed livro 1

Logan Creed decide encerrar sua vida nômade e retornar às origens para reconstruir o rancho da família. O caubói e advogado deseja estabilidade e herdeiros para honrar seu legado. Ele se aproxima de Briana Grant, uma vizinha divorciada que se encanta com seu jeito protetor. Contudo, a paz é interrompida pelo retorno do ex-marido dela e por ataques misteriosos à sua propriedade. Logan precisará agir com coragem para defender quem ama e provar seu valor.
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Capítulo 2

A casa que abrigara Briana Grant, seus filhos e a cachorra por mais de dois anos tinha a mesma aparência de sempre, sob a poeira acumulada. Mas, apesar disso, estava diferente.

Uma pequena e estranha excitação, nem um pouco desagradável, dançou no fundo do seu abdome quando ela olhou ao redor.

A mesma geladeira barulhenta e amassada.

Os mesmos pisos de linóleo gasto.

O mesmo telefone de parede, antiquado e dourado, com o fio de plástico enrolado. Embaixo dele, sobre o aparador empenado, a luz vermelha da secretária eletrônica piscava sem parar.

O que havia mudado?

Não era a casa, claro. Ela é que estava diferente, mudada de algum modo. E no nível quântico também, como se a própria estrutura de suas células tivesse sido destruída por alguma nova energia perigosa.

Que diabo é isso?, ela se perguntou, mordendo com força o lábio inferior, enquanto os meninos estavam no seu costumeiro caos na volta para casa: Josh ligando o computador na mesinha junto à janela da cozinha; Wanda latindo e girando em círculos em torno de sua bacia de água; Alec correndo até a secretária eletrônica quando via a luzinha vermelha piscando.

— Talvez papai tenha ligado! — gritou Alec, apertando os botões.

— Talvez o presidente tenha ligado — zombou Josh, com amargura.

— Cale a boca, bobalhão!

— Calem a boca os dois — disse Briana, puxando uma cadeira até a mesa e desabando sobre seu assento de vinil vermelho rachado, sentindo-se estranhamente deslocada, como se tivesse, por acidente, tropeçado em outra dimensão.

A voz de Vance, que se avolumava dentro da secretária eletrônica como um gênio enfumaçado prometendo realizar três desejos — nenhum dos quais se realizaria, claro — soou gutural e bajulatória.

Wanda parou de latir.

— Alô, família — disse Vance, e Briana olhou na direção de Josh, viu suas costas atléticas se retesarem sob a camiseta listrada. — Desculpe por aquele cheque da pensão alimentícia, Bri. Pensei que teria fundos antes de ser compensado, mas não consegui.

Briana fechou os olhos. Vance adorava lançar no ar a palavra família, como se, apenas por usá-la, pudesse reescrever a história e desfazer a verdade — que ele praticamente jogara fora sua mulher e seus filhos, como se fossem invólucros de barras de chocolate ou as embalagens de hambúrguer que se acumulavam no assoalho de sua van.

— Devo passar por Stillwater Springs dentro de uma ou duas semanas — arrastou-se a voz incorpórea. — Vou dormir no sofá, se você não se incomodar. E ver o que posso fazer com relação àquele cheque. — Pausa pequena. — O sofá é sofá-cama, certo?

A refeição de mortadela e suco no cemitério embrulhou no estômago de Briana.

Alec vibrou de alegria, pulando pela cozinha inteira como um daqueles vermes mexicanos presos dentro de uma casca seca.

— Se ele vier — bufou Josh, os dedos sobrevoando o teclado do computador vou fugir de casa!

— Vejo vocês em breve — cantarolou Vance. — Amo todos vocês.

Clique. Vejo vocês em breve. Amo todos vocês. Certo. Briana praguejou baixinho. A sensação quase mística de mudança profunda desvaneceu-se no fundo de sua mente, sendo imediatamente substituída por uma dor de cabeça por estresse, que latejava forte entre suas têmporas. — Vá em frente e fuja — Alec provocou o irmão. — Eu ia gostar mesmo de ficar com a cama de baixo no beliche! Briana suspirou.

— Basta — disse ela, levantando-se sem força da cadeira e agindo mecanicamente. Encheu as tinas de água e de ração para Wanda, mas seu olhar continuava voltado para a secretária eletrônica. Vance não deixara um número de telefone e ela não tinha identificador de chamada, já que seu telefone era de época. — Algum dos dois tem o celular do pai de vocês?

Vance usava na maioria das vezes telefones baratos de lojas de conveniência. Para ele, tudo era descartável — incluindo gente e um cachorro que ele criara desde filhote.

— Como se eu fosse ligar pro idiota — resmungou Josh. Ele até disfarçou, mas havia lágrimas sob todo aquele desdém.

Briana entendeu. Ela mesma chorou um rio de lágrimas por causa de Vance, embora a choradeira tivesse secado há muito, junto com todo o resto que ela já sentira por ele. Assim ela terminou com ele — de fato, procurou uma saída bem antes de ter sido abandonada do lado de fora do Wal-Mart.

— Por que você quer o celular de papai? — perguntou Alec, vermelho por trás das sardas, praticamente fulminando Briana com o olhar. — Você não vai ligar para ele e dizer para ele não vir, vai?

Era exatamente aquilo o que Briana pretendia fazer, mas, olhando o rostinho sério de Alec, percebeu que não poderia. Não com ele e Josh por perto.

— Seja como for, ele provavelmente não vai dar as caras — observou Josh, ainda navegando com animação pela internet. O que, exatamente, estaria ele fazendo naquele computador? — Com a palavra dele e um pedaço de papel higiênico, daria para você limpar o bumbum.

— Joshua — disse Briana.

— Eu odeio vocês! — gritou Alec. — Odeio vocês dois! Wanda ganiu e se estatelou ao lado da tina de água num abatimento de cão. Quando Alec entrou no quarto fazendo barulho, deixando a cozinha que ele e Josh haviam compartilhado, Wanda não foi atrás dele, o que era raro.

Briana suspirou de novo, tirou o pequeno bule da cafeteira e foi até a pia enchê-lo, enquanto olhava fixo e com raiva para a secretária eletrônica. Dane-se, Vance, pensou com severidade. Por que você não nos deixa? É essa sua especialidade, não é?

— Ele é um caubói, tudo bem — disse Josh, soando quase triunfante. Os diques no teclado haviam parado, o que era temporário, certamente. Josh ficava muito tempo na internet e era muito habilidoso em apagar seus rastros, para não preocupar Briana.

Ela franziu o cenho, sentindo-se ainda desconectada, fora do compasso. Continuou a fazer o café, embora não precisasse de cafeína. Depois da bomba que Vance acabara de lançar, ela não conseguiria mesmo dormir aquela noite.

— Seu pai? — perguntou ela.

Josh repetiu o suspiro que ela dera um pouco antes.

— Logan Creed — disse ele, com a paciência exagerada de um professor de Rhodes Oxford falando a um idiota falastrão. — Fiz uma pesquisa sobre ele. Ele foi Caubói do Ano duas vezes. Foi casado duas vezes também. Não tem filhos. Nem meios visíveis de sustento.

— Ele é caubói? — repetiu Briana, estupefata. Num certo sentido, achava essas notícias até mais desconcertantes do que a ameaça da chegada iminente de Vance.

— Ele tem diploma de direito — disse Josh, projetando os ombros à frente para conseguir enxergar a tela do computador. — Talvez ele seja rico ou coisa assim.

Os Creed eram lendários dentro e ao redor de Stillwater Springs. Mesmo para uma recém-chegada, Briana já ouvira muita coisa sobre suas proezas. Mas se o estado do rancho indicava algo, eles não só não eram ricos, como tinham dado sorte de escapar de uma execução hipotecária.

— Por que você está pesquisando sobre o sr. Creed? — perguntou Briana com uma indolência que ela não sentia, enquanto tirava uma caneca do armário e despejava dentro dele adoçante artificial e creme desnatado.

Creed é caubói, disse uma voz em sua cabeça. Considere-se avisada.

— Ele disse que a gente podia chamá-lo de Logan — lembrou-lhe Josh.

— Então, Logan — disse Briana, enchendo a caneca antes mesmo de o café todo ficar pronto. A coisa tinha aquele gosto forte de fundo de bule, bom para deixá-la arrepiada, mas a acalmava um pouco. — Por que fazer uma checagem dele na internet?

— Foram as botas — lembrou Josh, evitando ou mesmo ignorando a pergunta de Briana inteiramente. — Elas não eram bonitas, como aquelas que aquele cara da loja da Ford usa, com estrelas e cáctus e ursos gravados nelas.

— Cacti — corrigiu Briana automaticamente, professora como sempre.

— Tanto faz — disse Josh, que se virou para encará-la. — As botas de Logan estão muito gastas. Qualquer pessoa com botas como aquelas provavelmente monta cavalos e dá duro para viver.

Briana pensou nas botas de Vance. Ele mandou fazer meias-solas nelas muitas vezes, e estavam sempre arranhadas.

— Talvez ele seja simplesmente pobre — sugeriu ela. — Eu me refiro a Logan.

Josh fez que não com a cabeça.

— Ele é formado em direito — repetiu.

— E "sem meios visíveis de sustento", como você disse. Pare de fugir de minha pergunta, Josh. Por que pesquisou sobre nosso vizinho?

— Para ter certeza de que ele não é um assassino em série ou algo assim — respondeu Josh.

Briana escondeu um sorriso. Em poucos minutos, ela iria atrás de Alec. Naquele instante, suspeitava, ele precisava de um tempo para ficar sozinho.

— E qual é sua avaliação, detetive? O vizinho oferece segurança para pessoas decentes?

Josh sorriu. Seus sorrisos eram tão raros naqueles dias que mesmo os mais fugazes eram motivo para celebração. Algo de sua luz interior se apagara dentro de Josh depois da partida de Vance. E às vezes Briana temia que essa luz sumisse por completo.

— Pelo menos até que papai chegue aqui, oferece — disse Josh.

Sem notar aquela observação, Briana acendeu as luzes do teto, expulsando as sombras do crepúsculo.

— Você não ia realmente fugir, ia? — perguntou ela com cuidado, fazendo as obras de arte tremularem como as penas eriçadas de algum pássaro grande quando abriu a porta da geladeira de novo. Nada de sanduíche de mortadela; os meninos iam precisar de uma refeição de verdade. — Quer dizer, se o seu pai vier nos visitar. Houve um silêncio insuportável entre a pergunta de Briana e a resposta de Josh.

Ainda sobre a cadeira, diante do computador, ele olhou para o chão.

— Eu tenho 10 anos, mãe — disse. — Para onde eu iria? Briana colocou de lado a embalagem de coxinhas de galinha que acabara de tirar da geladeira e se aproximou do filho.

Ia colocar a mão sobre o ombro dele, mas desistiu.

— Josh...

— Por que ele simplesmente não nos deixa em paz? — interrompeu Josh com tristeza. — Você se divorciou dele. Eu quero me divorciar dele também.

Briana dobrou os joelhos, sentou-se sobre as ancas e fitou Josh nos olhos. Ele era um menininho muito preocupado, esforçando-se para ser um homem.

— Sei que está zangado — disse ela — , mas seu pai sempre será seu pai. Ele não é perfeito, Josh, mas a gente também não é.

Uma lágrima escorreu pela bochecha de Josh, uma pequena trilha prateada de sujeira feliz que tinha valido a tarde.

— Ainda desejo que a gente pudesse dá-lo de entrada e pegar alguém diferente — retrucou ele.

O riso entre os dentes era em parte soluço. Sua vista escureceu, e seu sorriso deve ter parecido frágil a Josh, até mesmo forçado.

— Lei cardeal cósmica número um — disse ela. — Não se pode mudar o passado, ou outras pessoas. A verdade é que, embora as coisas tenham sido muitas vezes bem difíceis, não me arrependo de ter me casado com seu pai.

Josh choramingou, perplexo. — Não?

Briana fez que não com a cabeça.

— Por que não? Ele está sempre desempregado. Quando ele manda a pensão alimentícia, o cheque é sempre devolvido. Você nunca preferiu ter se casado com outro tipo de homem? Ou até ter ficado solteira?

Briana levantou-se, passou a mão pelos cabelos bem curtos de Josh.

— Eu nunca quis isso — disse ela — porque se não tivesse me casado com seu pai, eu não teria tido você e o Alec. E nem consigo imaginar como seria isso.

Josh matutou. Haviam tido essa conversa antes, mas ele precisava ser lembrado disso, até com mais freqüência do que Alec, pois, por ele, ela enfrentaria monstros, atravessaria o fogo. Durante um ano depois que Vance os deixou, Josh tivera pesadelos, acordava gritando pela mãe. Alec sofrera também por fazer xixi na cama muitas vezes durante a semana.

— Nós somos um problemão — constatou finalmente Josh.

— Quer dizer, Alec e eu. Brigamos o tempo todo e deixamos de fazer as tarefas.

— Vocês são as melhores coisas que aconteceram a mim — disse Briana com sinceridade, levantando-se imediatamente.

— Mas seria mesmo bom se você e seu irmão se dessem melhor. E fizessem as tarefas.

Entreaberta, a porta do quarto de dormir dos meninos rangeu e Alec botou a cabeça para fora.

— Cansei de ficar zangado — disse ele. Seu olhar deslizou até Josh. — Quase totalmente.

Briana riu.

— Bom — respondeu ela, pegando a frigideira elétrica para fritar as coxinhas de galinha. — Vocês dois precisam se limpar.

Josh, você vai primeiro. Desligue esse computador e chispe pro banheiro. Alec, você pode se lavar aqui na pia da cozinha, e depois vou repassar com você a tabuada.

Como exceção à regra, Josh não discutiu.

Alec arrastou um banquinho até a pia, subiu nele e esfregou o rosto e as mãos.

— Estamos no verão, mãe — protestou Alec. — Aposto que as crianças que vão a escolas de verdade não estão se importando com tabuadas velhas e estúpidas.

— Alec — disse Briana.

— Um vez um é um.

— Alec.

Alec se atrapalhou com seus seis, setes e oitos, as seqüências em que ele costumava ter problemas, antes de descer do banquinho. Então ficou em pé diante de Briana, mãos e rosto pingando.

— Eu sei o número do celular de papai — confessou ele.

O coração de Briana ficou apertado. Alec vivia em função de algum contato com Vance, não importava quão breve ou limitado. Ele provavelmente esperava que ela cancelasse a visita como a um passarinho de argila numa prova de tiro ao alvo, mas, de qualquer modo, ele estava disposto a dar-lhe essa informação.

— Tudo bem — disse ela, meio engasgada. Alec tinha apenas oito anos. Mesmo depois de todas as decepções, e de todas as tentativas cuidadosas de Briana de explicá-las, ele simplesmente não entendia por que eles quatro mais Wanda não constituíam mais uma família. — Você sabe, claro, que seu pai... muda muito de opinião? Com relação a visitas e coisas como...

Alec a interrompeu, com um olhar de desalento e um aceno de cabeça.

— Eu só queria vê-lo, mãe. Mas sei que ele pode não vir.

Briana sentiu um nó na garganta. Vance estava sempre perseguindo um grande prêmio qualquer, alguma vitória que lhe escapava, com uma venda emocional sobre os olhos, tropeçando no chão áspero, tentando pegar vaga-lumes só com as mãos. O casamento deles não dera certo, mas ele ainda tinha os filhos. Eram garotos espertos, maravilhosos. Por que estavam sempre no fim da sua lista de prioridades?

— Eu sei — disse ela finalmente. — Eu sei.

Cassie acariciou o cachorro enquanto observava Logan com atenção, olhando-o lá dentro. Ela parecia completamente à vontade, sentada no degrau da varanda. Ao contrário da maioria das mulheres que Logan conhecia, Cassie não parecia afligir-se com seu peso — simplesmente era parte dela. Para ele, ela sempre fora bonita, uma árvore frondosa e de raízes profundas, abrigando-o e a seus irmãos sob os galhos cheios de folhas quando eles eram jovens, junto com a metade dos outros rapazes do condado. Dando a eles espaço para crescer, com seu afeto constante e sereno.

— Você se parece tanto com a Teresa — disse ela em voz baixa. — Principalmente ao redor dos olhos.

Logan não respondeu. Cassie estava pensando alto, não conversando. Ela nunca entabulava uma conversa, nem mesmo um bate-papo.

Teresa, a mãe dele, era filha adotiva dela; portanto não eram realmente parentes, ele e essa avó. Ainda assim, ele a amava. E sabia que ela o amava.

Cassie olhou ao redor, suspirou.

— Este lugar é um naufrágio — observou ela, ainda fazendo festa em Parceiro, que chamava sua atenção aconchegando-se a seu lado. — Você devia vir e ficar em meu quarto de hóspedes até que os empreiteiros terminem o serviço.

— Seu quarto de hóspedes — disse Logan — é uma cabana, Cassie riu.

— Você não se incomodava de dormir lá quando era menino — lembrou ela. — Você costumava fingir que era Gerônimo, e Dylan e Tyler sempre me importunavam porque você não os deixava ser chefes.

A lembrança — e a menção a seus irmãos — doeu nas partes mais brutas de Logan.

— Você algum dia teve notícia deles? — perguntou, em voz baixa e muito lentamente.

— Você teve? — retrucou imediatamente Cassie.

Logan passou a mão pelo cabelo. Ele ainda precisava de um corte de cabelo, mas havia tanta coisa para um homem fazer em seu primeiro dia em casa.

— Não — disse ele. — E você sabia disso. Então por que perguntou?

— Queria ouvi-lo dizer — replicou Cassie. — Talvez você se dê conta da seguinte maneira. Dylan e Tyler são seus irmãos, Logan. São os únicos parentes de sangue que você tem no mundo. Você joga rápido, e com isso perde, como se você tivesse todo o tempo para acertar as coisas entre vocês três, e você vai se arrepender.

Logan aproximou-se finalmente, sentou-se no degrau de baixo. Seu primeiro desejo foi levantar-se, perguntar por que era tarefa dele acertar as coisas, mas a pergunta teria soado uma bobagem retórica.

Ele sabia por que dependia dele. Porque era o mais velho. Porque ninguém mais começaria um diálogo. E porque foi ele quem começou a briga, no dia do enterro do pai deles, quando falou mal do morto.

Tudo bem, ele estava bêbado.

Mas quis mesmo dizer as coisas que disse sobre Jake — que não sentiria falta dele, que o mundo seria um lugar mais tranqüilo sem ele, quando não um lugar melhor.

De qualquer forma, foi o que ele quis dizer na época.

Cassie estendeu a mão e mexeu nos cabelos dele.

— Por que voltou para cá, Logan? ― perguntou ela. — Acho que sei, mas, como antes, gostaria de ouvir você dizer.

— Para tentar um recomeço — respondeu ele, após hesitar mais uma vez.

— Parece um trabalhão — observou Cassie. — Manter boas relações com seus irmãos faz parte disso?

Logan anuiu com a cabeça, mas não falou. Não confiava em sua voz para frases com mais de três palavras, justo as que ele tinha para oferecer na época.

— Vou lhe dar os telefones deles — disse Cassie, movendo-se o suficiente para tirar sua bolsa de entre sua coxa direita e o balaústre da varanda, extraindo de dentro dela um bloquinho de anotações e uma caneta.

— O que vou dizer?

Apesar de todos os cálculos que fez, de todo o planejamento, das decisões, ele nunca arranjou um jeito para acabar com a distância abissal entre ele, Dylan e Tyler.

Cassie riu entre os dentes.

— Comece com um olá — sugeriu ela — e veja no que vai dar.

— Eu não preciso dizer a você no que isso poderia dar — respondeu ele.

— Você nunca vai saber se não tentar — disse-lhe Cassie. Ela rabiscou dois números no bloquinho, rápido e de memória, Logan percebeu. Então arrancou a página e entregou a ele. Depois de ter feito isso, ela se levantou com a graça elegante que sempre o surpreendera um pouco, dada a altura dela. Acarinhou Parceiro de novo e desceu os degraus no movimento lento e resoluto de uma geleira, deixando que Logan saísse do caminho dela ou então corresse.

Parceiro permaneceu atrás, sobre o degrau da varanda, mas deu um suspiro curto, triste de ver Cassie ir embora.

Logan abriu a porta do carro dela, como um cavalheiro. Por que motivo Cassie não comprara algo mais decente para dirigir estava além do seu entendimento — ela recebia um bocado do lucro do cassino local duas vezes por ano, assim como os outros 40 e tantos membros de sua tribo.

— Da próxima vez que eu vir você — disse ela, apontando o dedo para ele — é bom que me diga que falou com Dylan e Tyler. E não seria má idéia barbear-se e vestir algo com colarinho e botões. — Ela parou para puxar a camiseta dele. — No meu tempo, essas coisas eram roupa de baixo.

Logan riu.

— Senti falta de você, Cassie — disse ele, inclinando-se para beijar-lhe a bochecha. — Amanhã, Parceiro e eu vamos lhe fazer uma visitinha. Vou levá-lo ao veterinário e tenho uma reunião com meu empreiteiro. Posso prometer barba feita e uma camisa abotoada até embaixo, até mesmo um corte de cabelo. Mas, se vou ligar para meus irmãos ou não... Bem, isso veremos.

— Quanto mais você adiar, mais difícil vai ficar — disse Cassie, sem se mover para entrar no carro. — Você veio para ficar, Logan, ou está apenas de passagem para cuspir no túmulo de seu pai, ou vender sua parte no terreno a algum ator?

— Espero que você não fique aí parada, fingindo ser a presidente do fã-clube de Jake Creed — implicou Logan.

— Nós tivemos nossas rusgas, Jake e eu — admitiu Cassie. — Mas ele era seu pai, Logan. Do jeito doido dele, Jake amava vocês.

— Sim, era bem "família Doriana" o jeito como a gente vivia — caçoou Logan. Havia uma nota de respeito em seu tom de voz, mas era por Cassie, não por Jake. — Acho que você se esqueceu do dia em que ele cortou a árvore de Natal ao meio com uma motosserra. E aquele maravilhoso dia de Ação de Graças, quando decidiu que o peru estava queimado e o arremessou pela janela da cozinha?

Cassie suspirou, pôs a mão sobre o ombro de Logan.

— E aquele dia em que você e Dylan decidiram fugir de casa e se perderam lá na floresta? Foi em novembro, e o moço do tempo previa recorde de temperaturas baixas. O xerife suspendeu as buscas quando o sol se pôs. Mas Jake... Ele continuou procurando. Encontrou vocês e os trouxe para casa.

— E nos arrastou para a cabana de madeira.

— Se ele tivesse desistido, vocês teriam sido arrastados para o necrotério. Sei que ele deu uma coça em vocês, e eu o teria impedido se estivesse lá. Mas não foi a raiva que o fez bater em vocês, Logan Creed. Foi o simples e velho medo de sempre.

— Hoje, chamam isso de maus-tratos contra criança — assinalou Logan.

— Hoje — contrapôs Cassie — há tiroteio nas escolas e, na hora de se formar, as crianças não podem fazer provas porque isso poderia causar danos a autoestima delas. Chamam os assistentes sociais se a tela de TV no quarto delas é muito pequena, ou se o computador não é rápido o bastante. Não estou bem certa se uma boa surra não seria um favor que se faria a alguns desses jovens marginais que passam o tempo atrás do ginásio da piscina quando deveriam estar em sala de aula.

— Isso é tão politicamente incorreto — disse Logan, embora no íntimo concordasse.

— Eu não tenho de ser politicamente correta — retrucou Cassie, fungando.

Era verdade. Não precisava. E não era. Ela afundou no banco do motorista. — Bem-vindo de volta, Logan — disse ela, observando-o através da janela aberta. — Estou vendo que você vai ficar.

Ele pensou em Briana Grant, em seus filhos espertos e na cadela gorda e preta. A idéia de ficar não pareceu tão desanimadora como antes.

— Acho que Dylan está de volta — arriscou ele. — Há tempo o bastante para contratar um caseiro, de qualquer forma.

Cassie apenas assentiu cora a cabeça, enquanto esperava.

— Ele está... Dylan e Briana estão...?

Os olhos castanhos de Cassie se aqueceram com humor e compreensão.

— Juntos? — disse ela. — Foi isso que você quis dizer?

— Sim — resmungou Logan, pois sabia que ela o deixaria ali esperando se ele não respondesse. — Foi isso o que eu quis dizer.

Ela encolheu um ombro.

— Você conhece Dylan. Quando ele está atrás de uma mulher...

As articulações de Logan doeram quando ele agarrou a extremidade inferior da janela do carro de Cassie. Cassie sorriu e acariciou uma das mãos dele.

— Se você quiser saber algo sobre Dylan e Briana — disse ela com doçura deveria perguntar a um deles. Sou apenas uma velha senhora, às voltas com meus próprios problemas. Como poderia saber o que está... ou não está... acontecendo entre esses dois?

— Você sabe de tudo — rebateu Logan. Se ele não estivesse de camiseta, estaria suando no colarinho. — Sobre todo mundo em Stillwater Springs e num raio de oitenta quilômetros em todas as direções.

Cassie suspirou. Engatou a marcha à ré.

— É melhor você se afastar — disse ela — se não quiser que eu passe por cima dos seus dedos.

Como não era bobo, Logan deu um passo para trás.

Ele observou Cassie fazer com rapidez a curva e, veloz, voltar para a estrada com o pequeno carro de motor barulhento, que soltava uma fumaça azul pelo cano de descarga e chacoalhava peças frouxas. Quando ela chegou ao topo da subida e sumiu de vista, ele olhou para o papel que ela lhe dera.

O telefone de Dylan. O de Tyler.

Parceiro desceu os degraus da varanda e roçou a perna de Logan, como que insistindo para que ele resolvesse logo aquele problema.

Cassie estava certa, claro. Não ia ficar mais fácil.

Ele pegou seu celular e discou o número de Dylan, torcendo para que caísse na caixa postal.

— Alô — disse Dylan, ao vivo e em pessoa. — Dylan Creed. Logan sentou no degrau da varanda, exatamente no lugar onde Cassie sentara antes. Limpou o pigarro da garganta.

— Você conferiu o identificador de chamadas antes de falar? — perguntou ele.

Silêncio.

— Logan?

— Sou eu — disse Logan, precavendo-se contra o que viesse. Preparado tanto para uma reação violenta, com xingamentos, como para que lhe batessem o telefone imediatamente na cara.

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Dylan pareceu aturdido, tão sem palavras como Logan.

— Quem diria! — disse Dylan finalmente. — Onde você está?

— No rancho — respondeu Logan, aliviado.

— O que está fazendo aí? — Agora havia irritação no tom de voz de Dylan, ele parecia ligeiramente suspeito.

— Nada demais, no momento — disse Logan, coçando a orelha de Parceiro. — O lugar está caindo aos pedaços. Pensei em ajeitá-lo um pouco. A minha parte dele, pelo menos.

Houve outro silêncio, pulsando com todas as coisas que nenhum deles ousava expressar.

— O que andou tramando, Logan?

Era interesse fraterno, aquela pergunta, ou uma acusação? Logan decidiu conceder a Dylan o benefício da dúvida.

— Larguei os rodeios, me casei e me divorciei algumas vezes, abri um negócio. E você?

— Coisas parecidas — revelou Dylan em voz baixa. — Também parei de participar de rodeios. Não tenho esposa, nem atual nem ex. Mas tenho, sim, uma filha de 2 anos. O nome dela é Bonnie... ou era, da última vez que ouvi. A mãe dela o mudou uma dezena de vezes desde que a criança nasceu.

Logan fechou os olhos. Seu próprio irmão tinha uma filha, sua sobrinha, e ele nem sabia que a menininha existia.

— Da última vez que você ouviu? Você não vê a Bonnie, Dylan?

Por um instante, a ligação pareceu cair, então Dylan tomou fôlego.

— Não muito — admitiu. — Era para Sharlene compartilhar a guarda, mas ela não compartilha.

— Talvez eu possa ajudar você nisso — Logan se ouviu falando.

— Sim — retrucou Dylan, e a irritação voltou a sua voz. — Você é advogado. Sempre esqueço.

Também sou seu irmão.

— Olhe, se você resolver ter aconselhamento jurídico, é só me ligar. Mas, se não quiser, tudo bem. Só liguei porque...

— Por que você ligou, Logan? — Um desafio. Aquilo era bem de Dylan: supor que Logan tinha de estar tramando algo para entrar em contato depois de tanto tempo.

— Acho que voltar para casa me deu um pouco de nostalgia, só isso — disse Logan.

— Para casa? — repetiu Dylan, de pavio curto. — Onde ela fica?

Logan não disse nada.

— O que você quer?

As palavras magoaram Logan bem mais do que ele admitiria.

— Nada — confessou. — Só achei que podíamos conversar.

— Você está planejando vender sua parte no rancho, não está? É por isso que está contratando empreiteiros e comprando tábuas. Para poder afanar uns milhões de algum tipinho de Hollywood?

Ah, as fofocas, pensou Logan. Dylan sabia que ele estava ajeitando a casa do rancho, porque ainda tinha suas fontes na cidade. Perguntar onde Logan estava fora uma mera formalidade.

— Não estou vendendo — disse ele sem alterar o tom da voz. ― Vim para ficar. E se você está pensando em liquidar sua parte do lugar, cubro a oferta de quem quer que seja. — Essa linha de raciocínio levou-o a Briana Grant, já que ela estava morando na casa de Dylan. E seguir esse raciocínio criou problemas para Logan. Demorou o tempo de uma pulsação para que ele percebesse que havia dito a coisa errada.

— Se eu fosse vender meus quatro mil hectares... e não vou... é certo como o diabo que não deixaria você comprar minha parte.

Vai começar, pensou Logan.

— Por que isso?

— Você sabe. Por causa das coisas que disse do nosso pai.

— Eu estava errado, certo? Eu devia ter sido mais respeitoso, devia ter guardado minhas opiniões para mim mesmo. Desculpe, Dylan.

Mais silêncio. Dylan estava preparado para um contra-ataque, mas o pedido de desculpa inesperado o desconcertou um pouco,

— Dylan? Você ainda está ai? Dylan suspirou alto.

— Estou aqui.

— E "aqui" fica onde?

— Los Angeles — disse Dylan. — Tive uma reunião com meu agente e um pessoal do estúdio. Estou trabalhando como dublê num filme. Vão filmar lá em Alberta, a partir da semana que vem.

— Você gosta desse tipo de trabalho? — perguntou Logan. Ele não conseguia imaginar como alguém podia gostar.

— É um jeito de ganhar a vida — respondeu Dylan. — E paga a pensão alimentícia.

Logan foi fundo, embora soubesse que a profundidade pudesse ser grande.

— Estou pensando em criar gado no rancho. Em comprar alguns cavalos também. Talvez você queira ser meu sócio.

— Nós não nos entenderíamos nem por dez minutos — sentenciou Dylan, mas havia algo de nostálgico no modo como ele disse essas palavras.

Logan riu.

— Nós nunca nos entendemos — respondeu ele. — Mas nos divertimos muito entre uma briga e outra.

Mais silêncio.

Então Dylan também riu.

— É mesmo — admitiu ele.

Foi a primeira coisa em que eles concordaram numa década.

— Você vai ligar para o Ty? — perguntou Dylan.

— Em algum momento.

— Bem, vá devagar quando ligar. E não dê meu nome como referência. No momento, ele está bem irritado comigo.

— Por quê? — quis saber Logan, embora pudesse imaginar mil motivos.

Mas Dylan o cortou.

— Assunto pessoal — disse friamente. Isso é entre mim e Ty. Você fica do lado de fora, olhando para dentro. — Veja, Logan, foi bom ter notícia de você, mas preciso desligar. Tenho um encontro.

— Certo — respondeu Logan. Ele e Dylan haviam sido corteses um com o outro. Quando visse Cassie na manhã seguinte, Logan podia dizer, honestamente, que tentara. — Boa sorte no filme.

Dylan agradeceu e desligou.

Logan olhou para Parceiro, que o olhava com sentimento.

— Um já foi, falta o outro — disse ele ao cachorro. Parceiro choramingou.

Logan consultou de novo as anotações de Cassie, então discou o número rabiscado ao lado do nome de Tyler. Um toque. Dois. Três.

Depois, a mensagem gravada.

— Aqui é Tyler Creed. Estou ocupado agora, mas retorno a ligação, a não ser que você esteja vendendo algo. Nesse caso, você está sem sorte. Aguarde o bipe e desembuche.

Logan riu entre os dentes, aguardou o bipe.

— Aqui é Logan — disse ele. Deixou seus dois números de celular e o novo, do rancho. — Me ligue. Não estou vendendo nada. Uma ova que não estava!

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Capa do romance A Esposa Que Ele Nunca Viu
8.7
Vivi cinco anos em uma gaiola de ouro, acreditando que meu marido me valorizava apenas por eu carregar o coração transplantado de Isadora, sua falecida amada. No nosso aniversário, o impossível aconteceu: Isadora reapareceu viva, revelando que sua morte foi um teste cruel. Pior ainda, ela confessou que o órgão em meu peito nunca foi dela. Toda a minha existência e o meu casamento foram construídos sobre uma mentira devastadora e sem sentido.
Capa do romance A quimica de todas as cores
9.6
Rose Campbell inicia sua trajetória acadêmica em artes visuais numa prestigiada universidade em Nova York. Ao lado de um grupo de amigos que se torna seu porto seguro, ela encara as descobertas da vida adulta. Sua rotina ganha novas cores quando Christian Davis, um enigmático estudante de Química, cruza seu caminho. Entre sentimentos intensos e inspirações, Rose logo percebe que a fronteira entre o amor e o ódio pode ser surpreendentemente frágil.
Capa do romance APAIXONADA PELO MEU TIO
8.3
Serena é uma jovem sonhadora de 19 anos, dona de marcantes olhos mel. Sua vida muda ao conhecer o irmão de sua mãe, um homem que partiu cedo para alcançar o sucesso e rompeu laços familiares. Ele retorna agora para o funeral da mãe adotiva, revelando-se um bilionário fascinante e atraente. Entre o tio bem-sucedido e a sobrinha, surge uma conexão magnética e mútua. O encontro inesperado desperta desejos intensos, dando início a um perigoso e proibido romance.
Capa do romance GRÁVIDA APÓS DIVÓRCIO
7.9
Desesperada para salvar o irmão, Eli aceita um acordo com o implacável Leonardo Casanova: ser mãe substituta do herdeiro do império. No entanto, o que era apenas um contrato torna-se doloroso quando ela se apaixona pelo frio bilionário. No momento em que engravida, Leonardo decide cancelar o pacto e exige o divórcio, sem saber de seu estado. Ela parte para recomeçar, mas o destino os reúne, e ele agora se recusa a deixá-la escapar de sua vida.
Capa do romance Liberdade Após a Dor
7.8
Após sete anos de um casamento cruel, Pedro escolheu salvar Carla, sua colega grávida, deixando-me para trás em uma enxurrada. Perdi meu bebê e fui odiada por todos, inclusive por meu filho. Quando Pedro usa uma máquina do tempo para reescrever o passado ao lado de seu verdadeiro amor, decido também retornar. Não busco vingança, mas minha liberdade. Deixarei que ele viva seu conto de fadas com Carla enquanto me salvo do destino trágico que um dia aceitei.
Capa do romance •MINHA MULHER•
9.4
Hanna Blunt fugiu por anos da violência do pai, Alaric. Ao retornar a Nova York com a mãe, ela teme reviver o passado sombrio. Contudo, um encontro inesperado muda tudo: após uma noite intensa com Declan Goode, irmão de sua amiga e líder de um clã mafioso, Hanna descobre que se envolveu com um homem perigoso. Agora, além de escapar das garras do pai, ela precisa lidar com a perseguição obsessiva do possessivo e sedutor Declan.