
Logan - Irmãos Creed livro 1
Capítulo 3
Solenemente, Alec presenteou Briana com um pedaço amassado de papel de bloquinho de anotação. As marcas a lápis que formavam o número do telefone de Vance estavam marcadas com força, como se Alec tivesse tido medo de que desaparecessem se ele não anotasse com toda a sua força.
A tristeza sentida por Briana naquele momento pesou em seu coração. Mesmo Alec, o fã mais leal de Vance, sabia que os algarismos naquele número de telefone eram esquivos. Como seu pai.
Lágrimas esquentavam o fundo de seus olhos, e ela tocou o pingente que ela sempre trazia em volta do pescoço — ela mesma o fizera, escaneando uma velha foto de seu pai, redimensionando-a, moldando-o em resina. Ele também fora um viajante, um famoso palhaço de rodeio que fazia o circuito dos rodeios durante a temporada, estacionando seu trailer na casa da irmã dele em Boise quando não havia rodeios onde se apresentar. A diferença era que ele levava Briana nas viagens depois da morte da mãe dela. Tinha então a idade de Alec, 10 anos.
Sua tia Barbara se opunha, claro, às viagens e ao fato de Briana fazer seus trabalhos escolares por correspondência em vez de ir a uma escola de verdade. Uma menina precisava de amigos, argumentava Barbara. Precisava de aulas de dança, de catecismo aos domingos e de estabilidade.
Sempre que voltavam a Boise, a tia de Briana, amável ainda que autoritária, a empurrava para testes na escola. Briana sempre provava estar bem acima do nível de sua série. De fato, ela terminou o ensino médio aos 15 anos. Imediatamente, Bill a inscreveu em cursos para ingressar na universidade. E ela tirou nota máxima nestes também, com a ajuda dele.
Ela guardava como um tesouro a lembrança deles dois sentados junto à pequena mesa dobrável no trailer, com a luminária lançando por sobre suas cabeças uma auréola dourada, os dois curvados sobre um ou outro manual de estudo.
Agora, com os filhos otimistas diante dela, ela sentia a falta do pai mais pungentemente do que nunca. Certo, ele a arrastara pelos Estados Unidos naquele velho trailer, mas fora firme como uma rocha também. Estava lá ao lado dela, não importava o que viesse.
Seu maior arrependimento, no que dizia respeito aos filhos, era não ter dado a eles o tipo de pai que Bill fora para ela. Em vez disso, ela fora arrebatada pela boa aparência, o charme e a fala macia de Vance.
— Você vai ligar para papai? — perguntou Alec, com voz miúda.
Briana sorriu.
— Sim — disse ela. — Mas só para perguntar quanto tempo ele vai ficar.
Alec ficou incrivelmente aliviado. Seu olhar se desviou para o pingente, para o cordão de couro simples e a imagem de Bill McIntyre, o Louco, com roupa de palhaço.
— Você tem saudade do vovô, hein?
— Um bocado — admitiu Briana. Seu pai se afastara dos rodeios logo depois de ela se casar com Vance, trocando seu amado trailer por uma casa modesta a uns poucos quarteirões de Barbara e da família dela, dizendo que estava totalmente preparado para pescar todo dia e esperar seus netos aparecerem.
Um mês mais tarde, ele morreu de repente, depois que um caso grave de gripe que se transformou em pneumonia.
A ironia do caso ainda aborrecia Briana. Seu pai levara chifrada de touro, fora pisoteado por cavalos xucros durante sua longa carreira de palhaço de rodeio, e no fim morrera de um desconforto que uma simples injeção poderia ter evitado. Alec inclinou-se e deu um beijo no rosto de Briana.
— Boa noite, mãe — disse ele — e obrigado. Briana esperou até que Alec e Josh entrassem em casa, mantendo-se ocupada com a arrumação da cozinha, lavando a louça que deixara na pia desde aquela manhã, fazendo uma lista do supermercado, checando mais de uma vez sua escala de trabalho da semana seguinte. Finalmente, com as mãos molhadas de suor, tirou o telefone do gancho e ligou para Vance.
— Este número — respondeu um operador automático, depois de três toques — está fora de serviço.
Claro que estava, pensou Briana, colocando o fone no gancho com uma leve pancada. E sentindo-se ao mesmo tempo aliviada e contrariada. Vance tinha de ter comprado mais minutos para manter aquela linha particular funcionando. Em vez disso, simplesmente comprara outro telefone numa outra loja de conveniência, com um número novo que ele não se preocupara em informar a ela.
Briana raramente tinha algo a dizer a Vance. Mas e se um dos meninos ficasse doente, ou se machucasse? Como é que ela iria encontrá-lo?
Resignada, Briana suspirou e conferiu no relógio sobre o fogão. Cedo demais para ir dormir, ainda mais com toda aquela cafeína correndo por seu corpo. E ela não estava a fim de ver televisão ou navegar na internet.
Passando pela sala de estar, se esforçou para olhar através da cortina de renda em direção à casa principal do rancho. Viu suas luzes através das árvores do pomar pela primeira vez desde que se mudara para a casa de Dylan como caseira residente.
A vista era reconfortante, fazia com que se sentisse menos isolada, menos sozinha. Não que pensasse em tornar-se simpática demais com Logan Creed — ele estava bem à vista, e ela gostara dele desde que o viu, mesmo a tendo deixado nervosa. Mas ele era um caubói. Como Vance.
Ele fora trazido por um vento vadio, como um daqueles tufos de arbustos secos que rolam ao léu no velho oeste. E era provável que ele sumisse com o vento de novo, quando a brisa certa chegasse.
Mordendo o lábio inferior, Briana saiu da janela. Na distância, o telefone tocou.
Ela correu para atender, batendo com a canela numa das cadeiras da cozinha. Com um gesto de dor, agarrou o fone e disse:
— Alô? Vance? Silêncio.
— Alô? — repetiu Briana. — É Logan — disse seu vizinho em voz baixa.
— Oh — disse Briana.
— Vou ser rápido, já que você está esperando uma outra ligação — respondeu Logan afavelmente. — Verifiquei a cerca do pasto de Dylan e não acho que ela segure aquele touro se ele resolver atacar. Como já estou planejando fazer um bocado de serviços naquele lugar, vou colocar novos moirões e sarrafos. Apenas pensei em avisar a você antes de as equipes de trabalho chegarem.
Não estou esperando outra ligação. Foi o que Briana quis dizer. Mas não conseguiu revelar que estava contente por ele ter telefonado, contente por ouvir a voz de outro adulto numa noite escura de verão. Ele iria pensar que ela estava carente se o fizesse. Disponível no mercado.
— Você pediu a autorização do Dylan? — perguntou ela em vez disso, massageando a canela machucada. Foi então que quis ter ido pelo caminho da carente, sem se importar. Teria sido melhor do que o modo impertinente como levantou a questão.
Logan esperou o tempo de uma pulsação antes de responder, para que ela notasse que ele registrara o tom dela:
— Não vejo como ele se oporia, já que estou pagando a conta. Se aquele touro escapasse e causasse algum estrago, o Dylan é que teria de se esconder dos advogados, não eu.
A imagem de Cimarron fora de si, correndo atrás de Josh e Alec afastou imediatamente da mente de Briana todas as preocupações com o modo como suas palavras teriam soado a Logan. Como assistira a centenas de rodeios, ela testemunhara touros jogarem caubóis e palhaços para o alto, em saltos-mortais, e furarem suas caixas torácicas quando eles aterrissavam.
— Você acha mesmo que ele poderia se soltar? Refiro-me ao Cimarron.
— Sim — respondeu Logan.
— Ai, meu Deus — murmurou Briana, fechando os olhos. Era difícil encontrar quem cuidasse de crianças em Stillwater Springs. Assim, quando ela não podia levar os meninos consigo para o trabalho, onde os deixava estudando ou jogando videogame na lanchonete do cassino, ela os deixava brincando, estudando ou fazendo as tarefas em casa. Eles tinham ordens estritas para telefonar a qualquer sinal de problema, mas eram garotos, afinal de contas. Espertos e aventureiros. Ela sabia que eles provavelmente exploravam a maior parte do rancho quando ela não estava por perto.
— Há algo errado? — perguntou Logan com sensatez.
— Preocupações — disfarçou Briana tentando sorrir, embora não conseguisse entender por que, já que estava sozinha na cozinha e Logan não podia vê-la. — Coisa de mãe.
— Vou cuidar da cerca ― assegurou-lhe Logan. — Enquanto isso, cuide para que os meninos fiquem longe de Cimarron. — Pausa. — Dylan não avisou você sobre os ursos, avisou?
Briana engoliu em seco.
— Ursos?
— Eles gostam de invadir o pomar de vez em quando — revelou Logan.
— Em dois anos — disse Briana, com o estômago revirando lentamente — não vi um único urso.
— Eles estão por aí — respondeu Logan. — Na maioria, ursos pardos ou negros. Mas de vez em quando aparecem também os cinzentos, e eles são desagradáveis.
— Os Grandes Cinzentos? — repetiu Briana, estupefata. Logan suspirou.
— Dylan deveria ter contado a você — disse ele.
Briana mal conhecia Dylan Creed, mas tinha toda razão para ser grata a ele, já que lhe dera um lugar para ficar quando ela mais precisou, além de um estoque generoso de mantimentos e uma velha caminhonete. E a nota ligeiramente crítica na voz de Logan colocou-a na defensiva.
— Acho que o assunto nunca veio à baila — disse friamente.
— Com Dylan — retrucou Logan secamente — os assuntos mais importantes freqüentemente não vem à baila.
— Vou tomar cuidado com o Cimarron e com os ursos — falou Briana.
Havia mais coisa que Logan queria dizer, ela podia sentir, mas ele devia ter aplacado o impulso.
— Bom — disse ele, depois de muitos segundos. Nada mais, apenas Bom.
Um homem de poucas palavras, portanto. Chamada em espera ligada. Como Briana não tinha identificador de chamadas, e como seus anjinhos bons haviam sussurrado que Logan a avisara e que ele não tinha razão de ser hostil, ela ignorou os bipes.
— Talvez você queira se juntar a nós para o jantar amanhã — sugeriu ela, para compensar seus maus modos.
Um rubor subiu por seu pescoço enquanto ela esperava pela resposta de Logan.
— Posso levar alguma coisa? — perguntou ele de pronto.
— Não precisa — disse ela, estranhamente exultante por ele ter aceitado tacitamente o convite. Era apenas um jantar, uma cortesia de vizinho para vizinho. Não era grande coisa. — O Parceiro também é bem-vindo, claro. Seis e meia? Chego do trabalho por volta das cinco e quinze e vou precisar de tempo para tomar uma ducha, cozinhar e tudo mais.
Mais informações do que ele precisava, pensou Briana, ficando ainda mais ruborizada. O que havia com ela?
— Seis e meia — concordou ele, com um sorriso na voz. Era como se ele soubesse que ela estava vermelha da garganta até a raiz dos cabelos.
Eles se despediram e desligaram. E, no instante em que a ligação terminou, o telefone tocou de novo.
— Alô — atendeu Briana. Será que Logan já mudara de idéia quanto ao jantar? Teria lembrado um compromisso anterior?
— Oi — disse Vance. — Acabei de tentar falar e... Briana soltou um longo suspiro.
— Eu estava numa outra conversa.
— Você ouviu minha mensagem?
— Sim. Você está pensando em fazer uma visita. — Baixou a voz, já que o quarto dos meninos ficava perto, e ela não botava a mão no fogo por eles, que bem poderiam estar colados do outro lado da porta com os ouvidos ligados em banda larga. — Alec vai ficar seriamente desapontado se você não aparecer.
— E quanto a você, coração? — disse Vance com voz arrastada, caprichando no número de caubói que a sugara para a órbita dele da primeira vez. — E você ficaria desapontada se eu não aparecesse?
A pressão sangüínea de Briana subiu repentinamente. Ela esperou que a pressão fosse à máxima e baixasse antes de responder:
— Nem um pouco. Estamos divorciados, Vance. D-I-V-0-R-C-I-A-D-O-S.
De modo atípico, ele recuou. Estava pegando leve, o que significava que ele queria algo.
— O que há, Vance? — perguntou ela, tão calmamente quanto pôde. Se chegasse forte demais, ele iria simplesmente bater o telefone na sua cara. Mas ela também não ia aturar. — Você não veio a Stillwater Springs quando Josh operou as amídalas no outono. Você não deu as caras no Natal, no dia de Ação de Graças e nos aniversários dos meninos. O que há de tão importante para você se dispor a viajar para tão longe do circuito para dormir no sofá da minha sala?
Por debaixo da resposta de Vance, ouviu-se um suspiro longo e reticente de paciência muito sofrida. Ele era tão mal compreendido...
— Eu só quero conversar com você cara a cara, só isso. E ver os meninos.
E ver os meninos.
Como sempre, as observações atrasadas.
— Sobre o quê? — Briana quis saber, ainda lutando para manter a voz baixa. — Vance, me poupe, espera livrar-se de pagar a pensão alimentícia de novo...
— Não se trata disso — ele interrompeu, fazendo-se de vítima. — Por que tudo sempre acaba em dinheiro com você, Bri?
— Se comigo tudo "acabasse em dinheiro", Vance Grant, você estaria na cadeia neste instante. Josh e Alec são seus filhos. Não se sente responsável por eles?
— Eu os amo — disse, passando de vítima a profundamente magoado.
— Falar é fácil — replicou Briana.
— Você quer que eu vá ou não? Posso chegar no sábado.
— Eu trabalho no sábado.
— Está bem — respondeu Vance, então magnânimo. — Posso passear com os meninos até você chegar em casa.
Briana pensou em Alec, seu rosto tão cheio de esperança. Depois era Josh, que ameaçara fugir se Vance cumprisse a promessa de visitá-los.
— Alec vai ficar excitado — disse ela, a bem da verdade. — Boa sorte com Josh, no entanto.
— O que há com meu camarada Josh?
— Eu diria que ele vê você por dentro, Vance — respondeu Briana. Josh não precisava de um companheiro, precisava de um pai, conceito este bem além da capacidade de compreensão de Vance.
— E isso quer dizer o quê? — perguntou Vance, furioso. Esse é o Vance que conheço, pensou Briana. Acabou o sr.Rapaz Simpático.
Pare de atiçá-lo, disse seu anjo da guarda.
Às vezes, tinha vontade de estrangular o anjo da guarda.
— Descubra — disse ela.
— Olhe, não preciso disso. Talvez fosse melhor se eu simplesmente permanecesse afastado.
Briana fechou os olhos, mas a imagem de Alec continuava presente, ansioso por uma visita do pai que ele adorava. Ela teve de parar de pensar sobre o que ela mesma queria — nunca mais ter de olhar de novo para Vance — e levar em conta as necessidades de seus filhos. Certo ou errado, Vance era o pai deles, e assim como protestava, Josh queria uma relação com o pai tanto quanto Alec.
— Desculpe — disse ela, quase engasgando com a palavra.
— Sabe o que há de errado com você? — retrucou Vance. Ele mudara de tática de novo, girando o botão até a posição "charme". — Você precisa de sexo.
Imediatamente, Logan Creed veio à mente. O peito dele seria peludo ou macio, quando ele tirasse a camiseta? Briana deu uma sacudida em si mesma, por dentro.
— Talvez eu precise — admitiu. — Mas não com você. Portanto, não me venha com idéias. Você vai dormir no sofá.
— Meus planos eram esses mesmo — disse Vance. — Isso me faz lembrar... o sofá é dobrável?
Ele fizera a mesma pergunta na mensagem que deixara na secretária eletrônica. Briana ficou confusa. E um pouco assustada.
— Sim — confirmou devagar. ― Por que a pergunta? Vance riu entre os dentes, o que soou falso.
— Fui jogado do lombo de muitos cavalos nos meus tempos — respondeu, — Preciso pensar nas minhas costas, agora que estou ficando velho.
— Certo — disse Briana, ainda curiosa, mas sem querer levar o assunto adiante. Ela já havia, por assim dizer, conversado demais com Vance. Vinte minutos de sua vida jogados fora, e ela nunca mais os teria de volta.
— Vejo você no sábado — despediu-se Vance com alegria, como se ela estivesse ansiosa com a chegada dele, em vez de apreensiva, com todas as fibras de seu ser.
— Vejo você no sábado — repetiu ela, com desalento. Então desligou o telefone.
— Eu devia lhe dar um soco — disse Jim Cavalo Selvagem na manhã seguinte, quando Logan foi atrás dele no Cassino Council Fire. Logan sorriu.
―Também fico muito feliz em ver você de novo, amigo velho — ironizou ele, puxando uma cadeira junto a uma das mesas da lanchonete e fazendo sinal para que a garçonete trouxesse um café. Como Parceiro ficara do lado de fora, na caminhonete, ele não estava pensando em demorar muito tempo. Ia tomar o café e partir. Deu uma olhada no fino terno preto de Jim. — Você subiu na vida — disse Logan. — Gerente geral. Quem ia imaginar?
— Quem ia imaginar — repetiu Jim, suavizando um pouco, mas não muito — que você deixaria a cidade sem dizer "adeus" a seu melhor amigo? Não telefonou. Não mandou e-mails. Nada.
— Quando o juiz relaxou minha prisão depois da briga com Tyler e Dylan, ele disse que eu não desse as caras em Stillwater Springs antes de me acalmar.
— Levou 12 anos para você se acalmar?
— Filho de peixe... — disse Logan, enquanto aprovava com a cabeça o café, servido numa xícara descartável, e pegava a carteira.
Jim fez sinal com a mão, dispensando a garçonete e o dinheiro.
— Você pode dizer isso de novo. — Jim franziu o cenho, ainda ameaçador. Ele ficou em pé ao lado da mesa, sem dar sinal de que iria sentar-se, os grandes punhos fechados na cintura, como se fosse levar a cabo a ameaça inicial. — Você é tão louco quanto seu pai foi.
— Estou de volta — anunciou Logan, depois de um gole cauteloso da infusão fumegante. — E exceto pela compra da comida no supermercado e por levar meu cachorro ao veterinário, para fazer um checkup, esta é minha primeira parada.
— Será que há algum elogio escondido aí? — perguntou Jim, franzindo o cenho.
— Sente-se. Você está projetando uma sombra do tamanho de uma montanha com o sol atrás de você.
— Estou trabalhando — frisou Jim. Mas puxou uma cadeira e sentou.
— Você é prioridade. Eis um elogio a você.
— Nossa, obrigado. Casei-me, nenhum parceiro do jardim de infância para ser meu padrinho. Divorciei-me, ninguém com quem encher a cara para esquecer. E sou uma "prioridade"?
— É pegar ou largar — disse Logan. — É o melhor que posso fazer.
Jim cedeu, afinal. Um sorriso escapou e iluminou de lado a lado seu rosto de índio esculpido a cinzel.
— Você está apenas de passagem, talvez procurando briga com um de seus irmãos? Ou finalmente caiu em si e decidiu que alguém deveria voltar para cá e cuidar do rancho?
Logan deixou sobre a mesa uma gorjeta para a garçonete, que, do lado de lá do balcão, os observava atentamente. Durante a fração de segundo que levou para que ele colocasse o dinheiro sobre a mesa, o rosto de Jim mudou. Ficou novamente sombrio.
— Você não vai vendê-lo a algum caipira do cinema, vai? Logan fez que não com a cabeça.
— Vou ficar para sempre. — Esse refrão estava se tornando familiar, como um anúncio que se ouve com muita freqüência no rádio ou na tevê.
De novo, o sorriso deslumbrante. Aqueles dentes brancos e todo aquele papo de beleza selvagem certamente haviam funcionado com as mulheres quando eles eram jovens e saíam atrás delas. Talvez ainda funcionassem, pensou Logan.
— Você está falando sério? — perguntou Jim.
— Estou falando sério.
— Você também falou sério quando prometeu ser padrinho em meu casamento — observou Jim.
— Eu estava no Iraque — disse Logan.
— Você esteve no Iraque?
— Não foi o que acabei de dizer?
— Só porque você diz algo, Creed, isso não significa que seja verdade.
— Quando minhas tralhas chegarem aqui, vou mostrar a você a documentação. Dispensa honrosa. Até algumas medalhas.
Jim assobiou baixo.
— Então foi por isso que abandonou os rodeios. Você sempre aparecia no canal de esportes na tevê. Então, de repente, sumiu. Você foi convocado?
— Eu me alistei — disse Logan. — Será que podemos deixar de lado a conversa sobre o Iraque, agora mesmo?
Jim franziu o cenho, claramente confuso. Ele mesmo era um veterano de guerra, e entre parceiros, os rapazes trocavam histórias de guerra.
— Por que não?
— Porque preciso beber muito até mesmo para pensar em combate, que dirá falar sobre isso. E, dada minha gloriosa história, para não mencionar a alta incidência de alcoolismo no clã dos Creed, tento me limitar a uma cervejinha de vez em quando.
— Oh — disse Jim. — Ruim, hein?
— Ruim — admitiu Logan.
— Você era das Forças Especiais, certo?
— Isso mesmo. E isso é falar sobre o Iraque. Estou sóbrio como uma pedra e gostaria de continuar assim.
— Tudo bem — concordou Jim rapidamente, levantando ambas as mãos, com as palmas viradas para fora. — Tudo bem.
Logan levantou-se.
— Só dei uma passada para dizer "olá" e que voltei. Meu cachorro está na caminhonete e tenho de me reunir com alguns empreiteiros. Além disso, prometi passar na casa de Cassie antes de tomar o rumo de casa.
Jim sorriu, levantando-se também.
— Você tem um cachorro e uma caminhonete? Você está virando mesmo um caipira.
— Não — disse Logan, acenando para a garçonete quando ela se virou para ir embora. — Ainda tenho meus dois dentes da frente.
— Não por muito tempo — brincou Jim — , se um de seus irmãos estiver se coçando para voltar, como você voltou.
Jim estava apenas zombando, mas as palavras acertaram um lugar ferido de Logan. Era demais esperar que os caminhos pessoais de Dylan e Tyler fizessem a volta e ventassem no rumo de casa, e que os três pudessem chegar a algum tipo de acordo, mas Logan tinha esperança de que isso acontecesse, apesar de tudo.
Seu amigo o acompanhou até a porta de entrada do cassino. Máquinas caça-níqueis piscavam e tilintavam ao redor deles. Logan perguntou a si mesmo como alguém conseguia trabalhar naquele lugar, com todo aquele barulho.
— Saio do trabalho às seis — disse Jim. — Quer jogar bilhar, tomar uma cerveja e recuperar o tempo perdido?
— Esta noite não — respondeu Logan, lembrando o convite inesperado para jantar na casa de Briana. Ela ficara obviamente irritada quando ele mencionou Dylan. Depois, mudou de assunto e ofereceu-lhe um jantar. Mulheres eram imprevisíveis. — Já tenho planos.
— Até logo, então — despediu-se Jim. — Prometo: nada de papo sobre guerra. Isto é, a não ser que você considere meu divórcio uma história de guerra.
Logan riu e deu um tapinha nos ombros de Jim.
— A qualquer hora depois de hoje à noite — disse. — Você sabe onde moro. Passe por lá quando der.
Jim anuiu com a cabeça. Então Logan dirigiu-se à caminhonete. Jim voltou para o cassino para fazer o que gerentes gerais desses lugares faziam.
Então, Brett Turlow pensou, logo ao entrar em seu carro depois de uma noite inteira de um pôquer feroz no qual perdeu as calças: ele não era o único a retornar à velha cidade natal depois de uma longa ausência. A diferença era que ele voltara com o rabo entre as pernas. Logan Creed parecia um pouco animado demais para se achar que o caso dele fosse o mesmo.
Brett afundou no banco do motorista do Corolla amassado que pegara emprestado com sua irmã. Observou quando Creed subiu numa caminhonete consideravelmente maltratada, fez festa nas orelhas de seu cachorro e ligou o motor.
O mais provável era que Logan tivesse a intenção de vender o rancho, já que ninguém se importava com o lugar, e levar a vida.
Isso seria uma coisa boa, se ele fosse embora. Se, por outro lado, ficasse, seria um problema, pura e simplesmente.
Com cara de sono, quase doente porque estava há doze horas sem comer e porque torrara no jogo grande parte de seu seguro-desemprego, Brett pensou em fazer algumas perguntinhas. Para descobrir quais eram as intenções de Creed. Enquanto isso, precisava dormir.
Briana não se aproximou da lanchonete até que Logan tivesse ido embora. Então entrou lá bem relaxada, para dizer um olá a Millie, que era a única garçonete no serviço, e tomar um café com leite desnatado para manter-se firme durante a manhã.
Ela ficara acordada até tarde na noite anterior, tomando um café atrás do outro, preocupada se Vance apareceria no sábado, preocupada se não apareceria. Precisava de cafeína, rápido. Para rebater, por assim dizer.
Os meninos ainda estavam em casa, advertidos, sob pena de morte, a se manterem afastados de Cimarron e do pomar, onde poderia haver ursos.
— Você viu aquele sujeito conversando com Jim? — entusiasmou-se Millie, começando mecanicamente o preparo do café com leite. — Muito lindo.
Briana sentiu uma irritação de dona contrariada e um estímulo a seu estado de ânimo, as duas coisas de uma só vez.
— Os lindos são mortais — filosofou com leveza.
— Sim ― respondeu Millie, de costas para Briana e olhando para ela por cima do ombro, enquanto o leite espumava sob o bico de vapor da sofisticada máquina de café — mas que jeito de ser. Vou perguntar ao Jim o nome dele.
— Não precisa — disse Briana. — É Logan Creed. Millie arregalou os olhos.
— O do rancho Stillwater Springs?
— Ele mesmo — confirmou Briana. Assim como ela, Millie estava na cidade fazia pouco tempo. Ela ouvira sobre os irmãos Creed, no entanto. Eram quase heróis do povo.
Famosos por criarem confusão, principalmente, pelo que Briana sabia.
— Então você o conhece? — perguntou Millie, passando o café com leite.
— Eu moro no rancho — lembrou Briana à amiga. — Isso faz de nós vizinhos. — Ela resumiu bem o resto da história, que Logan iria jantar com ela e os meninos naquela noite, como se fosse um delicioso segredo de adolescente.
Tola.
Naquele instante, o rádio de Briana, preso a seu cinto, deu sinal de vida. Uma voz incorpórea a informou de que alguém acabara de ganhar uma bolada nas máquinas caça-níqueis — hora de ir até o trabalho.
Ela agradeceu a Millie pelo café com leite e partiu apressada.
O prêmio acumulado era dos grandes. Uma senhorinha de cabelos azuis que viera no ônibus dos idosos tirara a sorte grande numa máquina, e Briana passou os 45 minutos seguintes tratando da papelada.
Na condição de gerente, Jim pagou o prêmio em notas de cem dólares estalando de novas, sorrindo para a câmera bem à frente com a sortuda ganhadora.
Depois que tudo terminou, Briana puxou seu chefe de lado para uma conversa.
— Preciso de uma folga no sábado, se for possível — disse ela.
Jim franziu o cenho. Ele era um homem bom, levava o trabalho a sério e era focado em seus objetivos. Havia até um boato de que concorreria ao cargo de xerife, se o velho Floyd Book se aposentasse antes da hora por causa de problemas cardíacos.
— Os sábados são bem movimentados — lembrou Jim a Briana.
— Eu sei — disse ela.
Ele então abriu para ela aquele sorriso que fizera muitas mulheres caírem de joelhos. Jim e Briana haviam saído algumas vezes, depois de seus respectivos divórcios, mas não houve aquela faísca. Assim, quando ele foi promovido ao posto mais alto, os dois decidiram parar de se encontrar e ser amigos.
— Ei — disse ele eu conheço você. Se está pedindo uma folga, é porque é importante.
Era importante? Vance chegaria no sábado, e ela estava nervosa com o fato de ele passar o dia com os meninos, sem ela. Não havia perigo físico — Vance nunca levantara a mão para ela ou para os filhos mas Alec e Josh podiam ser magoados tão facilmente de outras maneiras.
— Meu ex-marido vai voltar nesse dia — confidenciou. O sorriso de Jim desapareceu.
— Oh.
Percebendo o que ele estava pensando — que havia uma reconciliação para um futuro próximo — , Briana ruborizou.
— Não é nada disso — apressou-se em dizer. — Só estou preocupada com o fato de os meninos ficarem sozinhos com ele o dia inteiro. Alec está sofrendo de um caso grave de adoração a um herói, e sabe Deus que idéias Vance poderia enfiar na cabeça dele. E Josh me disse que preferiria fugir...
Jim levantou uma das mãos.
— Você pode tirar folga no sábado — interrompeu. — Eu mesmo vou substituir você. Mas você fica me devendo um turno extra.
Briana assentiu com a cabeça, profundamente aliviada.
— Obrigada, Jim.
Ele sorriu, mas seus olhos escuros estavam preocupados.
— Josh ameaçou fugir?
Jim conhecia os filhos de Briana, já que eles iam à lanchonete do cassino com tanta frequência, e fora notavelmente tolerante com a presença deles. Muitos chefes não teriam sido tão compreensivos, mas Jim também tinha um filho. Sam, de 4 anos, morava com a mãe em Missoula, e não o visitava com freqüência.
Briana acariciou os braços dele.
— Não acho que Josh vá realmente cair na estrada por conta própria, mas prefiro não dar chance.
Jim soltou um longo suspiro, passou a mão nos longos cabelos negros.
— Crianças fazem bobagens às vezes — disse ele.
Briana lembrou-se do touro no pasto de Dylan, e os ursos que aparentemente se alimentavam no pomar de vez em quando. Ela olhou de relance seu relógio. Era quase hora do almoço, ia telefonar para casa da sala de estar dos empregados, que ficava atrás de um dos três restaurantes do cassino, para certificar-se de que Alec e Josh estavam seguindo suas ordens.
— Sim — concordou ela, com atraso — , às vezes, elas fazem.
Ela e Jim saíram, ela rumo à sala de estar, direto para o telefone público. Ela precisava de um celular, mas isso não estava no orçamento.
Josh atendeu ao terceiro toque.
— O Alec é um bobalhão — disse ele, sem preâmbulo.
— Mesmo se fosse verdade — respondeu Briana, acostumada às discussões intermináveis entre os filhos ele é seu irmão. O que vocês estão tramando?
— Alec está fazendo o doce de matemática, e eu estava na internet até você ligar. A Wanda comeu uma toupeira, ou coisa parecida. E está soltando uns peidos nojentos.
— Sinto seu sofrimento, Josh — disse Briana bem-humorada. — E como foi que a Wanda conseguiu comer uma toupeira?
— Eu disse "coisa parecida" — frisou Josh. Briana sorriu.
— Joshua?
— Tudo bem, foi o salsichão que sobrou de anteontem — disse Josh. — Não foi idéia minha dar a ela. Foi Alec quem deu.
Tudo na mesma.
— Você vem pegar a gente? perguntou Josh. — Fica chato aqui, quando a gente nem pode ir lá fora.
— Sem tempo — disse Briana. — Vocês vão ter de agüentar até eu chegar em casa. Vou dar uma parada no supermercado depois do trabalho. Então, pode ser que eu me atrase alguns minutos.
— O Alec está pensando mesmo que papai vai vir no sábado. Briana fechou os olhos.
— Talvez — alertou ela, sem alterar o tom da voz. — Talvez ele venha no sábado.
— Com papai é sempre "talvez" — disse Josh.
— É bem verdade. Mesmo assim, me faça um favor. Evite os comentários. Isso realmente aborrece o Alec.
— Ele vive no mundo da fantasia.
— Você é o irmão mais velho — disse Briana. — Seja gentil com ele.
Josh suspirou, fazendo drama.
— Tudo bem, mas só até você chegar em casa — respondeu ele. — Depois, a sorte está lançada.
— Muito justo — disse Briana com um sorriso. Josh reagiu com um gemido de nojo.
— O quê? — perguntou Briana, com ansiedade, pensando que a casa tivesse pegado fogo, ou que um assassino estivesse tentando arrombar a porta dos fundos.
— A Wanda acaba de soltar um — reclamou Josh.
— De novo! — Ao fundo, Alec gritou com prazer frenético.
— Bobalhão! — berrou Josh.
— Sem xingamento, Josh — ralhou Briana. — Você prometeu.
— Está bem — retrucou Josh — , mas se você não estiver aqui às cinco e meia, vou ter de matá-lo.
— Só tenho uma palavra para você, Joshua Grant.
— Qual?
— Babá — respondeu Briana. Então ela disse tchau e desligou o telefone.
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