
Livro Maldito, Amor Bendito
Capítulo 3
Tudo mudou no dia em que Isabela chegou. Ana Lúcia tinha dez anos e se lembrava de um tempo antes, um tempo em que os sorrisos de seus pais eram para ela, em que os abraços de seu pai não pareciam um dever. Isabela, um bebê órfão de parentes distantes, foi acolhida com uma intensidade que beirava a obsessão. De repente, Ana Lúcia se tornou uma figura secundária na própria casa.
A verdadeira fratura, no entanto, ocorreu dois anos depois, no funeral de seu avô. Ele era um veterano de guerra, um homem que via a mesma fibra de lutadora em Ana Lúcia. Antes de morrer, ele lhe deu sua mais preciosa posse: uma velha medalha de honra, pesada e gasta. "Para a minha campeã," ele dissera. Naquele mesmo dia, enquanto ela segurava a medalha fria em seu quarto, as vozes começaram. Um sussurro confuso, os pensamentos de sua mãe vindos do corredor, repletos de uma ansiedade que ela não compreendeu.
A ansiedade logo se transformou em hostilidade aberta, e a habilidade de Ana Lúcia se tornou uma tortura diária. Ela não sabia como ou por que aquilo acontecia, só sabia que coincidiu com o momento em que o amor de sua família por ela se transformou em pó.
Um dia, escondida no topo da escada, ela ouviu a primeira menção ao segredo que regia suas vidas.
O livro diz que a Ana Lúcia vai trazer a desgraça para a Isabela, pensou sua mãe, enquanto arrumava os cabelos de Isabela, que brincava no tapete. Ela é a vilã da história da nossa Bela. Temos que impedi-la.
Vilã? Livro? Ana Lúcia sentiu uma vertigem de confusão e injustiça. Que livro? Que história? Era como ser julgada por um crime que não cometeu, em um tribunal que não existia. A absurdidade daquilo a deixava sem ar. Era uma loucura, e ela estava presa no meio dela.
Em meio a essa loucura, Isabela era sua única âncora. Enquanto a família a tratava com desdém, Isabela a defendia com a ferocidade de uma leoa. Trazia-lhe lanches às escondidas quando a deixavam sem jantar como castigo por "responder mal" . Remendava suas roupas de treino que seu irmão, Pedro, "acidentalmente" rasgava. A lealdade de Isabela era a única coisa real naquele mundo de ficção e paranoia.
A paranoia da família atingiu um novo pico uma semana antes das seletivas nacionais. Ana Lúcia descia as escadas, ansiosa para o treino, quando Pedro passou correndo por ela. Ele não a empurrou de verdade, foi mais um encontrão "sem querer" , mas foi o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio.
Ela rolou pelos últimos degraus, uma dor aguda explodindo em seu tornozelo.
Seus pais vieram correndo, mas a preocupação em seus rostos era falsa. Ana Lúcia ouviu a verdade em suas mentes.
Ótimo, pensou seu pai. Com o tornozelo assim, ela não vai a lugar nenhum.
Finalmente algo que a pare, a mente de sua mãe concordou, satisfeita.
Eles a levaram para o quarto, não para o hospital. Deixaram-na lá, com uma bolsa de gelo e a porta fechada. A dor no tornozelo era excruciante, mas a dor da negligência era pior. Encolhida na cama, olhando para o teto rachado, Ana Lúcia desejou, pela primeira vez, que tudo aquilo acabasse. Desejou desaparecer, dormir e não acordar mais. A morte parecia uma libertação daquele pesadelo constante.
Foi Isabela quem a encontrou, horas depois, pálida e chorando silenciosamente.
"Ana! O que eles fizeram?" Isabela gritou, correndo para o seu lado.
Sua comoção forçou seus pais a agirem. Eles apareceram na porta, adotando expressões de cuidado.
"Querida, só queríamos que você descansasse," disse a mãe, a voz suave como seda.
Mas Ana Lúcia ouviu o pensamento por trás da máscara.
A Isabela é tão ingênua. Ela não vê que estamos protegendo-a da própria irmã.
Eles a levaram para um médico na cidade vizinha, um homem que devia favores ao seu pai. Enquanto o médico examinava seu tornozelo, Ana Lúcia sentiu uma familiar falta de ar, uma pontada no peito que vinha se tornando mais frequente. Ela tossiu discretamente na mão, tentando ignorar. O médico declarou que era apenas uma torção leve, mas a reação em seus pais revelou um plano mais sinistro.
Podemos usar isso, a mente de seu pai maquinou. Podemos dizer ao médico que ela está instável, que precisa de repouso absoluto. Um repouso que dure até depois das seletivas.
O medo gelou o sangue de Ana Lúcia. Eles não iam apenas impedi-la de jogar. Iam aprisioná-la.
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