
Libertado das Correntes de Sofia
Capítulo 2
No dia do nosso quinto aniversário de casamento, Sofia Hayes apaixonou-se por outro homem.
Ele era Rui Acosta, um estagiário de enologia na nossa adega, um jovem de uma família humilde, mas com um orgulho que parecia esculpido na cara.
Sofia, a minha mulher, herdeira do império vinícola do Douro, ficou obcecada. Ela, que sempre teve tudo o que quis, encontrou em Rui um desafio.
"Senhora Hayes, não preciso do seu dinheiro. Não sou um brinquedo que pode comprar."
Rui disse isto quando Sofia lhe ofereceu um relógio de luxo. A sua recusa, em vez de a afastar, apenas a fascinou mais.
E assim começou.
Sofia, a mulher que me perseguiu implacavelmente na universidade, a mulher cujo amor era a inveja de todos, começou a perseguir outro homem.
Ela ignorou-me completamente.
Na noite do nosso aniversário, ela deixou-me sozinho à mesa do restaurante, com o bolo e as velas por acender, para ir para a adega. O motivo? Queria "observar o Rui a trabalhar".
Foi a primeira vez.
Naquela noite, fui para a nossa adega privada. Peguei numa das 99 garrafas de Vinho do Porto vintage que guardava. Cada uma delas representava uma promessa de amor que Sofia me tinha feito, escrita num pequeno cartão amarrado ao gargalo.
Peguei na primeira garrafa, li o cartão "Amar-te-ei para sempre, meu Tiago", e despejei o conteúdo pelo ralo. O líquido espesso e escuro desapareceu, tal como a sua promessa.
A minha paciência tinha um limite: 99 garrafas.
A crueldade dela escalou rapidamente.
Uma noite, a caminho do Porto, apanhei uma febre alta. A chuva caía torrencialmente na A4. Sofia recebeu uma chamada. Era Rui, a queixar-se de uma constipação. Sem hesitar, ela parou o carro na berma, mandou-me sair e apanhar um táxi, e voltou para trás para cuidar dele. Fiquei ali, a tremer de febre debaixo da tempestade, enquanto ela ia consolar o seu novo amor.
Naquela noite, despejei a 36ª garrafa.
Semanas depois, cheguei a casa e vi que o nosso retrato de casamento, que ocupava a parede principal da sala, tinha desaparecido. No seu lugar, estava um esboço a carvão de Rui, mal feito, que ele lhe tinha oferecido.
A 72ª garrafa juntou-se às outras no esgoto.
O ponto de viragem aconteceu num leilão de caridade. Estávamos lá para licitar um colar de filigrana de ouro, a última joia desenhada pela minha falecida mãe. Era sagrado para mim.
Sofia viu Rui, que trabalhava como empregado de mesa no evento, a olhar para o colar com admiração.
De repente, a mão dela ergueu-se.
"Um milhão de euros."
A sala ficou em silêncio. Ela comprou o colar e, em frente a todos, caminhou até Rui.
"Isto é para ti."
Rui, fiel ao seu papel de homem orgulhoso e incorruptível, recusou.
"Já disse que não sou um brinquedo, Senhora Hayes."
A sua rejeição pública humilhou-a. Sofia, com um sorriso gelado, virou-se, caminhou até à varanda com vista para o rio Douro e, sem uma palavra, atirou o colar da minha mãe para as águas escuras e frias.
Depois, virou-se e foi atrás de Rui, que já se afastava.
Eu não hesitei. Corri para a varanda e saltei. A água gelada chocou o meu corpo, mas eu só conseguia pensar no colar. Mergulhei, vez após vez, até que os meus dedos sentiram o metal frio na lama do fundo.
Agarrei-o com força.
Quando voltei a casa, encharcado e a tremer, fui diretamente para a adega. Peguei na 95ª garrafa. O cartão dizia: "Prometo honrar sempre a tua família e as tuas memórias."
Refleti sobre a promessa dela, sobre a mulher que eu amava e que agora me destruía.
Ouvi as pessoas a cochichar nas redes sociais.
"A Sofia Hayes está louca por aquele estagiário! Faz lembrar a forma como ela perseguiu o Tiago na universidade."
A ironia era dolorosa. A obsessão dela por mim tinha sido a minha maior felicidade. Agora, a sua nova obsessão era a minha ruína.
Lembrei-me do início. Sofia viu Rui pela primeira vez na adega. Ele, sem saber quem ela era, disse-lhe para não tocar nas barricas. Ela, habituada a ser obedecida, ficou furiosa e intrigada. A sua resistência tornou-o irresistível.
Confrontei-a nessa noite, com o colar recuperado na mão.
"Sofia, porquê?"
Ela olhou para mim, os olhos frios, desprovidos de qualquer emoção.
"Porque eu quis, Tiago. O que é teu, é meu. E eu faço o que quero com as minhas coisas."
Apesar de tudo, eu ainda a amava. Decidi dar-lhe as últimas oportunidades. O ritual das garrafas era o meu medidor, a minha contagem decrescente para o fim.
Despejei a 95ª garrafa. Restavam quatro.
Dias depois, ela voltou a casa mais cedo. Encontrou-me na sala.
"Tiago, precisamos de conversar."
Aproximei-me, na esperança de um pingo de remorso. Em vez disso, ela empurrou-me. Com toda a sua força. Caí pelas escadas, a minha cabeça bateu com força no chão de mármore. A última coisa que vi antes de perder a consciência foi o seu sorriso satisfeito.
Ela tinha encontrado uma desculpa para trazer Rui para dentro da nossa casa.
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