
Libertado das Correntes de Sofia
Capítulo 3
A escuridão dissolveu-se lentamente. A primeira coisa que senti foi uma dor latejante na parte de trás da minha cabeça. Abri os olhos e a minha visão focou-se num rosto que eu desprezava.
Rui Acosta.
"Acordaste," disse ele, a sua voz desprovida de qualquer simpatia. "A Sofia contratou-me para ser teu enfermeiro. Tens de levar uma injeção."
Estava na nossa casa, no quarto de hóspedes. Tentei levantar-me, mas a dor na cabeça era demasiado forte.
"Sai daqui," disse eu, a minha voz fraca. "Não preciso dos teus cuidados."
Rui ignorou-me. Preparou uma seringa com uma incompetência deliberada. Aproximou-se e tentou espetar a agulha no meu braço, errando o alvo e causando uma dor aguda.
"Para!" gritei, empurrando a sua mão.
A agulha caiu no chão. Rui olhou para mim, os seus olhos encheram-se de lágrimas de crocodilo.
"Eu só estou a tentar ajudar," disse ele, com a voz a tremer. "Preciso deste dinheiro. A minha avó está doente."
A sua vitimização era nauseante.
Nesse momento, Sofia entrou no quarto. A sua expressão preocupada não era para mim. Correu para o lado de Rui.
"O que aconteceu? O Tiago magoou-te?"
Ela nem sequer olhou para o meu braço, que sangrava ligeiramente onde a agulha me tinha arranhado.
"Sofia," comecei eu, "ele não sabe o que está a fazer. Ele magoou-me."
A expressão de Sofia endureceu. Ela virou-se para mim, os seus olhos a faiscar de raiva.
"Pede-lhe desculpa. Agora."
Fiquei em choque. "Desculpa? Ele é que me magoou!"
"Pede desculpa," repetiu ela, a sua voz baixa e ameaçadora. "Ou queres que eu ligue ao meu pai e lhe diga para cancelar o contrato com a empresa de construção dos teus pais? Sabes que eles iriam à falência num instante."
A ameaça pairou no ar, pesada e sufocante. A empresa da minha família, que o pai dela tinha salvo da ruína, era a corrente que ela usava para me prender.
Senti-me impotente, humilhado.
Olhei para Rui, que me observava com um ar de triunfo mal disfarçado.
"Desculpa," murmurei, o sabor amargo das palavras na minha boca.
Rui aproximou-se. "Não ouvi. Diz mais alto."
Cerrei os punhos. Olhei para Sofia, que me lançou um olhar de aviso. Respirei fundo.
"Desculpa," disse eu, em voz alta e clara, a minha dignidade a estilhaçar-se no chão.
Sofia sorriu, satisfeita. Passou um braço pelos ombros de Rui, consolando-o.
"Anda, querido. Vou fazer-te um chá. Deixa este ingrato sozinho."
Ela levou-o para fora do quarto, deixando-me sozinho com a minha dor e humilhação.
Arrastei-me até à adega. A minha cabeça latejava a cada passo. Peguei na 96ª garrafa. O cartão dizia: "Na saúde e na doença, até que a morte nos separe."
Ri-me, um som oco e sem alegria. Despejei o vinho, vendo a promessa escorrer para o esquecimento.
Sofia voltou mais tarde, encontrou-me junto à lareira.
"O que estás a queimar?" perguntou ela, curiosa.
Antes que eu pudesse responder, a voz de Rui chamou-a do andar de cima. Ela virou-se e foi ter com ele, sem esperar pela minha resposta.
Nem sequer se importava.
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