
Libertada Para Amar Novamente
Capítulo 2
"Duda, meu amor, empresta aqui rapidinho seu celular e seus documentos?"
Essa voz.
A voz doce e fingida de Beatriz, a bolsista da nossa turma, soou ao meu lado.
Abri os olhos, a luz forte da loja de luxo quase me cegou. O cheiro de couro e perfume caro encheu minhas narinas. Ao meu redor, meus colegas de turma riam e conversavam alto, segurando bolsas e roupas que valiam mais do que um carro popular.
Eu estava de volta.
Eu realmente tinha voltado no tempo.
Voltei para o Dia Internacional da Mulher, o dia em que Beatriz, usando minhas informações, fez um empréstimo fraudulento em meu nome e reservou esta loja inteira para comemorar com a turma.
O dia que deu início ao meu inferno.
Na minha vida passada, eu, a ingênua Maria Eduarda, acreditei nela. Acreditei que ela, a pobre coitada, tinha ganhado na loteria e queria compartilhar sua sorte conosco.
O resultado? Fui declarada inadimplente, com uma dívida milionária que meus pais, um engenheiro e uma professora, levaram meses para entender e tentar resolver.
Mas o pesadelo não parou aí.
Beatriz, com a popularidade que comprou usando meu nome, me isolou. Pedro, meu namorado, ficou ao lado dela.
Na competição de dança, meu grande sonho, Beatriz me empurrou da escada.
Quebrou minhas duas pernas.
Mesmo assim, me arrastei para confrontá-la, mas Pedro e todos os outros a defenderam, me acusando de ser invejosa, de tentar armar para ela porque ela era mais talentosa.
E no meio da discussão, na frente de todos, ela me empurrou para a rua.
Um caminhão me atingiu em cheio.
A última coisa que vi foi o sorriso vitorioso no rosto dela.
Agora, vendo aquele mesmo rosto, com a mesma expressão de falsa inocência, um calafrio percorreu minha espinha, mas não era de medo.
Era de ódio.
"Duda? Você está bem? Ficou pálida de repente" , Beatriz insistiu, estendendo a mão para pegar meu celular que estava na mesinha ao lado. Seus olhos tinham um brilho de ganância que antes eu era cega demais para ver.
Segurei meu celular com força, meus dedos ficando brancos.
"Não."
A minha voz saiu fria e firme, cortando o barulho da festa.
Beatriz congelou, a mão ainda no ar. Ela piscou, confusa.
"O quê?"
"Eu disse não" , repeti, olhando diretamente nos olhos dela. "Não vou te emprestar meu celular nem meus documentos."
O sorriso em seu rosto vacilou por um segundo. A confusão deu lugar à irritação, mas ela a escondeu rapidamente.
"Mas Duda, eu preciso para pagar a conta... Deixei minha carteira em casa na pressa. Você sabe como eu sou. Prometo que te devolvo o dinheiro amanhã."
Que bela desculpa. A mesma que ela usou da última vez.
Antes que eu pudesse responder, uma mão agarrou meu braço com força.
"Maria Eduarda, o que você está fazendo?"
Era Pedro, meu namorado. Ou melhor, meu ex-namorado a partir deste exato momento.
Ele me olhava com desaprovação, como se eu fosse uma criança mimada fazendo birra.
"A Bia só quer a sua ajuda. Por que você tem que ser tão egoísta? Todo mundo está se divertindo, graças a ela."
Ele tentou arrancar o celular da minha mão para entregá-lo a Beatriz.
Na minha vida passada, eu teria cedido. Eu era completamente apaixonada por Pedro, faria qualquer coisa para agradá-lo, para ver aquele sorriso que eu achava tão lindo. Eu era uma idiota, uma completa capacho. Comprava presentes caros, pagava nossas contas, tudo para manter a imagem de casal perfeito.
Ele não me amava. Ele amava o status e o dinheiro que eu proporcionava.
E quando Beatriz apareceu, oferecendo ainda mais popularidade e uma imagem de "herói" que a defendia, ele não pensou duas vezes antes de me descartar.
Mas esta sou eu, a Maria Eduarda que voltou da morte. E eu não vou mais ser capacho de ninguém.
O ódio que eu sentia por eles era tão intenso que parecia queimar por dentro.
Lembrar de tudo aquilo me deu uma força que eu não sabia que tinha.
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