
Libertada Para Amar Novamente
Capítulo 3
A memória da minha morte era nítida e brutal.
Tudo começou com a inadimplência. Um dia, recebi uma ligação do banco. Uma dívida de cinco milhões de reais. Eu ri, achando que era um trote. Mas não era. Beatriz tinha usado meus documentos, que eu emprestei ingenuamente, para abrir contas e pegar empréstimos em vários bancos digitais. O dinheiro, ela usou para construir sua imagem de pessoa generosa e rica, enquanto a dívida ficou para mim.
Meus pais ficaram chocados, mas não entraram em pânico. Eles tinham uma boa condição financeira e sabiam que poderiam resolver, embora levasse tempo e custasse caro. O que eles não entenderam de imediato foi a malícia por trás disso. Eles achavam que Beatriz era só uma menina pobre e desesperada, não uma sociopata.
Eu tentei alertar todo mundo, mas ninguém acreditou em mim. Beatriz chorou, disse que eu estava com inveja dela, que eu, a menina rica, não suportava ver uma bolsista fazendo sucesso. Pedro ficou do lado dela, me chamando de louca e cruel. A turma toda me virou as costas.
Então veio a competição de dança. A dança era minha vida, minha paixão. Eu estava na final. Beatriz também. Nos bastidores, antes de eu entrar no palco, ela veio falar comigo.
"Sabe, Duda, você não merece nada disso. Você nasceu com tudo, e mesmo assim, não dá valor. Eu, que lutei por cada migalha, mereço muito mais."
E então, com um sorriso frio, ela me empurrou da escada.
O som dos meus ossos quebrando foi o barulho mais alto que já ouvi. A dor era insuportável. Minhas duas pernas, fraturadas. Meu sonho, destruído.
Mesmo de cadeira de rodas, semanas depois, eu a confrontei no pátio da faculdade. Eu gritei, chorei, a acusei.
Pedro apareceu, me segurando pelos ombros. "Duda, para com isso! Você está passando vergonha! A Bia ganhou a competição porque ela é melhor. Aceita! Sua inveja está te deixando doente!"
Toda a turma formou um círculo ao nosso redor, me olhando com desprezo. Eles filmavam com seus celulares.
"Invejosa!"
"Monstro!"
"Deixa a Bia em paz!"
Beatriz, no centro de tudo, chorava nos braços de outra colega, parecendo a vítima mais frágil do mundo.
No meio da confusão, ela se aproximou de mim. Sussurrou para que só eu ouvisse.
"Você devia ter morrido na queda."
E com um movimento rápido, empurrou minha cadeira de rodas com força. Eu estava na beira da calçada. Caí no asfalto, no meio da rua.
O som da buzina de um caminhão foi a última coisa que ouvi. O impacto. A escuridão. O fim.
Até agora.
Com a memória daquele caminhão vindo em minha direção, um fogo se acendeu dentro de mim.
Voltei ao presente com um estalo.
Pedro ainda estava tentando arrancar meu celular da minha mão.
PLAFT!
Minha mão voou e acertou o rosto dele com toda a força que eu consegui reunir. O som do tapa ecoou pela loja, silenciando todas as conversas.
Todos olharam para nós, chocados.
Pedro me soltou, levando a mão à bochecha vermelha, os olhos arregalados de incredulidade.
"Você... você me bateu?"
"Eu te bato de novo se você encostar em mim mais uma vez" , falei, a voz tremendo de raiva. Puxei meu celular de volta com um movimento brusco.
Beatriz, vendo que seu plano estava indo por água abaixo, mudou de tática. Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente.
"Duda... por que você está sendo assim?" , ela soluçou, o rosto contorcido em uma máscara de dor. "Eu só queria fazer uma surpresa pra turma... usar um pouco do prêmio que eu ganhei... Eu sei que não sou rica como você, mas eu queria que todos tivéssemos um dia especial."
Ela se virou para os outros, que agora me olhavam com raiva.
"Desculpa, gente... eu acho que estraguei tudo. A Duda está certa. Eu não devia ter tentado fazer algo tão grandioso."
A manipulação era perfeita. Em segundos, eu passei de vítima a vilã.
"Coitadinha da Bia!"
"Nossa, Duda, que desnecessário!"
"Ela só queria ser legal!"
Os sussurros se tornaram acusações. Alguns colegas vieram para o lado de Beatriz, a consolando. Um grupo maior veio na minha direção, me cercando.
"Qual é o seu problema, Maria Eduarda?" disse uma garota chamada Carla, que sempre andava com Beatriz.
"Você não suporta ver alguém que não seja você no centro das atenções, né?" disse outro.
Eles começaram a me empurrar levemente, me cutucando. Não era agressivo, ainda, mas era intimidador. Eles estavam me encurralando.
Eu estava sozinha, cercada por lobos vestidos de cordeiros.
Exatamente como da última vez.
Mas desta vez, eu não estava com medo. Eu estava pronta.
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