
Liberta da Prisão do Amor
Capítulo 2
Eu fui acorrentada na porta da mansão de Ricardo por três dias e três noites, como um cachorro.
O motivo foi tão ridículo que parecia uma piada.
A irmã adotiva dele, Sofia, perdeu um broche.
E eu me tornei a ladra.
A corrente de cachorro era pesada e fria, a coleira de metal roçava meu pescoço, deixando a pele em carne viva. A cada movimento, a corrente batia no chão de mármore, fazendo um som metálico e claro que ecoava pela casa vazia.
Nos primeiros momentos, eu lutei.
Lutei com toda a minha força, puxando a corrente, gritando o nome de Ricardo, implorando para que ele me ouvisse, para que acreditasse em mim.
"Ricardo, sou eu, Laura! Me solta!"
"Eu não roubei nada! É um mal-entendido!"
Mas a única resposta que recebi foi o silêncio. Um silêncio pesado e opressor que esmagava minha esperança.
A casa, que um dia foi meu lar, agora era minha prisão. Os empregados passavam por mim com olhares de pena ou desprezo, mas ninguém ousava intervir. Eles sabiam quem mandava ali.
Ricardo queria que eu fosse humilhada. Ele queria que todos vissem.
No segundo dia, a fome e a sede começaram a me torturar. Meu corpo tremia de fraqueza, minha garganta estava seca e arranhada. A humilhação era uma dor constante, mas a dor física estava se tornando insuportável.
Minha resistência começou a se esvair.
Os gritos de raiva se transformaram em soluços baixos. A luta deu lugar a um tremor incontrolável.
"Por favor..."
Eu comecei a implorar.
"Ricardo, por favor, me dê um pouco de água..."
"Eu faço qualquer coisa. Só me solta, por favor."
Minha dignidade, que eu tanto valorizava, foi se desfazendo pouco a pouco, até não sobrar nada. Eu era apenas um animal ferido, implorando por misericórdia.
Na noite do terceiro dia, uma chuva fria começou a cair. Eu estava do lado de fora, na varanda, e a chuva encharcava minhas roupas, grudando o tecido fino na minha pele. O frio penetrava meus ossos.
Eu sabia que não aguentaria muito mais.
Ricardo apareceu na porta. Ele me olhou de cima, com um olhar frio, desprovido de qualquer emoção. Ele não era o homem que eu amava. Era um estranho, um carrasco.
"Você admite?" ele perguntou, sua voz calma e cortante.
Eu balancei a cabeça freneticamente, as lágrimas se misturando com a chuva no meu rosto.
"Não... eu não fiz..."
Ele suspirou, um som de decepção.
"Então continue aí. Até aprender."
Ele se virou para entrar. O desespero tomou conta de mim. Eu não podia deixá-lo ir. Se ele fosse, eu morreria ali.
"Não!" eu gritei, com a pouca força que me restava.
Num ato de puro desespero, eu vi a pesada estátua de bronze que decorava a entrada da varanda. Sem pensar, juntei toda a minha energia e me joguei contra ela, batendo minha cabeça com força no metal.
A dor foi aguda, cegante.
O som do impacto ecoou, seguido pelo meu corpo caindo no chão.
O mundo ficou escuro.
Mas antes de perder a consciência, eu ouvi. Ouvi os passos apressados de Ricardo, sua voz gritando meu nome, pela primeira vez em três dias, com pânico.
Era o som da minha liberdade.
Eu forjei minha morte para escapar dele. Joguei meu corpo no mar tempestuoso daquela noite, deixando que a correnteza me levasse para longe, para um lugar onde ele nunca mais pudesse me encontrar.
Para ele, eu estava morta. E essa era a única maneira de eu poder viver.
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