
Liberta: Amor de Verdade
Capítulo 2
O cheiro de desinfetante e o zumbido fraco de um ventilador de teto encheram os sentidos de Sofia, ela abriu os olhos lentamente, sentindo a cabeça pesada. A última coisa que lembrava era da dor no peito, do som dos equipamentos médicos e do rosto triste de sua avó, que já havia partido. Ela tinha morrido pouco depois, de coração partido e exaustão.
Mas agora, ela estava deitada em sua antiga cama de solteiro, o papel de parede com pequenas flores amarelas, que ela odiava na adolescência, a encarava. A luz do sol da tarde entrava pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar.
Ela se sentou, o corpo jovem e ágil, sem a dor crônica que a atormentou nos seus últimos anos. Olhou para as próprias mãos, lisas, sem as manchas da idade. Um calendário na parede confirmava o impensável.
Era 1985.
Ela tinha renascido. Tinha voltado trinta anos no tempo.
Um turbilhão de emoções a atingiu, mas uma prevaleceu sobre todas as outras, uma alegria tão intensa que a fez ofegar.
Lucas.
Ela poderia ver Lucas novamente.
O pensamento dele era a única coisa que importava, a promessa que ele lhe fizera no leito de morte ecoava em sua mente. "Sofia, se houver uma próxima vida, eu vou te encontrar. Eu juro."
Ela acreditou nele. E agora, o destino lhe dera uma segunda chance.
Mas algo parecia errado, um sentimento incômodo no fundo de sua mente. Lucas, nesta vida, não deveria estar aqui. Ele deveria estar trabalhando em outra cidade, como na vida passada. No entanto, os vizinhos não paravam de falar sobre como o filho prodígio da família Silva, Lucas, tinha ido para a universidade e estava voltando hoje.
Na vida anterior, ele não tinha tido essa oportunidade.
O coração de Sofia começou a bater mais rápido. Será que ele... também renasceu? A ideia era um choque, mas também uma faísca de esperança. Se ele também se lembrava, então eles poderiam recomeçar, evitar os erros do passado.
"Sofia, o jantar está na mesa!" A voz de sua mãe veio da cozinha, familiar e reconfortante.
"Já vou, mãe!" ela respondeu, a voz mais jovem do que se lembrava.
Ela se levantou e foi até a pequena sala de jantar. Sua mãe, com o rosto ainda jovem e sem as rugas de preocupação que a marcariam mais tarde, colocava os pratos na mesa. A simplicidade da cena, o cheiro de arroz e feijão, a normalidade de tudo aquilo, era avassaladora.
Enquanto comia, sua mente estava a milhas de distância, perdida em memórias da vida que já tinha vivido.
Naquela vida, Sofia e Lucas eram o casal de ouro do bairro. Namorados desde a infância, todos assumiam que eles se casariam e viveriam felizes para sempre. Lucas era gentil, atencioso, e a amava, ou pelo menos era o que ela acreditava. Ele era a âncora dela, o centro do seu universo. Eles enfrentaram dificuldades juntos, a pobreza, as longas horas de trabalho na fábrica, mas o amor deles parecia inabalável.
Ela lembrou do fim, da doença que a consumiu lentamente. Lucas ficou ao seu lado, segurando sua mão até o último suspiro.
"Não se preocupe, Sofia," ele sussurrou, com lágrimas nos olhos. "Eu vou te encontrar. Não importa como, não importa onde. Espere por mim."
Essa promessa foi a última coisa a que ela se agarrou, a razão pela qual, ao acordar nesta nova realidade, seu primeiro pensamento foi ele. A esperança de que ele também se lembrasse, de que ele estava esperando por ela, era a única coisa que a impedia de pensar que estava enlouquecendo.
A mudança na trajetória de vida dele era a maior prova. Lucas, que na vida passada se ressentia por não ter estudado, agora era um universitário. Ele tinha mudado seu destino. Ele deve ter renascido.
E hoje, ele estava voltando. O trem da capital chegaria à estação da cidade no final da tarde. O bairro inteiro estava em alvoroço, preparando uma recepção para o primeiro jovem da comunidade a se formar em uma universidade de prestígio.
Sofia sentia um frio na barriga, uma mistura de ansiedade e excitação. Ela vestiu seu melhor vestido, um simples vestido de algodão azul que sua mãe tinha costurado. Ela queria estar bonita para ele. Para o reencontro deles.
A praça em frente à estação estava lotada. Balões e faixas decoravam o local. Quando o trem apitou, um rugido de aplausos e gritos ecoou pela multidão.
Lucas desceu do vagão.
Ele estava diferente. Mais alto, mais confiante. O terno bem cortado o fazia parecer um homem de negócios, não o garoto de fábrica que ela conhecia. O cabelo estava penteado para trás, e ele tinha um sorriso polido no rosto enquanto acenava para as pessoas.
O coração de Sofia disparou. Ele era ainda mais bonito do que ela se lembrava. Seus olhos o procuraram na multidão, e por um instante, ela pensou que ele a tinha visto. Ela levantou a mão, um sorriso trêmulo se formando em seus lábios. Este era o momento. O momento em que ele a veria e tudo recomeçaria.
Ele começou a andar em sua direção, o sorriso se alargando. O mundo de Sofia pareceu parar. Era isso. Ele estava vindo.
Mas ele não parou.
Ele passou direto por ela, como se ela fosse uma estranha, um rosto qualquer na multidão. Seus olhos estavam fixos em outra pessoa.
Sofia se virou, confusa, e viu para onde ele estava indo.
Juliana, a garota mais bonita da fábrica, conhecida por todos como a "flor da fábrica", estava parada ali, com os olhos brilhando.
Lucas parou na frente dela. A multidão ficou em silêncio. Diante de todos, dos vizinhos, dos amigos, dos pais de ambos, Lucas se ajoelhou. Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso.
"Juliana", disse ele, a voz clara e alta para que todos ouvissem. "Você quer se casar comigo?"
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