
Liberta: Amor de Verdade
Capítulo 3
O mundo de Sofia desabou.
O "sim" de Juliana foi quase inaudível, abafado pelos gritos e aplausos ensurdecedores da multidão. As pessoas empurravam, parabenizavam, celebravam o casal perfeito. Lucas colocou o anel no dedo de Juliana e a beijou, um beijo de cinema que arrancou mais suspiros e aplausos.
Sofia ficou paralisada, o sorriso congelado no rosto, a mão ainda levemente erguida no ar. O som ao seu redor se tornou um zumbido distante, como se ela estivesse debaixo d'água. Cada detalhe da cena se gravou em sua mente, o brilho do anel, o tom vermelho do batom de Juliana, o sorriso triunfante no rosto de Lucas.
O mesmo rosto que, em outra vida, chorou em seu leito de morte e prometeu encontrá-la.
A dor era física, uma pressão esmagadora no peito que a deixou sem ar. Ela se virou e correu, abrindo caminho a força pela multidão, ignorando os olhares confusos e as pessoas que esbarrava. Ela só precisava fugir, ficar sozinha.
Ela correu até chegar em casa, entrou em seu quarto e trancou a porta. Deslizou até o chão, as costas contra a madeira, e finalmente se permitiu desmoronar. As lágrimas que ela segurou vieram em uma torrente silenciosa, molhando seu vestido azul.
Sua mãe bateu na porta.
"Sofia? Filha, o que aconteceu? Você está bem?"
Sofia não conseguiu responder. As palavras estavam presas em sua garganta, sufocadas por soluços.
"Filha, abra a porta. Fale comigo."
Mas ela não podia. Como ela poderia explicar? Como poderia dizer que o homem que ela amou por toda uma vida, o homem que prometeu esperar por ela, tinha acabado de pedir outra mulher em casamento na frente de toda a cidade, como se ela nunca tivesse existido?
Ela ficou ali, encolhida no chão, até que a exaustão a venceu.
Nos dias que se seguiram, Sofia se tornou uma sombra. Ela mal comia, mal falava. Sua mãe a observava com preocupação, mas não a pressionava. Ela apenas ficava por perto, um apoio silencioso e constante.
Na solidão de seu quarto, as memórias da vida passada a assombravam. Ela começou a reexaminar tudo, a olhar para o passado com os olhos abertos pela dor do presente. E, lentamente, um padrão terrível começou a surgir.
Ela lembrou do dia em que Lucas conseguiu uma promoção na fábrica. Ele disse que foi por causa de seu trabalho duro. Mas agora, ela se lembrava de Juliana, filha do gerente, sorrindo para ele naquele mesmo dia.
Ela lembrou das vezes em que Lucas falava sobre o futuro, sobre querer uma vida melhor. Ele sempre mencionava como a família de Juliana era influente, como eles tinham "sorte". Na época, ela pensou que era apenas um comentário casual. Agora, soava como um plano.
Cada memória, cada momento que ela considerava uma prova do amor deles, agora parecia manchado. O que ela pensava ser amor, talvez fosse apenas conveniência. Ela era a garota segura, a que sempre estaria lá por ele. Mas Juliana... Juliana era a oportunidade.
A verdade a atingiu com a força de um soco.
Lucas não renasceu para ficar com ela. Ele renasceu para corrigir os "erros" de sua vida passada. E o maior "erro", aos olhos dele, era não ter ficado com Juliana, a mulher que poderia lhe dar a vida de sucesso que ele tanto desejava. A universidade, a volta triunfal, o pedido de casamento público, tudo fazia parte de um plano calculado.
A dor se transformou em uma raiva fria. A tristeza deu lugar a uma sensação avassaladora de ter sido enganada, usada, por duas vidas inteiras.
Depois de uma semana trancada, Sofia finalmente saiu do quarto. Ela estava mais magra, com olheiras profundas, mas havia uma nova determinação em seus olhos. Ela olhou para sua mãe, que estava sentada à mesa da cozinha, com o rosto cansado.
"Mãe, desculpe."
Sua mãe apenas a abraçou.
"Está tudo bem, minha filha. Tudo vai ficar bem."
Na segunda-feira, Sofia voltou ao trabalho na fábrica. O lugar estava fervilhando com a fofoca do noivado. Em cada canto, as pessoas sussurravam sobre o casal do momento.
"Você viu o anel? Dizem que custou uma fortuna!"
"Ele a trata como uma rainha. No outro dia, ele comprou para ela um rádio importado, só porque ela disse que gostava da música que estava tocando."
Sofia ouvia tudo em silêncio, cada palavra uma nova facada. Ela se lembrou de uma vez, na vida passada, quando pediu a Lucas um simples par de sapatos novos porque os seus estavam furados. Ele reclamou do preço, disse que ela precisava ser mais econômica, que eles estavam guardando dinheiro para o futuro.
Ele não era incapaz de ser generoso ou romântico. Ele simplesmente não queria ser com ela.
Essa percepção foi a última gota. Ela não sentiu mais tristeza, apenas um vazio gelado. A imagem do Lucas que ela amava, o homem gentil e carinhoso de suas memórias, se despedaçou completamente. No lugar dele, restou apenas um estranho egoísta e manipulador.
A fofoca sobre o noivado continuou por semanas, mas gradualmente, o barulho diminuiu. A vida na fábrica voltou ao normal.
E para Sofia, aquilo foi um alívio. Ela começou a se concentrar em si mesma, no trabalho, em pequenas coisas. O futuro que ela imaginava com Lucas se foi, e no lugar dele, havia um espaço em branco. Assustador, mas também... livre.
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