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Capa do romance Laura: Renascida da Dor

Laura: Renascida da Dor

Forçada a um casamento de conveniência com um herdeiro em coma, Laura busca refúgio no amor por Thiago, seu guarda-costas. Contudo, descobre que ele a despreza e idolatra sua meia-irmã, Sofia. Após sofrer humilhações e torturas orquestradas por quem deveria protegê-la, Laura decide se vingar. Quando seu noivo desperta e Thiago demonstra um arrependimento tardio, ela precisa decidir seu destino. A dor transformou-se em fúria contra aqueles que a traíram.
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Capítulo 2

"Eu aceito."

A minha voz soou fria e clara no escritório abafado do meu pai. O cheiro de charo cubano e desespero pairava no ar.

Vicente Alencar, o outrora poderoso barão do café, olhou para mim com um alívio que não se deu ao trabalho de esconder. Seus ombros, tensos há semanas, relaxaram.

"Laura, minha filha, você tomou a decisão certa. A família Corrêa vai salvar-nos a todos."

"Não me chame de sua filha," cortei, a minha voz como gelo. "Isto é um negócio. E eu tenho as minhas condições."

Sofia, a minha doce e frágil meia-irmã, que estava sentada ao lado do meu pai, ofegou. "Laura, como pode falar assim com o papai? Ele só quer o nosso bem."

Ignorei-a. Os meus olhos estavam fixos em Vicente.

"Primeiro, quero cem milhões de reais na minha conta pessoal. Não na conta da família. Na minha."

Ele engoliu em seco, o alívio a desaparecer do seu rosto. "Cem milhões? Laura, isso é..."

"É o meu preço para me casar com um homem em coma," disse eu, sem rodeios. "Um homem que todos dizem ser um caso perdido. Um homem que deveria ser o noivo da Sofia, a sua filha favorita."

A menção disto fê-lo estremecer. Ele sempre quisera o melhor para a Sofia, a prova viva da sua traição. O herdeiro dos Corrêa era o melhor, mas a frágil Sofia não podia ser "desperdiçada" com um homem moribundo. Eu, a filha legítima, era a peça de sacrifício perfeita.

"E a minha segunda condição," continuei, saboreando a sua crescente angústia. "Thiago. Ele não virá comigo para o Pantanal. Quero que ele seja transferido para a equipa de segurança pessoal da Sofia. A tempo inteiro."

Agora, foi a vez de Sofia parecer chocada. Até o meu pai franziu a testa, confuso.

"Thiago? O seu guarda-costas? Mas você... você sempre o quis por perto."

"As coisas mudam," disse eu, com um encolher de ombros indiferente. "A Sofia é tão frágil. Ela precisa do melhor protetor, não é verdade?"

A minha voz estava carregada de um sarcasmo que só eu entendia.

Vicente olhou do meu rosto impassível para a sua preciosa Sofia, que parecia genuinamente confusa. A urgência da nossa ruína financeira venceu.

"Está bem. Feito. Cem milhões e o guarda-costas para a Sofia. O contrato com os Corrêa será assinado amanhã."

"Ótimo."

Levantei-me, alisando a minha saia. A minha postura era de orgulho e vitória, mas por dentro, eu estava a desmoronar.

Quando me virei para sair, a voz do meu pai soou, com uma ponta de malícia.

"Porque é que está a fazer isto, Laura? Porque desistir do homem que você persegue há anos?"

Parei com a mão na maçaneta.

Não respondi. Abri a porta e saí.

E lá estava ele. Thiago.

Do lado de fora, no corredor, ele estava perto de Sofia, que já se tinha levantado para me seguir. Ele não olhava para mim. Seus olhos estavam em Sofia, e com uma ternura que me partiu o coração, ele estendeu a mão e ajeitou uma mecha de cabelo que caíra sobre o rosto dela.

"Cuidado para não tropeçar, senhorita Sofia," ele disse, a sua voz baixa e rouca, a mesma voz que eu sonhava que me dissesse palavras de amor.

Sofia corou, parecendo a imagem da inocência.

A cena confirmou tudo. Solidificou a minha decisão.

No silêncio do meu coração, respondi à pergunta do meu pai.

Porque é que estou a desistir dele? Porque ele nunca foi meu para eu poder desistir.

Conheci Thiago Monteiro há três anos. Ele foi contratado como meu motorista e guarda-costas. Alto, estoico, com um rosto que parecia esculpido por um deus grego e olhos que não revelavam nada.

Desde o primeiro dia, eu o quis.

Tentei de tudo. Usei os vestidos mais curtos, as palavras mais provocantes, "acidentalmente" caí nos seus braços. Ele permanecia imune, sempre profissional, sempre distante. A sua indiferença era uma parede de aço contra a qual eu me atirava repetidamente.

Eu era a filha do barão do café, bonita, desejada por muitos. Mas o único homem que eu queria tratava-me como se eu fosse ar.

A minha vida tinha sido uma sucessão de abandonos. Primeiro, o meu pai, que traiu a minha mãe com a mãe de Sofia. Depois, a minha mãe, que morreu num "acidente" de carro suspeito quando eu tinha dez anos. Pouco depois, Sofia e a sua mãe entraram na nossa casa, e eu tornei-me a estranha, a filha irritada e rebelde que ninguém queria.

O meu pai derramava todo o seu afeto em Sofia. Eu fiquei com as sobras.

Na minha solidão, a presença silenciosa e constante de Thiago tornou-se a minha única âncora. A sua calma era um bálsamo para a minha alma ferida. A minha paixão por ele cresceu em silêncio, uma flor desesperada a brotar no deserto da minha vida.

Até que, há duas semanas, o meu mundo ruiu.

Eu estava num evento de caridade, escondida numa varanda para escapar da hipocrisia lá dentro. E ouvi-o. Ele estava ao telefone com um amigo, a sua voz desprovida da habitual frieza.

"Sim, eu sei que é uma loucura," dizia Thiago. "O herdeiro do império Monteiro a trabalhar como guarda-costas. Mas eu tinha de o fazer. Tinha de me aproximar dela."

O meu coração parou. Ele estava a falar de mim?

"Desde que a vi naquele outro evento de caridade, a ajudar um gatinho de rua debaixo da chuva... soube que tinha de a ter. Sofia é um anjo. Tão pura, tão gentil."

Sofia.

A palavra atingiu-me como um soco no estômago.

"E a outra?" perguntou o amigo. "A meia-irmã, Laura?"

Ouvi Thiago bufar.

"Aquela? Uma pirralha mimada e cruel. Não sei como um anjo como a Sofia pode ter uma irmã como ela. Honestamente, mal posso esperar pelo dia em que não terei mais de olhar para a cara dela."

A crueldade casual nas suas palavras destruiu-me. O amor que eu alimentara durante três anos era baseado numa mentira. Ele não estava a ser profissional; ele simplesmente me desprezava. Ele estava a usar-me para chegar à minha irmã.

Naquele momento, algo dentro de mim morreu. O amor, a esperança, tudo se transformou em cinzas.

Agora, de volta ao presente, olhei para Thiago, que ainda estava focado em Sofia. O meu rosto, antes cheio de anseio por ele, tornou-se uma máscara de frieza.

Ele finalmente se virou e os seus olhos encontraram os meus. Pela primeira vez, ele pareceu notar uma mudança. Um brilho de surpresa passou pelo seu rosto.

Eu dei-lhe um sorriso lento e gelado.

Um novo capítulo estava prestes a começar. E neste, eu seria a autora da sua dor.

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