
Laços Quebrados: O Preço da Liberdade
Capítulo 2
O som do despertador era o primeiro ataque do dia. Maria abria os olhos e a sensação de sufocamento já estava lá, pesada no peito, antes mesmo de ela colocar os pés para fora da cama.
Ela pegou o celular. Como esperado, já havia três mensagens não lidas.
"Bom dia, filha. Dormiu bem? Lembre-se de tomar o café da manhã que eu deixei separado na sua mini-geladeira. Não coma nada da cantina, você sabe que aquelas coisas não prestam."
"Não se esqueça da sua aula de cálculo às 10h. Coloque o celular para despertar 15 minutos antes para não se atrasar."
"Vi que você usou 15 reais ontem à noite no cartão. Foi para a xerox que você me falou? Mande uma foto do comprovante."
Eram todas da mesma pessoa. Dona Clara. Sua mãe.
Maria suspirou, sentindo a energia se esvair do seu corpo. Ela se levantou e foi até a pequena geladeira que ficava no canto do seu quarto no dormitório da universidade. Lá estava o pote com frutas picadas e um iogurte, exatamente como sua mãe havia descrito. Dona Clara vinha uma vez por semana "organizar" suas coisas, o que na verdade significava reabastecer seu cativeiro com os itens que ela aprovava.
Cada aspecto da vida de Maria era microgerenciado. Sua mãe controlava a conta bancária vinculada ao seu cartão de estudante, a única forma de acesso a dinheiro que Maria possuía. Cada centavo gasto gerava uma notificação instantânea no celular de Dona Clara, seguida por um interrogatório. As amizades eram analisadas, as notas eram cobradas diariamente, e até mesmo suas roupas eram submetidas a uma aprovação prévia por foto.
Enquanto comia as frutas sem vontade, Maria abriu uma aba anônima no seu notebook. Ela digitou "como abrir uma conta bancária sem o conhecimento dos pais" e "melhor operadora para um novo chip de celular" . As páginas de resultados pareciam um portal para um universo paralelo, um mundo onde as pessoas simplesmente decidiam o que fazer com seu próprio dinheiro e com quem falar.
Ela leu sobre contas digitais, sobre a facilidade de se obter um novo número. Uma faísca de esperança acendeu dentro dela, mas foi rapidamente apagada pelo medo. O que aconteceria se sua mãe descobrisse? As ameaças, os gritos, o choro dramático que sempre a fazia se sentir a pior filha do mundo. Ela fechou a aba rapidamente, como se sua mãe pudesse ver seus pensamentos através da tela. Não, ainda não. Era arriscado demais.
Mais tarde, na hora do almoço, o desastre que ela sempre temia finalmente aconteceu. Ela estava na fila da cantina, o estômago roncando. Tinha passado a manhã em uma aula extra, algo que não estava no cronograma de sua mãe, e não teve tempo de comer o lanche que Dona Clara havia preparado.
"É só um salgado e um suco" , ela pensou, tentando se tranquilizar.
Quando chegou sua vez, ela pegou a bandeja e a apresentou para a senhora do caixa.
"Débito, por favor."
Ela inseriu o cartão de estudante na maquininha e digitou a senha. A tela piscou.
"Transação não autorizada."
Maria sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela tentou de novo. Mesma mensagem. A fila atrás dela começava a ficar impaciente. Murmúrios se espalharam.
"Moça, seu cartão não está passando" , disse a funcionária, sem muita paciência.
"Eu… eu não entendo, tinha dinheiro nele hoje de manhã" , gaguejou Maria, a humilhação queimando em suas bochechas. Ela sabia exatamente o que tinha acontecido. Sua mãe deve ter visto a tentativa de compra de comida "não autorizada" e bloqueado o cartão remotamente. Era um castigo, uma demonstração de poder.
Ela estava prestes a devolver a bandeja, derrotada, quando uma voz surgiu ao seu lado.
"Deixa que eu pago pra você."
Maria se virou e viu um rapaz com um sorriso gentil. Ela o reconheceu das aulas de literatura. O nome dele era João Pedro.
"Não, não precisa, eu…" , ela começou a protestar, mortificada.
"Relaxa, é só um almoço. Acontece" , ele disse, já passando seu próprio cartão na máquina. "Aprovado."
Ele pegou a bandeja dela e a sua e a guiou para uma mesa vazia, longe dos olhares curiosos. Maria sentou-se, ainda tremendo, incapaz de olhar para ele. A gentileza dele era tão inesperada, tão normal, que parecia algo de outro planeta. Era um copo de água fresca no meio de seu deserto particular.
"Obrigada. De verdade. Eu te pago de volta assim que…"
Antes que ela pudesse terminar a frase, seu celular vibrou violentamente sobre a mesa. O nome "Mãe" piscava na tela. Seu coração afundou.
Ela atendeu, a voz já um sussurro.
"Alô?"
"Maria da Silva, posso saber o que significa isso?" A voz de Dona Clara era fria e afiada, sem nem mesmo um "oi" . "Por que você tentou passar o cartão na cantina? Eu não te disse para comer o que eu deixei aí? E quem é esse rapaz que acabou de pagar para você? Você está se fazendo de coitada para arrancar dinheiro de estranhos?"
O interrogatório veio rápido e brutal. Maria encolheu-se na cadeira, sentindo o olhar de João Pedro sobre ela, mesmo que ele estivesse fingindo olhar para o seu prato. A humilhação de minutos atrás não era nada comparada a isso.
"Mãe, meu cartão não passou. Ele só foi gentil…"
"Gentil? Homem nenhum é 'gentil' de graça, Maria. Você é muito ingênua. Quero que você se levante dessa mesa agora mesmo e volte para o seu quarto. Agora!"
Maria tentou, com um último pingo de coragem, estabelecer um limite.
"Mãe, é só um almoço. Eu sou uma adulta, eu posso almoçar com um colega."
A risada de Dona Clara do outro lado da linha foi cruel. "Adulta? Você não consegue nem se sustentar. Enquanto você viver do meu dinheiro, você vive sob as minhas regras. Faça o que eu mandei, ou eu vou até aí resolver isso pessoalmente."
A ameaça pairou no ar, pesada e inegável. Maria sentiu as lágrimas subindo aos seus olhos. Ela olhou para João Pedro, para a comida intocada em sua bandeja, para a pequena bolha de normalidade que havia sido tão violentamente estourada.
Ela desligou o telefone sem dizer mais nada. A derrota era total.
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