
Laços Quebrados: O Preço da Liberdade
Capítulo 3
No dia seguinte, a vergonha ainda pesava sobre Maria, mas um sentimento diferente a impulsionava: a necessidade de consertar as coisas. A gentileza de João Pedro não merecia ser manchada pelo drama de sua vida. Ela precisava agradecê-lo e, mais importante, pagar o que devia.
Como não tinha acesso a dinheiro, ela recorreu à sua colega de quarto, Carla.
"Carla, você pode me emprestar vinte reais? Minha mãe bloqueou meu cartão de novo, mas ela libera amanhã. Te devolvo sem falta."
Carla, acostumada com os pedidos estranhos e a situação bizarra de Maria, apenas suspirou e entregou a nota, sem fazer perguntas. Com o dinheiro na mão, Maria se sentiu momentaneamente poderosa.
Ela encontrou João Pedro no pátio, lendo um livro sob uma árvore. Ela se aproximou, o coração batendo um pouco mais rápido.
"Oi, João Pedro."
Ele levantou os olhos e sorriu, o mesmo sorriso gentil do dia anterior. "Oi, Maria. Tudo bem?"
"Tudo. Eu… eu queria te agradecer de novo por ontem. E te pagar." Ela estendeu a nota de vinte reais.
Ele hesitou. "Não precisava, de verdade."
"Por favor, eu insisto."
Ele finalmente aceitou, e ela sentiu um pequeno alívio. "Que tal um café, então? Por minha conta desta vez. Como um pedido de desculpas pelo… pelo show de ontem."
João Pedro pareceu relaxar. "Claro, eu adoraria."
Eles foram até a pequena cafeteria do campus. Por alguns minutos, tudo pareceu normal. Eles conversaram sobre as aulas, sobre professores, sobre livros. Maria se sentia leve, como se estivesse respirando ar puro pela primeira vez em anos. Ela riu de uma piada que ele fez, e o som de sua própria risada a surpreendeu.
Foi então que o inferno desabou.
"MARIA!"
A voz estridente cortou o ar da cafeteria. Todos se viraram. Parada na porta, com o rosto vermelho de fúria, estava Dona Clara. Seus olhos faiscavam, fixos primeiro em Maria, depois em João Pedro, como se ele fosse um criminoso.
"Eu não acredito nisso! Eu te proibi de falar com esse rapaz!"
Dona Clara marchou até a mesa deles, ignorando os olhares chocados dos outros estudantes. Ela agarrou o braço de Maria com força.
"O que você pensa que está fazendo? Se oferecendo para qualquer um que aparece na sua frente? Eu te dou tudo, pago seus estudos, sua moradia, e é assim que você me retribui? Me desobedecendo pelas costas?"
"Mãe, para! Você está me envergonhando!" , sussurrou Maria, tentando se soltar.
Dona Clara então se virou para João Pedro, o desprezo evidente em seu rosto.
"E você, rapaz? Quais são as suas intenções com a minha filha? Acha que ela é fácil? Acha que pode se aproveitar da ingenuidade dela? Fique longe dela, está me ouvindo? Longe!"
João Pedro estava pálido, completamente chocado. Ele se levantou, derrubando um pouco de café na mesa.
"Senhora, eu juro, não é nada disso. Nós somos só colegas."
"Colegas? Sei bem o tipo de 'colega' que você é. Fique longe dela, ou eu vou fazer uma denúncia na reitoria por assédio. E eu vou garantir que você seja expulso desta universidade."
A ameaça foi a gota d' água. João Pedro olhou para Maria, um misto de pena e medo em seus olhos. Ele pegou sua mochila.
"Maria, me desculpe. Eu… eu não quero problemas."
Ele se afastou rapidamente, quase correndo para fora da cafeteria, deixando Maria sozinha com sua mãe furiosa e uma plateia de espectadores silenciosos. A conexão, tão nova e frágil, havia sido esmagada.
Enquanto sua mãe a arrastava para fora, ainda gritando sobre ingratidão e desrespeito, a mente de Maria se tornou um turbilhão de memórias dolorosas.
Era um eco do passado. Lembro da Ana, minha melhor amiga no ensino médio. Minha mãe ligou para os pais dela, dizendo que eu era uma má influência. Lembro do Tiago, meu parceiro no projeto de ciências. Minha mãe o acusou de querer se aproveitar de mim e exigiu que a professora trocasse as duplas. Lembro do grupo de estudos da biblioteca. Minha mãe apareceu e disse que eles estavam me distraindo, me tirando do foco.
Um por um, todos os laços que eu tentei criar foram cortados pela mesma tesoura. A mesma fúria, a mesma humilhação pública. O objetivo era sempre o mesmo: me isolar.
Quando voltaram ao dormitório, a notícia do incidente na cafeteria já havia se espalhado. Suas colegas de quarto, que antes a cumprimentavam, agora desviavam o olhar. Carla, que lhe emprestara o dinheiro, evitou cruzar com ela no corredor. O isolamento agora era completo. Ela era a garota esquisita com a mãe louca. Ninguém queria chegar perto do drama.
Maria se trancou em seu quarto, o som das acusações de sua mãe ecoando em sua cabeça. Mas algo havia mudado. A tristeza e a vergonha que sempre a paralisavam estavam dando lugar a uma raiva fria e cortante. A humilhação de hoje não foi apenas mais uma na lista. Foi a última.
Ela olhou seu reflexo no espelho escuro da tela do celular. O rosto pálido, os olhos vermelhos. Mas por trás do desespero, havia uma nova luz, dura e determinada. A submissão havia morrido naquela cafeteria. No lugar dela, uma consciência brutalmente clara despertava.
Isso não podia continuar. Isso tinha que acabar. E se ninguém iria ajudá-la, ela mesma daria um fim a tudo aquilo.
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