
Karma na Empresa
Capítulo 2
"Laura, você pode me explicar o que é isso?"
A voz do meu chefe, Sr. Fernandes, era fria, cortando o ar do escritório.
Ele jogou uma pilha de papéis na minha mesa, as folhas se espalharam como um leque de desastre.
Era o projeto do cliente mais importante da empresa, e estava completamente arruinado.
Ao meu lado, Eva, a nova estagiária, tinha os olhos cheios de lágrimas, o rosto pálido e uma expressão de inocência assustada.
"Sr. Fernandes, eu só segui as instruções da Laura," ela soluçou, a voz trêmula.
"Ela me disse para ser 'criativa' e 'pensar fora da caixa', foi exatamente o que eu fiz."
Eu olhei para ela, sentindo uma onda de absurdo e raiva.
Eu nunca tinha dito isso, não daquele jeito.
Eu tinha dito para ela seguir o modelo padrão, mas que poderia sugerir pequenas melhorias estéticas se tivesse alguma ideia.
Mas a interpretação dela de "criativa" foi remover todas as especificações técnicas do cliente e substituí-las por desenhos de flores e citações filosóficas.
O projeto, que valia milhões, agora parecia o diário de uma adolescente.
"Eva, isso não foi o que eu disse," tentei argumentar, mas minha voz saiu fraca.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu e Marcos, meu namorado de cinco anos, entrou.
Ele olhou para a cena, para o chefe furioso, para Eva chorando e para mim, pálida de choque.
"O que está acontecendo aqui?" ele perguntou.
Eva correu para o lado dele, agarrando seu braço como se fosse sua única salvação.
"Marcos, a Laura está brava comigo, mas eu juro que só fiz o que ela mandou," ela disse, olhando para ele com adoração. "Eu estraguei tudo."
Eu esperei que Marcos me defendesse, que ele conhecesse meu profissionalismo, que soubesse que eu jamais colocaria um projeto em risco.
Mas ele olhou para mim, e seus olhos estavam cheios de decepção.
"Laura, por que você fez isso?" ele disse, em um tom de acusação. "A Eva é nova, ela não sabe como as coisas funcionam, você deveria tê-la orientado direito."
O ar saiu dos meus pulmões.
"Você está me culpando?"
"Estou dizendo que você é a sênior aqui," ele respondeu, a voz dura. "Você é a responsável por ela. Em vez de ajudar, você a sabotou, talvez por inveja?"
Inveja. A palavra ficou pairando no ar, venenosa e irreal. Inveja de uma estagiária que mal sabia ligar o computador?
O Sr. Fernandes, vendo que até meu namorado estava contra mim, tomou sua decisão.
"Laura, arrume suas coisas," ele disse, sem sequer olhar para mim. "Você está demitida."
Foi rápido, brutal.
Em menos de dez minutos, eu estava colocando meus pertences em uma caixa de papelão.
Marcos e Eva estavam em um canto, ele a consolava enquanto ela chorava em seu ombro.
Ninguém olhou para mim.
Saí do prédio sob uma chuva torrencial, a caixa ficando encharcada em meus braços.
Eu não tinha para onde ir.
Eu andava sem rumo, a humilhação e a traição pesando mais do que a chuva fria.
Eu me sentia vazia, oca.
Tudo o que eu construí, minha carreira, meu relacionamento, tudo desmoronou em uma única tarde por causa de uma mentira absurda.
Distraída pela dor, não vi o carro vindo em alta velocidade.
Ouvi a buzina, uma luz forte cegou meus olhos.
Depois, escuridão.
E, de repente, eu estava de pé.
O sol da manhã entrava pela janela do meu quarto, o mesmo quarto que eu dividia com Marcos.
Eu estava confusa, o cheiro de café fresco vinha da cozinha.
Olhei para o meu celular na mesa de cabeceira.
A data era 23 de outubro.
Um dia antes do desastre.
Um dia antes de eu ser demitida.
Eu estava viva. E eu tinha voltado.
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