
Justiça Por Minha Avó
Capítulo 2
"O acordo é simples, Sofia" , disse Isabela, com um sorriso de desprezo nos lábios pintados de vermelho.
Ela empurrou um contrato pela mesa de mármore polido do café.
"Cem mil reais por mês, durante três meses. Você se torna a nova companhia do meu irmão, Lucas. Fica disponível para ele, age como a garota interesseira que você obviamente é, e no final, sai com trezentos mil no bolso."
Eu olhei para o contrato, depois para o rosto arrogante de Isabela.
Ela era a herdeira de um império, irmã de Lucas, o principal investidor dos estúdios de Bruno. O mesmo Bruno que destruiu minha vida.
A proposta dela era humilhante, um jogo cruel para ela e seu círculo de amigos ricos se divertirem às minhas custas.
Eles queriam uma prova viva de que pessoas como eu, sem berço de ouro, fariam qualquer coisa por dinheiro.
Peguei a caneta Montblanc que ela ofereceu.
"Onde eu assino?" , perguntei, com a voz firme, sem um pingo de hesitação.
O sorriso de Isabela se alargou.
Ela achava que estava me comprando, me quebrando.
Mal sabia ela que eu já estava quebrada.
E mal sabia ela que, para mim, aquele contrato não era o fim da minha dignidade.
Era o começo da minha vingança.
Isabela acreditava que estava no controle total, que eu era apenas uma peça no seu tabuleiro sádico.
Ela e seus amigos ricos criaram um grupo online fechado, um tipo de reality show particular, para acompanhar cada passo da minha "queda" .
O nome do grupo era "Domando a Selvagem" .
Eles apostariam em quanto tempo eu levaria para me apaixonar por Lucas, ou para fazer alguma cena humilhante por um presente caro.
Eu sabia de tudo isso.
Meu ex-colega de faculdade, Leo, agora um hacker que o sistema de segurança do governo temia, tinha me contado cada detalhe.
"Eles acham que é um jogo deles, Sofia. Mas será o nosso" , ele me disse por uma chamada segura, dias antes do meu encontro com Isabela.
"Eles vão te dar o palco, a plateia e os recursos. Você só precisa atuar."
Então, enquanto eu assinava aquele papel, eu não via as letras miúdas da minha humilhação.
Eu via a cara de Bruno.
Minha mente voltou para três meses atrás, a noite que mudou tudo.
O Festival de Cinema do Rio.
Eu estava no auditório, meu coração batia tão forte que eu mal conseguia respirar.
Meu roteiro, "Sombras do Passado" , era finalista na categoria de novos talentos.
Era a minha chance, o culminar de anos de trabalho duro, de noites sem dormir, de bicos como garçonete para pagar as contas enquanto escrevia.
Então, o mestre de cerimônias chamou ao palco o lendário diretor Bruno para anunciar o vencedor.
Ele subiu, imponente em seu terno caro, segurando o envelope.
Mas ele não o abriu.
Em vez disso, ele olhou para a plateia com uma expressão de nojo.
"Senhoras e senhores" , ele começou, sua voz ressoando pelo teatro. "Esta noite, antes de celebrar o talento, precisamos expor uma fraude."
Um murmúrio percorreu a multidão.
Meu estômago gelou.
"Temos uma ladra entre nós" , ele continuou, e seus olhos encontraram os meus. "Uma jovem roteirista chamada Sofia, que teve a audácia de roubar um trabalho que não é seu."
As câmeras se viraram para mim.
Os flashes explodiram no meu rosto, me cegando.
Ele ergueu uma cópia do meu roteiro.
"Isso aqui" , ele cuspiu as palavras. "É plágio. Uma cópia barata de um conceito que eu mesmo desenvolvi anos atrás."
A mentira era tão grande, tão absurda, que eu não consegui reagir.
Fiquei paralisada, sentindo o peso de centenas de olhares me julgando.
"Que isso sirva de lição" , Bruno disse, e com um gesto teatral, rasgou meu roteiro ao meio.
Os pedaços de papel caíram no palco como neve suja.
O som do papel rasgando foi o som do meu futuro se partindo.
Naquela noite, eu não perdi apenas um prêmio.
Eu perdi meu nome, minha reputação, minha carreira antes mesmo que ela começasse.
Nenhum estúdio atendia mais minhas ligações.
Meu agente me dispensou.
As notícias me pintaram como uma vigarista oportunista.
Eu estava acabada.
A humilhação foi total, pública e brutal.
Na primeira semana, eu mal saí da cama no meu minúsculo apartamento.
Eu só queria desaparecer.
Mas então, no fundo do poço, algo mudou.
A tristeza deu lugar a uma raiva fria e cortante.
Bruno não apenas me acusou falsamente.
Ele fez isso com prazer, com um poder sádico, para se reafirmar como o rei da indústria e destruir qualquer um que pudesse ameaçar seu trono de mentiras.
Eu não iria deixá-lo vencer.
Eu não iria simplesmente sumir.
Se o sistema era corrupto e me fechou todas as portas, eu não ia mais bater nelas.
Eu ia arrombá-las.
Foi quando eu estava arrumando as coisas velhas da minha avó, que faleceu alguns anos antes, que encontrei.
Minha avó, Helena, foi uma atriz nos anos 60.
Uma estrela em ascensão que, misteriosamente, abandonou a carreira no auge e nunca mais falou sobre o assunto.
Dentro de um baú antigo, embaixo de vestidos de seda e fotos em preto e branco, havia um diário.
E dentro do diário, escondidos, estavam roteiros.
Roteiros originais, brilhantes, escritos por ela.
E um deles... um deles era a base da história do filme mais famoso de Bruno.
O filme que o consagrou.
O diário também continha anotações, desabafos sobre um "diretor poderoso e manipulador" que a seduziu, roubou suas ideias e depois a ameaçou até que ela se retirasse da vida pública para proteger sua família.
O nome dele não estava escrito, mas eu sabia. Era o Bruno.
Ele não tinha me plagiado.
Ele tinha plagiado minha avó.
E ele me destruiu para garantir que seu segredo de décadas continuasse enterrado.
Aquele diário não era apenas a prova da inocência da minha avó e da minha.
Era um manual.
Um mapa para a vingança.
Foi aí que liguei para o Leo.
E foi assim que o plano nasceu.
A proposta de Isabela não foi um golpe do destino.
Foi uma armadilha que nós cuidadosamente preparamos para que ela caísse.
Leo usou suas habilidades para sutilmente colocar meu nome e minha foto no radar de Isabela, me pintando como o tipo exato de "garota desesperada" que ela adoraria usar em seus jogos.
Ela mordeu a isca.
E agora, eu estava dentro.
Dentro do mundo deles.
Perto de Lucas.
E, consequentemente, perto de Bruno.
Enquanto Isabela me olhava com superioridade, guardando sua cópia do contrato, eu já estava calculando meus próximos passos.
Ela achava que tinha comprado uma boneca.
Mas ela tinha acabado de convidar um cavalo de Troia para dentro da sua fortaleza.
Este jogo não era sobre dinheiro ou luxo.
Era sobre justiça.
Pela minha avó.
Por mim.
E eu não ia parar até que Bruno e todos que o protegiam pagassem pelo que fizeram.
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