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Capa do romance Justiça Por Minha Avó

Justiça Por Minha Avó

No Festival do Rio, a roteirista vê sua carreira ruir quando o diretor Bruno a acusa de plágio e destrói seu trabalho em público. Humilhada e rotulada como farsante, ela descobre a motivação cruel por trás do ataque ao investigar o passado de sua avó. Diários antigos revelam que Bruno roubou as obras da falecida e tentou silenciar a neta para proteger seu legado. Agora, com apoio de um hacker, ela busca vingança para desmascarar o sistema e limpar seu nome.
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Capítulo 3

"Bem-vinda à sua nova vida" , disse Isabela, abrindo a porta de um apartamento que parecia maior que o meu prédio inteiro.

A vista da cobertura tomava toda a Lagoa Rodrigo de Freitas.

O chão de mármore branco brilhava, e os móveis de design eram tão minimalistas que pareciam desconfortáveis.

"Lucas virá te encontrar mais tarde" , ela informou, com o tom de quem dá ordens a uma empregada. "Ele vai te levar para fazer umas compras. Você precisa parecer... adequada."

Ela me olhou de cima a baixo, torcendo o nariz para minhas calças jeans e camiseta simples.

"Aqui estão as regras" , ela continuou, me entregando um tablet. "Sua mesada, suas obrigações. Leia tudo. Não quero surpresas."

As "obrigações" eram claras: estar sempre bem vestida, nunca contradizer Lucas em público, acompanhá-lo a todos os eventos sociais e, o mais importante, ser "divertida e grata" .

Era um roteiro. E eu era uma ótima atriz.

"Entendido" , eu disse, com um sorriso que eu treinei para parecer dócil e um pouco deslumbrado.

Isabela pareceu satisfeita.

"Ótimo. Não me decepcione. Ou seja, não tente ser mais do que você é."

Ela se virou e saiu, me deixando sozinha no silêncio opressor daquele lugar luxuoso e sem alma.

Eu caminhei até a enorme janela de vidro.

Lá embaixo, o Rio de Janeiro parecia uma maquete.

Era o mundo deles. Um mundo que me esmagou.

Agora, eu estava no topo dele, pronta para fazê-lo desmoronar.

Mais tarde, Lucas chegou.

Ele era alto, com o cabelo castanho perfeitamente penteado e um ar de tédio permanente no rosto.

Ele não era feio, mas havia uma ausência de vida em seus olhos, como se nada pudesse realmente surpreendê-lo ou animá-lo.

Ele me analisou sem muito interesse.

"Isabela disse que você está pronta" , ele falou, a voz monótona. "Vamos."

O motorista nos levou a um shopping de luxo na Barra da Tijuca.

Lucas me guiou até uma butique caríssima, onde as vendedoras nos cercaram como abelhas em volta do mel.

"Escolha o que quiser" , ele disse, sentando-se em um sofá de veludo e pegando o celular, claramente desinteressado.

Era a minha primeira cena.

Eu precisava ser convincente.

Respirei fundo e liberei a "Sofia interesseira" .

"Uau! Tudo isso? Para mim?" , eu disse, com a voz aguda e os olhos arregalados, fingindo um deslumbramento que eu não sentia.

Eu comecei a pegar vestidos de grife das araras, um após o outro, sem nem olhar o preço.

"Este! E este! Ah, meu Deus, olha esses sapatos! Eu posso levar dois pares?"

Eu me olhava no espelho, rodopiava com os vestidos, fazia poses exageradas.

Eu me comportava exatamente como eles esperavam: uma garota pobre que nunca tinha visto tanto luxo na vida e estava perdendo a cabeça.

Pelo canto do olho, eu vi Lucas me observar por cima do celular.

Um leve traço de diversão, ou talvez pena, cruzou seu rosto antes de ele voltar à sua máscara de indiferença.

As vendedoras me tratavam com uma simpatia forçada, provavelmente rindo de mim pelas costas.

Eu não me importava.

Deixei que rissem.

Cada peça de roupa, cada sapato, cada bolsa que eu escolhia não era um presente para mim.

Leo já tinha um plano para tudo aquilo.

Ele conhecia um contato que transformaria aqueles itens de luxo em dinheiro vivo, que seria secretamente depositado em uma conta que estávamos usando para financiar nossa operação.

Isabela e Lucas achavam que estavam me comprando com bugigangas.

Na verdade, eles estavam pagando pela própria ruína.

Depois de encher o porta-malas do carro com sacolas de grife, Lucas me levou para jantar em um restaurante exclusivo, onde os garçons nos chamavam pelo nome.

A comida era deliciosa, mas eu mal sentia o gosto.

Eu estava focada no meu papel.

Durante o jantar, ele mal falou comigo.

Ficou no celular a maior parte do tempo, respondendo a e-mails de trabalho.

Quando voltamos para o apartamento, um silêncio constrangedor se instalou entre nós.

Eu sabia o que o contrato insinuava sobre as minhas "obrigações" noturnas.

"Vou tomar um banho" , ele disse, finalmente, e foi para o quarto principal.

Quando ele saiu, vestindo apenas uma calça de moletom, ele parecia desconfortável.

Eu estava sentada no sofá, usando um dos vestidos de seda que ele tinha comprado.

Era parte do show.

Eu me levantei e caminhei até ele.

Coloquei minhas mãos em seu peito, sentindo os músculos tensos sob a pele.

Eu me inclinei para beijá-lo.

No momento em que nossos lábios se tocaram, eu senti.

Uma hesitação.

Uma rigidez.

Ele correspondeu ao beijo, mas foi mecânico, quase forçado.

Não havia desejo ali.

Havia algo mais.

Uma espécie de repulsa contida.

Ele se afastou sutilmente.

"Estou cansado" , ele disse, a voz um pouco rouca. "Você pode dormir no quarto de hóspedes."

Ele se virou e foi para o seu quarto, fechando a porta atrás de si.

Fiquei ali, parada na sala de estar suntuosa, processando o que tinha acabado de acontecer.

Ele não me queria.

Isso não fazia parte do roteiro que Isabela tinha montado.

O jogo deles era me transformar em um objeto de desejo e depois me descartar.

Mas o jogador principal parecia não querer jogar.

Naquele momento, eu ouvi um som.

A porta do apartamento se abriu e Isabela entrou.

Ela me viu ali, sozinha, com o vestido de seda e a maquiagem perfeita.

Seus olhos brilharam com uma malícia triunfante.

Ela olhou para a porta fechada do quarto de Lucas e depois para mim.

Um sorriso cruel se formou em seu rosto.

"Parece que nem todo o dinheiro do mundo pode comprar classe, não é mesmo?" , ela zombou. "Nem mesmo para o meu irmão."

A raiva dela não era por eu estar ali.

Era por eu ter tentado me aproximar de Lucas.

O desprezo dela era profundo, pessoal.

Ficou claro que a insatisfação dela com a minha presença ia além de um simples jogo.

Havia um ciúme possessivo em relação ao irmão, uma raiva por ele ter que sequer dividir o mesmo ar que eu.

Aquele olhar me disse tudo.

Isabela não seria apenas uma espectadora neste jogo.

Ela seria um obstáculo ativo, perigoso.

E isso tornava tudo ainda mais interessante.

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