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Capa do romance Justiça Distorcida

Justiça Distorcida

Os Silva drenam a vida de noivas para curar seus herdeiros. Após oito anos do assassinato brutal de sua irmã Clara, a primeira vítima de Pedro Silva, Sofia decide agir. Apesar do silêncio cúmplice de seu pai e da impunidade que protege o clã, ela se voluntaria como a nona noiva. Entre o horror das mortes inexplicáveis e o mistério familiar, Sofia entra na cova dos leões, disposta a enfrentar o monstro para vingar seu sangue e revelar a verdade oculta.
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Capítulo 3

O nome dela era Clara.

Minha irmã.

Ela foi a primeira. A primeira noiva de "boa sorte" de Pedro Silva.

Eu me lembro dela, não como uma estatística ou a primeira de uma lista macabra, mas como ela realmente era.

Lembro do seu sorriso, que iluminava qualquer lugar.

Lembro da forma como ela cantava desafinadamente pela casa enquanto ajudava nosso pai.

Lembro da noite em que ela me contou que ia se casar com Pedro.

"Sofia, eu sei que parece estranho", ela disse, sentada na minha cama, os olhos brilhando de uma mistura de nervosismo e esperança.

"Mas a família Silva é muito boa. E o Pedro... ele é gentil. Ele só está doente. Papai disse que este casamento pode ajudar."

Ela acreditava naquilo.

Ela acreditava que seu amor e sua vitalidade poderiam, de alguma forma, curá-lo.

Ela acreditava na bondade, na sorte, no amor.

Nosso pai, o Dr. Ricardo Alves, um médico respeitado na cidade, foi quem arranjou tudo.

Ele nos garantiu que era uma boa oportunidade, que a família Silva era poderosa e poderia nos ajudar, que era apenas uma tradição para dar sorte.

Eu era jovem, mas senti um calafrio. Algo estava errado.

"Por que você, Clara?", perguntei.

"Porque eu sou saudável. E porque eu quero ajudar. E talvez... talvez eu possa ser feliz", ela respondeu, com uma inocência que hoje me parte o coração.

A última vez que a vi viva foi no dia do casamento.

Ela estava linda em seu vestido branco, mas havia uma sombra em seus olhos. Um medo que ela tentava esconder.

Na manhã seguinte, a notícia chegou.

Um "mal súbito".

Eu corri para a mansão dos Silva com meu pai.

Não me deixaram entrar no quarto.

Mas eu vi.

Vi quando tiraram o corpo dela, coberto por um lençol branco.

Vi a mancha escura no lençol.

E vi o estado em que ela estava.

Mesmo coberta, eu pude ver.

O braço que escapou do lençol por um segundo... não era o braço da minha irmã.

Era cinza, enrugado, como o de uma velha de cem anos.

A imagem se gravou na minha mente, um pesadelo que se recusa a desaparecer.

Eu gritei. Gritei até minha garganta ficar em carne viva.

Meu pai me segurou, me arrastou para fora, o rosto dele uma máscara de dor controlada.

"Sofia, se acalme! Por favor, se acalme!", ele implorava.

Mas eu não conseguia. Eu queria arrombar aquela porta, eu queria matar quem quer que tivesse feito aquilo com a minha irmã.

Naquela cena de horror, notei algo estranho.

Meu pai, um médico, o homem que deveria estar exigindo respostas, estava estranhamente quieto.

Ele olhava para o corpo da própria filha com uma dor terrível, mas também com... resignação.

Como se ele já esperasse por aquilo.

Ele não gritou. Ele não acusou. Ele apenas me segurou, me silenciou.

A investigação oficial foi uma farsa.

O laudo, assinado por um médico amigo dos Silva, dizia "parada cardíaca de causa indeterminada".

Caso encerrado.

A cidade sussurrou por algumas semanas e depois se calou, intimidada pelo poder dos Silva.

Mas eu não me calei.

Nos oito anos que se seguiram, enquanto outras sete garotas encontravam o mesmo destino, eu investiguei.

Sozinha.

Eu juntei recortes de jornais.

Anotei os nomes de cada noiva.

Tentei falar com as famílias, mas elas estavam aterrorizadas demais ou compradas pelo silêncio.

Toda vez que eu chegava perto de algo, meu pai intervinha.

"Sofia, pare com isso", ele dizia, a voz cansada. "Você está se machucando. Deixe a Clara descansar em paz."

"Descansar em paz? Ela foi assassinada, pai! E você sabe disso!", eu gritava.

"Não há provas. Foi uma tragédia. Aceite", ele respondia, virando as costas para mim.

Aquele muro entre nós cresceu a cada ano, a cada nova noiva morta.

Eu o amava, ele era meu pai, mas não conseguia mais confiar nele.

Ele estava escondendo algo.

Algo terrível.

Quando a oitava noiva morreu e os Silva anunciaram que precisavam de uma nona, eu soube o que tinha que fazer.

Se ninguém podia me dar a verdade, eu a arrancaria daquela casa.

Mesmo que custasse a minha vida.

Naquela noite, eu fui até o escritório do meu pai.

Ele estava sentado no escuro, um copo de uísque na mão.

"Pai", eu disse, minha voz firme. "Eu vou me candidatar para ser a próxima noiva de Pedro Silva."

Ele não se moveu. O copo em sua mão não tremeu.

O silêncio na sala era pesado, cheio de tudo o que não foi dito por oito anos.

Eu ia entrar na toca do lobo. E eu não sabia se meu próprio pai me ajudaria a sair de lá ou se ele era o único que fecharia a porta atrás de mim.

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