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Capa do romance Jornalista de Guerra: Meu Destino

Jornalista de Guerra: Meu Destino

Prestes a casar, vejo Lucas priorizar Patrícia, sua amiga de infância, enquanto ignoro o luto por minha família militar. A humilhação atinge o ápice quando ela destrói a única lembrança do meu irmão e Lucas me manda limpar os restos, defendendo-a. Diante dessa traição e frieza, decido romper o noivado. Com o braço ferido e o coração liberto, aceito secretamente uma vaga como correspondente de guerra. Vou buscar minha coragem longe de quem me apagou.
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Capítulo 2

A um mês do meu casamento, a casa que deveria estar cheia de planos e risadas estava pesada, silenciosa. Lucas, meu noivo, sentava no sofá, mas não estava comigo. Ele estava no celular, rindo de algo que Patrícia, sua amiga de infância, tinha dito. A voz dela, estridente e alegre, vazava pelo alto-falante, preenchendo o espaço entre nós. Eu estava na poltrona ao lado, com as amostras de convites de casamento espalhadas na mesinha de centro, mas ele nem olhava. Para ele, eu era invisível.

"Você precisa ver isso, Lucas! É hilário!" a voz de Patrícia soava, e ele sorria para a tela do celular, um sorriso que antes era meu.

A dor era constante, uma pressão surda no peito que piorava a cada dia. Fazia seis meses que meu pai e meu irmão, ambos militares, heróis da pátria, morreram em uma operação de resgate. Fiquei sozinha. Lucas, no início, foi meu porto seguro, mas aos poucos, ele se afastou, e Patrícia ocupou todo o seu tempo e atenção. Ele dizia que ela o ajudava a relaxar, a esquecer a "atmosfera pesada" que se instalou em nossa casa. A minha dor era um fardo para ele.

Naquele dia, Patrícia decidiu aparecer, como sempre fazia, sem avisar. Ela entrou com a energia de um furacão, ignorando completamente minha presença e se jogando ao lado de Lucas no sofá.

"Adivinha quem chegou para salvar seu dia do tédio?" ela disse, bagunçando o cabelo dele.

Lucas riu, finalmente desligando o celular.

"Você não tem jeito, Paty."

O olhar dela finalmente caiu sobre mim e, em seguida, no meu pulso. Ali estava o bracelete de prata, simples, com um pequeno avião como pingente. Foi o último presente do meu irmão, entregue a mim no aeroporto, antes de ele embarcar para a missão da qual nunca mais voltou. "Para te proteger enquanto eu estiver fora" , ele disse. Era a única coisa material que me restava dele.

Patrícia forçou um sorriso.

"Nossa, Sofia, você ainda usa essa coisinha? É tão... simples. Lucas poderia te dar joias de verdade."

Antes que eu pudesse responder, ela esticou a mão, um movimento rápido e brusco, para pegar meu pulso.

"Deixa eu ver de perto."

Tentei recuar, um movimento instintivo de proteção.

"Patrícia, não..."

Mas ela foi mais rápida. Seus dedos se fecharam sobre o bracelete, e ela o puxou com uma força desnecessária. Houve um estalo seco, metálico. O fecho se partiu. O pequeno avião de prata caiu no chão, e a corrente do bracelete escorregou do meu pulso, ficando na mão dela. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Olhei para o pingente no chão, depois para a corrente quebrada na mão dela. Meu coração parou.

Patrícia arregalou os olhos, numa performance de choque.

"Oh, meu Deus! Sofia, me desculpa! Eu não queria... foi um acidente! Era tão frágil!"

As lágrimas que surgiram nos olhos dela eram falsas, eu sabia. Havia um brilho de triunfo por trás da máscara de arrependimento.

Olhei para Lucas, esperando. Esperando que ele visse a maldade no gesto dela, que ele entendesse a profundidade do que ela tinha feito. Mas ele apenas se levantou, pegou a corrente da mão de Patrícia e a colocou na minha.

"Calma, Sofia. Foi um acidente" , ele disse, a voz suave, mas não para mim. Ele estava acalmando a situação para proteger Patrícia. "Não precisa fazer essa cara. É só um bracelete, a gente manda consertar."

Ele se virou para Patrícia e a abraçou de leve.

"Não se preocupe, Paty. Ela só está um pouco sensível hoje. Não foi sua culpa."

"Só um bracelete." As palavras dele ecoaram na minha cabeça, apagando qualquer resquício de esperança. Ele não via. Ele não entendia. Ou pior, ele não se importava. A dor da perda do meu irmão se misturou com a dor aguda da traição. Naquele momento, olhando para os dois, o homem que eu amava consolando a mulher que acabara de destruir minha última lembrança física do meu irmão, uma clareza fria e cortante tomou conta de mim.

Eu não podia mais viver assim. Não podia mais aceitar esse desrespeito, essa humilhação. Eu não ia casar com ele. Eu não ia ficar aqui para ser lentamente apagada.

Naquela noite, enquanto Lucas dormia profundamente, sem qualquer sinal de remorso, eu me levantei. Fui até a gaveta onde guardávamos os documentos para o casamento civil. A papelada estava ali, pronta, esperando por nossas assinaturas na semana seguinte. Peguei os formulários e os escondi no fundo de uma caixa de livros antigos do meu pai, um lugar que eu sabia que ele nunca procuraria.

No dia seguinte, sentei em frente ao meu computador e comecei a pesquisar. "Vagas para correspondente de guerra." Meu pai e meu irmão eram corajosos. Eles enfrentaram o perigo de frente. Eu não carregava o sangue deles para me encolher em um canto e chorar. Eu iria encontrar meu próprio tipo de coragem. Eu iria para longe, para um lugar onde a dor do passado pudesse ser transformada em propósito.

Lucas entrou no escritório, já vestido para sair. Ele me viu na frente do computador e franziu a testa.

"Você ainda está chateada por causa de ontem?" ele perguntou, o tom impaciente. "Patrícia me ligou de manhã, ela está se sentindo péssima. Acho que você deveria ligar e pedir desculpas por ter reagido daquele jeito. Você a deixou muito desconfortável."

Olhei para ele, para o rosto do homem que eu pensei que conhecia. A cegueira dele era total. A insensibilidade, completa. Apenas assenti com a cabeça, um movimento pequeno e vazio.

"Tudo bem, Lucas" , eu disse.

Ele sorriu, satisfeito.

"Ótimo. Sabia que você ia entender."

Ele se inclinou para me beijar, mas virei o rosto e o beijo acertou minha bochecha. Ele não pareceu notar. Apenas saiu, provavelmente para encontrar Patrícia e tranquilizá-la de que a noiva problemática dele havia sido colocada em seu devido lugar.

Sozinha novamente, olhei para a tela do computador. Uma vaga. Uma agência de notícias internacional procurava jornalistas para cobrir zonas de conflito no Oriente Médio. O treinamento começaria em duas semanas.

Eu cliquei no botão "Candidatar-se" .

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