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Capa do romance Invisível

Invisível

Isabela retorna a Belo Vale após oito anos com um objetivo claro: superar o amor platônico que nutre por Matteo, o herdeiro de uma fazenda de gado. Apesar das diferenças raciais e de idade, o sentimento persiste. Ela acredita que o neto de imigrantes italianos está casado e com filhos, mas a realidade pode surpreendê-la. Nessa trama, a filha de quilombolas tenta provar que amadureceu, buscando ser vista por Matteo como uma mulher e não apenas como criança.
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Capítulo 2

Capítulo 2

Reconhecendo

Tomei um banho, vesti uma calça jeans e um cropped e fui verificar e aprender o que fazer com dona Maria do Rosário. Assim que entrei ela me olhou de cima a baixo e sua expressão facial mudou. Ela voltou seu olhar para a janela e não me deu muita atenção.

— Dona Maria, eu preciso saber quais são seus remédios. Tem alguma receita em algum lugar por aqui, nas gavetas?

— Estão na parede, minha filha.

Olhei tudo a volta e reparei em um pedaço de papel colado a parede logo acima de uma escrivaninha. Eram muitos remédios, eu os conhecia por causa do curso. Remédios para diabetes, para pressão, fortificantes, complexos vitamínicos, colírios e outros mais. Eles tinham anotado ao lado os horários e doses. Seria bastante trabalho, mas eu me acostumaria com ele. E além de tudo, ela parecia um doce de pessoa agora, muito diferente do que eu me lembrava. Então vi que havia um remédio quase na hora da tomada. Olhei o relógio de pulso e vi que eram dezoito horas já.

— Como a senhora toma os remédios, dona Maria? Só água?

Ela deu de ombros e aquilo me pareceu estranho.

— Você sempre gostou dele? — Ela perguntou.

Do que ela falava? Ela apenas precisava me dizer como tomava seus remédios. Eu me aproximei dela e Maria voltou o olhar para mim enquanto eu me sentava em sua cama. Apoiei as mãos nas minhas coxas me sentindo um tanto desconfortável com aquela pergunta que eu achei que tivesse entendido. Como e porque ela parecia achar que eu sentia alguma coisa por ele?

— Do que a senhora está falando, dona Maria?

Ela sorriu complacente e com carinho.

— Meu filho. Você sempre gostou dele?

Engoli em seco. Revelar sentimentos não estavam em minha proposta de trabalho e muito menos para a mãe dele. Ela me viu crescer na fazenda, limpando aquela casa junto com minha mãe. Eu nunca tinha sido empregada, era óbvio, era uma criança, mas minha mãe achava que eu precisava ajudá-la. Minha mãe achava que eu precisava aprender para quando me casasse ou para arranjar um emprego de empregada igual a ela ou quem sabe, talvez, se continuasse trabalhando ali.

— Eu não sei do que a senhora está falando...

Meu rosto esquentou, senti um calor repentino. Levei a mão ao cabelo e o ajeitei para trás, tentando pensar no que responder se ela fosse mais incisiva.

— Isabela... olhe para mim.

Com muito medo eu olhei e achei que aquele pânico estivesse transparecendo em meu rosto.

— Não precisa confirmar se não quiser, mas uma mulher sabe quando a outra olha um homem com sentimentos. Seu olhar quando olha Matteo é de admiração e muitas coisas mais.

Corei fortemente, eu sabia. O calor subiu e senti pequenas gotas de suor se formarem em minha fronte. Eu tinha sido pega olhando com paixão para ele? Como ela era astuta! Eu achei que sabia disfarçar muito bem, mas percebi que se eu não sabia disfarçar para ela, não saberia disfarçar para ele da mesma forma.

— Eu...eu...

Eu me levantei e fui olhar o quadro de remédios. Quando peguei uma caixa, notei que minha mão tremia muito.

— Eu quero lhe dizer, Isabela... — Ela pausou e eu voltei meu corpo para olhar para ela novamente. Fugir poderia ser pior — Que gostava muito da sua mãe, era muito amiga, uma confidente. E que se você voltou por causa dele, eu aprovo.

Arregalei os olhos. Aprova? Fui até ela e me sentei com a necessidade de me explicar.

— Dona Maria, me perdoa, eu não voltei por isso, eu só...

— Voltou por isso. — Ela sorriu, me interrompendo.

— Não, eu voltei porque vi o anúncio e vi a possibilidade de esquecer o seu filho já que estava casado.

— Gostava dele desde adolescente?

Ela queria detalhes vergonhosos dos meus sentimentos, por Deus! Talvez quisesse ser minha confidente como minha mãe.

—Sim, desde os treze anos.

Ela suspirou profundamente e me olhou com bondade.

— Você está uma moça lindíssima... Eu tinha esse corpinho bonitinho que você tem nos meus vinte anos... Mas eu preciso saber.

— Sim?

Eu ainda tremia com medo que ela dissesse algo a ele.

— Você saiu daqui com quinze anos e volta com esse corpão e essa beleza toda aos vinte e três, ainda apaixonada pelo meu filho. Se achava que ele estava casado, porque voltou?

Eu sorri, completamente encrencada e respirei fundo antes de qualquer resposta.

— Dona Maria, se eu pudesse ver o seu filho com outra mulher, cheio de filhos, eu poderia tirar ele da minha cabeça.

— Ahhh entendi. Mas quando chegou, viu que ele está viúvo e sem filhos. A chama reacendeu.

— É...

Ela sorriu sem graça.

— Meu Matteo sofreu muito, Isabela.

Logo percebi onde ela queria chegar.

— Eu acredito.

— A mulher dele morreu em um acidente de carro, meio que provocado por ele.

— Meu Deus...

— Eles discutiram no carro e Matteo perdeu a direção, o carro foi parar em uma árvore da estrada.

Eu estava realmente chocada.

— Ele se culpa até hoje mesmo que tenha sido um acidente afinal ele não discutia ao volante sozinho.

— Entendo.

— Meu filho está fechado, Isabela. Ele se fechou e não se abre para ninguém e nem para mim. As vezes vejo ele chorar no balanço do jardim à noite mas não posso fazer nada.

Como eu queria abraçar aquele homem!

— Eu sinto muito, Dona Maria.

— Ele precisa voltar a se abrir, Isabela. Não com prostitutas, voltando de Belo Vale bêbado, negando encontros com mulheres interessadas nele.

— Isso acontece? — Senti o máximo ciúme naquele momento.

— As vezes ele conhece alguém na internet. Mas talvez, alguém mais próxima possa fazer ele se abrir, se é que me entende.

Eu entendia o que ela estava pensando?

— A senhora...?

— Vejo muito potencial. Olha eu estou velha, sabe lá Deus quanto vou durar, eu queria ver meu filho feliz novamente.

— Eu compreendo totalmente, dona Maria.

— A menos ...— Ela meneou a cabeça — Que você já tenha alguém.

— Não! — Apressei-me a responder — Eu tentei tirar Matteo dos pensamentos mas nos meus sonhos eu...

— Entendo, filha. Quem sabe você possa penetrar a armadura dele? Afinal não acredito que nenhuma outra possa amar meu filho mais que alguém que sai de Belo Horizonte e volta a Belo Vale somente para olhar para ele de novo.

Finalmente eu entendi o que ela estava sentindo. Eu era uma mulher conhecida, de boa família e apaixonada por ele. Não era uma golpista, não era uma qualquer. E ela queria muito ver o filho ser feliz e ter uma família. Como eu tinha acertado ao voltar...Como eu tinha me permitido esquecer só para ter uma tentativa, uma única tentativa de ter Matteo Ricci para mim. Aquilo era surreal, era melhor que meus sonhos, era melhor que ganhar na mega-sena. Eu estava com o peito pleno de esperanças!

— Eu vou tentar, dona Maria.

— Vamos, juntas.

Ela pediu um abraço e eu levantei e a abracei apertadamente naquela cadeira de rodas. Dona Maria do Rosário era agora minha patroa e minha melhor amiga. Era tudo que eu queria na vida desde os quinze anos.

Quando eu me afastei, estávamos emocionadas mas não de uma forma chorosa, apenas embargadas. Eu estava bem mais emocionada por saber que ele sofria. O tanto que eu queria tirar aquele sofrimento do peito dele era muito. Ela estava confiando de que eu teria esse poder mas ele sequer me olhou diferente. Essa seria uma batalha afinal porque eu não seria jamais vulgar. Eu sabia que Matteo não gostava de mulheres vulgares, então tudo que eu devia pensar em fazer seria para chamar sua atenção de forma tímida.

Enfim dei o remédio dela da hora e a ajudei a trocar de roupa para o jantar. Pontualmente as vinte horas. Dona Maria tinha um pouco de timidez ao fazer aquilo afinal me viu crescer e se sentia em uma posição de fragilidade com relação a mim. Mas eu acreditava que o tempo a faria se soltar mais. Era difícil, ela estava pesada e eu sofri bastante para trocar sua roupa, imaginei como seria dar um banho na senhora outrora tão magra. Sentei na cama, bufando e ela sorria.

— É minha situação atual, minha filha.

— Nunca vou reclamar de ajudar a senhora, o que vocês fizeram pelos meus pais quando saíram do quilombo... — Respirei fundo — Minha mãe contou e eu vou ser eternamente grata. Mesmo que o senhor Ricci não estivesse me pagando, eu faria mesmo assim.

— Senhor?

Nós duas sorrimos, confidentes.

— Difícil acostumar.

— Eu sei, ele vai se sentir mais tranquilo que você está aqui e ele pode trabalhar com tranquilidade.

— Fico feliz demais.

Conversamos até a hora do jantar. A cozinheira passou por nós e bateu na porta do quarto.

— Bem vinda... — Ela se dirigiu a mim e eu a reconheci.

— Laurinda!

— Como vai, Isabela?

Dei uma corridinha até ela e a abracei. Laurinda era uma empregada branca da casa desde que estávamos ali. Eu digo branca porque ela não era da comunidade quilombola de onde saímos, ela era nordestina. Uma senhora arretada de forte, humilde mas sempre lendo pelos cantos afinal ela não tinha celular. Pelo que me lembrava, Laurinda estava sempre lendo os romances que o pai de Matteo dava de presente a ela quando voltava de outras cidades.

— Você está bonita, menina! Logo logo vai arrasar corações!

Eu sorri pensando que o único que queria arrasar estava ali, dentro daquela casa.

— Obrigada, Laurinda.

— Eu também vim avisar que o jantar está pronto e que senhor Ricci não gosta de atrasos.

Eu não me lembrava de ele ser tão regrado e rígido. Principalmente com a mãe,mas o homem estava mudado então eu poderia esperar de tudo. Empurrei a cadeira de dona Maria para a sala de jantar e me sentei ao seu lado, aguardando. À mesa havia muitos tipos de comida, feijão tropeiro, frango ao molho pardo, arroz integral, pães, torradas e taças de vinho. A mesa estava impecavelmente posta por Laurinda, que se posicionava atrás da cadeira reservada a Matteo. Ela me lançou um sorriso enquanto esperava. Logo surgiu ele fazendo meu coração acelerar, que raiva... Que espécie de emoção tão forte era aquela que ele me causava que não podia se aproximar sem que meu corpo reagisse? Ele puxou a cadeira rapidamente e se sentou.

— Boa noite, mamãe, Isabela, Laurinda. Laura está melhor?

Laura? Quem era Laura?

— Sim, indisposição de mulher, senhor. — Respondeu Laurinda.

Então devia ser uma outra empregada. Matteo estava muito diferente do homem adorável que eu reencontrei a tarde, nos levando café. Talvez tivesse sido minha primeira impressão. Ou talvez ele quisesse ser mais amigável quando me reencontrou e não precisava mais fazer isso com o decorrer do dia. Nós estávamos sentadas ao lado da cabeceira da mesa, que era o lugar dele. Logo ao seu lado sentava-se sua mãe e a sua esquerda, eu me sentava.

— Senhor? — Perguntou Laurinda — Quer seu vinho agora?

— Sim por favor.

— Boa noite. — Eu decidi dizer.

Ele mal me olhou.

— Como foi a adaptação? — Ele observava o vinho cair na taça mas não me olhou.

— Ahmm...foi boa, não é dona Maria?

Temi pelo que ela poderia dizer mas acreditava que ela era mais astuta do que eu pensava.

— Excelente, Isabela me trocou de roupa, deu os remédios. Ela é perfeita.

— Fico feliz em saber, mamãe.

Ele buscava pães e os roía sem nos olhar muito. Tomou um gole do seu vinho e então olhou a mãe.

— Bom saber que estão se dando bem.

— Está tudo indo bem, meu filho mas eu queria passea...

Ela foi interrompida.

— Eu não posso demorar no jantar, tenho uma reunião online com uns compradores.

Cerrei a testa em desapontamento. A mãe dele estava falando, oras! Que espécie de homem faz isso? Ela baixou a cabeça e começou a jantar sem falar mais nada. Fiquei um pouco irritada. Será que ele tinha se transformado em um idiota da noite para o dia? Então olhei para Laurinda, parada ali como as escravas antigas faziam, esperando o senhozinhode engenho se saciar e levantar da mesa. Assim que ele o fez, eu olhei as duas.

— Ele é sempre tão ocupado assim? — Perguntei um tanto irritada.

Laurinda começou a retirar os talheres e pratos dele da mesa, calada. Eu ainda não tinha jantado.

— Ele tem muito o que fazer, Isabela, eu não reclamo.

Jantei quieta, pensando. Ao terminar, levantei-me da cadeira e empurrei dona Maria de volta a seu quarto por aqueles corredores de tábua corrida que rangiam. Eu estava decepcionada com o tratamento dispensado a mãe dele.

— Ele é sempre assim?

— Não, Isabela. Ele é apenas atarefado.

— Ele não esperou a senhora terminar de falar.

— Eu sei mas...

Eu sentei de frente para ela em sua cama e segurei suas mãos.

— Eu vou precisar falar com ele.

— Não! Não estrague tudo, Isabela.

— Eu não vou estragar, vou falar com calma. Vou esperar a reunião terminar.

— Eu quero me deitar.

— Sim, senhora.

Eu a segurei pelo quadril e fazendo toda a força do mundo, a ergui e a coloquei na sua cama. Estava exausta daquele dia. A minha exaustão era física e agora também emocional. Eu não queria pensar que ele tinha se tornado um babaca com o tempo. Principalmente com a mãe da qual era o único filho.

— Remédios a noite, deve ter...

— Sim, para eu dormir.

Fui até o quadro de remédios e busquei com o olhar quais remédios eram os da noite. Hipertensivo, calmante. Voltei a ela e vi que sua garrafa de água na cabeceira da cama tinha terminado.

— Pode ajeitar meu travesseiro, minha filha?

— Claro, dona Maria.

Afofei o travesseiro sob sua cabeça e a cobri com a colcha de retalhos. Eu me lembrava daquela colcha. Tinha pertencido a sua mãe. Lancei-lhe um sorriso e fui buscar água.

— Eu já volto.

Ao sair do quarto, me dirigi a cozinha da casa, que era imensa. Laurinda já estava por lá, lavando as panelas e terminando de guardar tudo. Ela me sorriu. Reparei que a mesa de madeira maçiça tinha sido trocada por uma de granito e que os fogões estavam mais modernos. O velho fogão a lenha estava ali somente para enfeitar ou quem sabe para uma emergência. Enchi a garrafa no filtro de vidro e voltei ao quarto mas antes ouvi vozes que vinham do quarto dele.

A voz dele não estava baixa, eu consegui ouvir algumas palavras. Mas o quem me ferveu o sangue foi ouvir a voz de uma mulher marcando um encontro com ele. Reunião de trabalho? Ele pode ter tido uma reunião muito rápida de trabalho mas naquele momento estava marcando um encontro com alguma vagabunda que faria tudo para colocar as mãos naquele rico e belo homem de negócios agropecuários. Quanto a sua mãe? Estava jogada em um quarto, numa cadeira de rodas, tomando muitos remédios e pedindo para dar um passeio... Voltei ao quarto de dona Maria e ela já cochilava. Eu a acordei para tomar os remédios. Ela resmungou muito. Assim que os engoliu, voltou a dormir. Foi então que senti minhas costas. Não era porque só tinha vinte e três anos que aguentava uma senhora de oitenta quilos com facilidade e sem sentir dor. Eu fui treinada para aplicar injeções, fazer curativos, administrar remédios mas não para o cargo de cuidadora. Aquilo arrebentaria minhas costas. Mas enfim, fui para meu quarto desistindo de falar qualquer coisa com ele, afinal estava exausta e triste.

Ao fechar a porta atrás de mim, vi a porta dele se abrir e tentei ser rápida para sair dali e não o ver mas ele me chamou.

— Isabela? Ela dormiu?

Parei, sem conseguir fugir. A voz, mesmo que não fosse do meu atual patrão, e teria que me fazer parar, era de Matteo. Aquela voz me faria congelar onde fosse.

— Sim, dormiu.

— Uma pena, não consegui dar meu beijo de boa noite.

Ele ia já se afastando com essa frase, o que me confundiu demais. Primeiramente foi extremamente grosseiro interrompendo a mãe para depois me dizer que lamentava ter perdido o beijo de boa noite? Meus pés não conseguiram mais andar, eu precisava falar, precisava entender o que estava acontecendo e quem ele era agora.

— Senhor Matteo?

Ele se voltou para mim.

— Sim?

— Sua mãe na hora do jantar ia pedir um passeio e o senhor a impediu de falar, mas queria dar um beijo de boa noite? — interroguei.

Ele ergueu uma sobrancelha e começou a se aproximar de mim. Era hora de eu me arrepender. O cansaço não deixou que meu coração acelerasse tanto mas ainda assim sua aproximação me causava medo e excitação. Ele parou diante do meu corpo e olhou para minhas roupas.

— Bem, foi um erro, eu sei, mas eu precisava mesmo me apressar e mamãe quando começa a falar não pára mais. Mas uma coisa que reparei é que anda com essas blusas minúsculas no trabalho?

— Blusas...

Eu olhei para meu corpo e estava mesmo usando um cropped, que deixava meu abdome desnudo e isso não era apropriado. O cansaço tinha confundido minha cabeça.

— Peço desculpas, senhor, amanhã estarei usando meu jaleco de enfermeira.

— Perfeito. Diga a ela que me desculpe e que vamos passear assim que possível.

Porque ele não dizia a ela? O que estava acontecendo? Ele rumou para seu quarto, cansado, passando a mão pela nuca e de longe me acenou.

— Boa noite, Isabela.

— Boa noite, senhor.

Eu jamais perderia a mania de chamá-lo de senhor, eu sabia disso. Fui para meu quarto com a sensação de carregar cem quilos nas costas. Estava triste e cansada. Deitei na cama com a mesma roupa, me jogando pesadamente no colchão e o senti afundar. Droga. Dormi no péssimo colchão assim mesmo.

Acordei com o despertador do celular gritando no meu ouvido. Olhei a hora, sete e trinta. Era hora de dar remédios a dona Maria. Levantei e tomei uma ducha rápida já que o meu quarto tinha banheiro. Lembrei da ordem dele na noite anterio, roupas discretas e jaleco. Arrumei meus cabelos para o alto, fiz um coque no topo da nuca, deixando alguns fios encaracolados soltos na frente do rosto e procurei uma roupa discreta. Se é que eu tinha alguma. Achei um vestido floral creme e compus com meu jaleco da enfermagem. Ao chegar ao quarto de dona Maria me deparei com ele me olhando.

— Bom dia! — Cheguei afobada.

— Bom dia? Minha mãe está cansada de esperar pelos remédios! — Disse ele em tom áspero.

— Matteo, ela está cansada de ontem, vá com calma....

— Senhor, me desculpa, eu não vou mais perder a hora, o meu alarm...

— Eu não gosto de desculpas, é bom melhorar!

Ele saiu do quarto dela, me largando com vontade de chorar. Dona Maria me olhava com dó. Era óbvio, naquele momento para mim, que ele jamais iria me tratar como alguém que foi tão íntimo da família. Ele era o patrão. Nada mais que isso.

— Releva minha filha, ele anda com um gênio horrível depois do acontecido.

— Eu estou percebendo. Já tomou seu café?

—Sim, Laurinda me trouxe no quarto. Não é sua incumbência.

— Mas eu deveria estar aqui. Vamos tomar os remédios?

— Matteo me deu, filha.

Então me sentei, bufando na cama dela a olhando.

— Dona Maria, eu peço mil desculpas, eu estava exausta ontem, carreguei minha mala pelo caminho do ônibus todo até aqui, fiz uma viagem cansativa e demorada. Não justifica, eu sei, mas pensei que...

— Que teria mais um dia para se acostumar, eu entendo.

— Sim! — Ela me compreendia — Eu não ouvi o alarme tocar, eu peço muito desculpas!

— Nesse momento deve desculpas a ele mas ele não vai ouvir mesmo. Ele só vive para o trabalho e não perde horários, não vai querer entender, melhor deixar isso para lá. Vamos para a varanda? Pode me deixar lá com meu sino e vir tomar café.

— Sino?

— É, Matteo me deu um sino para tocar quando eu quisesse sair do lugar.

— Um sino?

Eu nem queria fazer comparações a uma vaca mas aquilo estava além do aceitável. Ele tratava a mãe como um peso, um estorvo e aquele não era o Matteo pelo qual eu era apaixonada desde a adolescência. Olhei em volta e vi um sino do outro lado da cabeceira. Fui até ele um pouco revoltada e o peguei, o colocando no bolso do jaleco. Empurrei a cadeira de dona Maria até a varanda do casarão enquanto ouvia Matteo em ligações telefônicas, trabalhando.

Quando já estávamos na varanda, eu me sentei no banco de madeira ao lado de dona Maria e ficamos olhando aquelas terras e tomando o fraco Sol da manhã. Ao longe o mugido de vacas podia ser ouvido. Fechei um pouco os olhos e lembrei de como era estar ali há anos atrás. Eu observava o filho do meu patrão a distância, domando cavalos, sem camisa, sujo de lama. Ele era perfeito. Aquele tórax nú em cima dos cavalos, segurando a rédea com apenas uma mão junto com o chicote era a visão da perfeição máscula. Eu suspirava pelos cantos da casa, enquanto arrumava sofás, batia tapetes e varria. Ele nunca tinha aparecido com namorada então a minha paixão estava segura, longe das investidas femininas que me ameaçavam. Eu já tinha quinze anos e sabia bem o que era o sexo e o que sentia por ele era um imensurável tesão. Eu era virgem mas sabia onde tocar para sentir prazer lembrando do sorriso dele. Era involuntário, quando dava por mim eu já estava gemendo com minha mão e Matteo na cabeça. Fazia o mínimo de barulho a noite para não deixar escapar o menor gemido que saísse da minha boca no prazer solitário. Mais tarde na vida conheci homens brancos parecidos com ele e homens pretos parecidos com os do quilombo mas Matteo nunca saiu da minha imaginação sexual.

De repente fui tirada das minhas lembranças por ele. Ouvi os passos da bota no assoalho de madeira corrida da sala e logo ele apareceu na varanda nos procurando. Só então me lembrei que não tinha tomado café da manhã ainda. O cheiro de broa de milho da Laurinda me invadiu as narinas.

— Mãe, a senhora quer passear?

Ela abriu um sorriso. Eu entendi que ele tinha repensado.

— Eu ia adorar ir ver o padre Francisco e comprar um presente para a Isabela.

Eu ergui o olhar para ele e era muito estranho estar há poucos minutos sonhando com ele nu.

— Presente?

Ele sorriu e parecia menos carrancudo do que de manhã, mas eu ainda estava magoada.

— Sim, ela está sendo muito boa comigo e estava cansada ontem, Matteo, você deve desculpas a moça.

Eu arregalei os olhos e me levantei.

— Não, não é preciso.

Ele coçou a nuca e parecia envergonhado. Depois virou o rosto lindo para a plantação. O perfil daquele homem era lindo, aquela barba por fazer, um pouco desleixada, o nariz não tão afilado mas que compunha uma simetria perfeita com as sobrancelhas espessas e os olhos azuis de cílios longos. Eu podia ver a luz do sol perpassando sua íris do lugar onde estava. E aquela combinação de azul com amarelo da luz tornou seu olho âmbar naquele momento. Então ele me olhou, um pouco sério.

— Me desculpe, Isabela. Obviamente você estava cansada da viagem e eu fui um grosso.

— Não, não, eu devo desculpas, apenas não ouvi mesmo o alarme tocar, não vai se repetir.

Ele sorriu de canto, quase incompreensivelmente e eu virei a cabeça um pouco de lado, como os cachorros fazem quando não entendem alguma coisa. É, a mãe dele era uma vaca com aquele sino e eu agora era a cadela. Não me importava que ele me chamasse assim no momento certo.

— Ela é caxiasigual a mim, mãe está vendo?

— Estou vendo.

— Isabela, vá se trocar se quiser, você vai conosco a cidade, minha mãe precisa de ajuda.

— Ahmm está bem.

Ele desceu as escadas da varanda e foi em direção ao estábulo. Corri para o quarto de dona Maria enquanto ela falava alto na cadeira de rodas.

— Isabela, está correndo porque?

— Não quero decepcionar ele de novo.

— Calma minha filha, ele não vai fugir com outra!

Ainda bem que quando ela disse aquilo já estávamos no quarto dela. Eu corri tanto que a cadeira de rodas dela parecia um carro de Formula 1.

— Dona Maria, por favor, — Segurei as mãos dela — Não diga mais isso em voz alta.

Ela sorriu.

— Eu estou bem vestida, como uma entrevada deve estar, você é que precisa se trocar.

— Não fale assim de si mesma! Vou brigar com a senhora! Vou ao meu quarto bem rápido colocar uma calça jeans.

— Vai,vai filha.

Eu fui correndo para meu quarto que era em frente ao dela, no térreo e comecei a trocar de roupa. Escolhi uma calça jeans, tênis e uma camiseta branca de alcinhas finas, afinal tinha seios grandes mas não precisavam de sutiã. Uma das vantagens dos vinte e poucos anos. Quando estava pronta com uma mochila de uma alça com maleta de prontos socorros e meus pertences pessoais, fui para a cozinha e preparei um café preto para comer com um pedaço de broa da Laurinda.

— Come direito, menina. — Avisou ela.

— Não tenho tempo, preciso correr.

Matteo já estava abrindo a porta lateral de uma van que tinha só para levar sua mãe ao médico ou a cidade. A porta se abria e uma espécie de elevador de cadeira de rodas saía pela porta e descia para buscar a cadeira de dona Maria do Rosário. Eu a ajudei, levando sua bolsa e fui sentada ao seu lado, em uma pequena cadeira ao lado dela. Ao entrar no carro, Matteo olhou para mim, virando o corpo para trás.

— Tudo bem ai?

Senti que parecia nua no momento em que ele olhou meus seios por cima da blusa. Aquele instante foi muito rápido mas em seguida ele olhou meus olhos e sentiu-se desconfortável de ter olhado daquela maneira.

— Tudo bem, filho, podemos ir.

A voz de Maria do Rosário me tirou do transe que o olhar dele sobre meu corpo tinha me proporcionado. Eu não sabia o que sentir, desejei aquele olhar de macho curioso por anos, anos... Naquele momento eu tive e não sabia o que sentir. Estava nervosa e feliz. Ele tinha me reparado. Ele tinha reparado que eu não era mais uma menina mas eu sentia que ainda tinha uma longa caminhada pela frente até que eu me tornasse visível como mulher aos olhos dele.

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