
Incendiando o Mundo de Mentiras Dele
Capítulo 2
Ponto de Vista de Aliza:
O cheiro estéril do quarto de hospital encheu minhas narinas, um lembrete gritante do vazio que de repente se abriu dentro de mim. Aborto espontâneo. A palavra ainda parecia estranha, uma piada cruel para algo que eu não tinha entendido até agora. Toquei meu abdômen, uma dor fantasma florescendo onde a vida havia residido brevemente, secretamente.
A enfermeira, uma mulher gentil chamada Sara, me deu um sorriso pequeno e triste. "Você vai ficar bem, Sra. West." Sua voz era suave, mas as palavras pareciam lixa contra minha alma em carne viva. "Seu marido foi informado."
Como se invocado, a porta se abriu rangendo. Dante estava lá, alto e imponente, mas por uma fração de segundo, vi um lampejo de preocupação genuína em seus olhos. Mas então, Flávia se materializou ao seu lado, o braço entrelaçado no dele, um curativo elegantemente enrolado em sua têmpora. Ela parecia pálida, mas inegavelmente radiante, banhando-se em sua atenção total. Ela me ofereceu um sorriso simpático, mas estranhamente triunfante.
"Oh, querida, sinto muito, muito mesmo, por ouvir sobre seu... incidente infeliz", Flávia arrulhou, sua voz pingando doçura artificial. Ela pressionou a mão livre no peito. "Dante estava tão preocupado, correndo para o meu lado depois da minha pequena batida. Imagine, você também sofreu um acidente! Que azar terrível."
O braço de Dante apertou a cintura de Flávia. Ele não olhou para mim, seu olhar fixo no rosto de Flávia, sua preocupação palpável. "Flávia, você tem certeza de que deveria estar de pé?" ele murmurou, conduzindo-a gentilmente de volta para a porta. "Você precisa descansar."
"Mas Aliza, minha querida, eu só tinha que te ver", insistiu Flávia, lançando um olhar fugaz para mim, uma miragem de compaixão. "Vamos deixá-la se recuperar. Dante tem sido uma rocha para mim."
E então eles se foram, a porta se fechando suavemente atrás deles, deixando-me no silêncio sufocante mais uma vez. Minha garganta se apertou, um gosto amargo e metálico enchendo minha boca. "Incidente infeliz." "Uma pequena batida." Era tudo o que minha perda significava, uma nota de rodapé no drama deles. Ele nem sequer ficou. Ele a escolheu novamente. A dor esmagadora em meu peito se intensificou, uma queimação lenta e agonizante.
Meu celular, esquecido na mesa de cabeceira, tocou de repente. Era a Dra. Aris. Peguei-o desajeitadamente, minhas mãos tremendo.
"Aliza, o que diabos aconteceu?" A voz da Dra. Aris estava tensa, forçada. "Você perdeu o lançamento do projeto Quimera. O conselho está furioso. Eles veem isso como um grande sinal de alerta para o seu comprometimento."
"Dra. Aris, eu... eu tive uma emergência", gaguejei, minha voz quebrando. "Eu estava no hospital. Acabei de ter um aborto espontâneo."
Um silêncio pesado se estendeu entre nós. Então, a Dra. Aris suspirou, um som longo e cansado. "Aliza, sinto muito por ouvir isso. De verdade. Mas este projeto... é de alto risco. Precisávamos de você lá. O conselho já está questionando sua estabilidade. Especialmente depois de... bem, depois que a empresa já investiu tanto em você."
"Mas não foi minha culpa", implorei, lágrimas ardendo em meus olhos. "Dante estava me levando para lá, e então o acidente de Flávia aconteceu, e ele simplesmente... ele me trouxe para cá."
Outro suspiro. "Aliza, eu entendo que você está passando por muita coisa. Mas isso não está facilitando as coisas. A decisão foi tomada. Você está fora do projeto. Efetivo imediatamente." Sua voz era firme, não deixando espaço para negociação.
O telefone escorregou dos meus dedos dormentes. Fora do projeto. Meu sonho. Se foi. Em um único e horrível dia, eu perdi tudo. Meu filho, minha carreira e o último resquício da minha crença no amor de Dante. O quarto girou. Fechei os olhos, um soluço silencioso escapando dos meus lábios.
Naquela noite, Dante voltou ao quarto do hospital sozinho. Ele carregava um buquê de lírios brancos, seu cheiro enjoativo no ar. "Aliza", disse ele, sua voz um pouco mais suave do que antes. "Sinto muito. Por... tudo." Ele colocou as flores na mesa de cabeceira, cuidadoso para não olhar diretamente para mim. "Flávia está descansando em casa. Concussão leve, nada sério."
Meu olhar estava fixo em seu rosto, procurando por algo, qualquer coisa. "E eu?" sussurrei, minha voz quase inaudível. "E quanto a mim, Dante?"
Ele se mexeu desconfortavelmente. "Eu te disse, Aliza. Sinto muito." Ele estendeu a mão para a minha, mas eu me afastei, recuando de seu toque. "Foi um acidente. Essas coisas acontecem."
"Essas coisas acontecem?" As palavras eram gelo na minha língua. "Você me deixou. Você me abandonou no carro para correr para ela. E agora... eu perdi nosso bebê. E meu emprego. Tudo pela 'pequena batida' dela?" Minha voz se elevou, crua de dor e raiva. "Por que, Dante? Por que ela é sempre mais importante?"
Sua mandíbula se contraiu. Seus olhos, geralmente tão guardados, brilharam com algo semelhante a irritação. "Aliza, não se atreva a me acusar disso. Flávia precisava de mim. Ela estava apavorada. E quanto ao bebê, é lamentável, mas podemos tentar de novo." Ele fez uma pausa, então sua voz baixou, um aviso subjacente em suas palavras. "E não se esqueça do seu lugar. Você é minha esposa. Você não vai questionar minha lealdade."
Suas palavras, frias e desdenhosas, cravaram uma adaga em meu coração já ferido. Meu lugar. Ele me via como uma posse, um símbolo de status, não uma parceira, não uma mulher que acabara de perder seu filho. Senti um vazio profundo, um espaço frio e duro onde meu amor por ele residira. As expectativas que eu carregara para este casamento, a esperança ingênua de que minha devoção eventualmente derreteria seu exterior gelado, se transformaram em pó. Eu havia imaginado uma vida de respeito mútuo, de sonhos compartilhados, de uma família. Em vez disso, encontrei uma gaiola dourada e um marido cujo coração pertencia a um fantasma.
Alguns dias depois, de volta à mansão espaçosa e silenciosa, meus pais vieram me visitar. Minha mãe, vendo meus olhos fundos, me envolveu em um abraço apertado. "Minha pobre menina", ela murmurou, acariciando meu cabelo. Meu pai, geralmente severo, deu um tapinha desajeitado no meu ombro. Eles estavam preocupados. Dante, sempre o marido dedicado em público, providenciou para que eu fosse levada para casa, garantindo que todas as aparências fossem mantidas.
Naquela noite, Dante entrou na sala de estar, um raro sorriso no rosto. "Aliza", disse ele, estendendo um folheto brilhante. "Minha mãe insistiu que começássemos a planejar. Para o berçário." Ele apontou para uma foto de um quarto luxuoso, cheio de tons pastel. "Ela acha que deveríamos ir com um tema clássico. O que você acha?"
Olhei para o folheto, depois para ele. O pensamento de outro filho, de preencher aquele espaço vazio, era uma perspectiva aterrorizante. Minha voz era um sussurro. "Dante... você será um bom pai?"
Ele fez uma pausa, um lampejo de surpresa em seus olhos. Então, ele sorriu, um sorriso real desta vez, embora parecesse forçado. Ele se ajoelhou diante de mim, tirando uma pequena caixa de veludo. "Aliza, eu te prometo, serei o melhor pai." Ele abriu a caixa para revelar um pingente de diamante brilhante, em forma de uma pequena estrela. "Isso é para o nosso futuro. Nosso novo começo." Ele fechou a caixa, abriu a palma da mão e, com um sorriso infantil, colocou minha mão na dele. "Promessa de dedinho?"
Uma estranha leveza, fugaz e frágil, tocou meu coração. Era um gesto infantil, tão diferente do CEO estoico, mas oferecia um alívio momentâneo do peso esmagador da minha dor. Lembrou-me, vagamente, de outra promessa, há muito tempo, em outra vida. Uma promessa de segurança, de para sempre. Eu quase acreditei nele. Quase.
Assenti, um sorriso fraco brincando em meus lábios. "Ok, Dante", sussurrei. "Promessa de dedinho."
Naquela noite, sozinha novamente em nosso quarto, olhei para o pingente de estrela. A memória do projeto Quimera, meu emprego dos sonhos, piscou em minha mente. Eu não podia deixar tudo ir. Eu tinha que recuperar alguma parte de mim mesma. Peguei meu telefone. Eu ligaria para a Dra. Aris novamente, imploraria por outra chance, qualquer coisa. Eu não seria apenas a "Sra. West", uma mulher de luto cujo único propósito era gerar um herdeiro. Eu era Aliza Hayes, bioquímica. E eu lutaria por isso.
No dia seguinte, armada com uma determinação renovada, vesti meu terno mais elegante e fui para a universidade. A Dra. Aris hesitou, mas concordou em me dar uma chance de apresentar meu caso ao conselho do departamento. Enquanto eu caminhava pelo corredor familiar, meu coração batia com uma mistura de esperança e ansiedade. Abri a porta do laboratório de pesquisa, apenas para congelar.
Flávia Brennan estava lá. Com um jaleco dois tamanhos maior, posando para uma equipe de filmagem. Ela estava rindo, sua risada aguda ecoando pelo espaço geralmente sagrado. "Oh, as maravilhas da ciência!" ela chilreou, segurando um tubo de ensaio para a câmera. "Tão fascinante!"
Meu sangue gelou. O que ela estava fazendo aqui?
Ela me viu. Seu sorriso vacilou por um microssegundo, depois se iluminou, tornando-se ainda mais sacarino. "Aliza, querida! Que surpresa! Dante disse que você estava... se recuperando."
"Flávia", eu disse, minha voz tensa. "O que você está fazendo no meu laboratório?"
Ela piscou os cílios, fingindo inocência. "Oh, você não soube? Dante mexeu uns pauzinhos. A West Enterprises é uma grande patrocinadora deste projeto agora, e eu estou me juntando à equipe como uma 'embaixadora celebridade' para aumentar a conscientização! Não é simplesmente fabuloso?" Ela piscou para a câmera.
Meu mundo inclinou. Dante. Ele tinha feito isso. Ele não apenas garantiu que eu perdesse minha posição original, mas agora inseriu sua preciosa Flávia em meu projeto, zombando do trabalho da minha vida. A raiva que surgiu em mim era fria e pura.
Nesse momento, minha supervisora, a Dra. Aris, entrou, parecendo agitada. "Aliza, momento perfeito. Acabamos de terminar a orientação para nossa nova... membro da equipe." Ela me deu um olhar de desculpas que dizia muito.
"Membro da equipe?" zombei, minha voz cheia de veneno. "Ela é uma atriz, Dra. Aris. O que ela sabe sobre bioquímica?"
Flávia fez beicinho dramaticamente para as câmeras. "Oh, Aliza, não seja tão pessimista! Estou aqui para aprender, para inspirar! Dante acha que é uma ideia brilhante!"
"Dante acha que é uma ideia brilhante", repeti, as palavras queimando na minha língua. Ele não apenas me negligenciou; ele estava me sabotando ativamente, por ela. Os últimos fios da minha esperança ingênua se romperam.
De repente, Dante apareceu, entrando confiantemente no laboratório, uma mão possessiva pousando no ombro de Flávia. Ele olhou para mim, um lampejo de desafio em seus olhos. "Aliza. Presumo que você esteja aqui para se candidatar a uma posição de assistente de pesquisa. Este projeto é vital, e o envolvimento de Flávia garantirá o máximo interesse público."
Ele disse isso tão casualmente, como se me rebaixar de líder de equipe para assistente, e me substituir por uma atriz de segunda categoria, fosse uma ação perfeitamente normal e aceitável. Sua mão acariciou o braço de Flávia com uma ternura que ele reservava apenas para ela. Então ele se inclinou, sussurrando algo em seu ouvido que a fez rir, seus olhos brilhando de prazer.
Meu coração se despedaçou, não em mil pedaços, mas em um pó fino e amargo. A promessa de dedinho, o pingente de estrela, a tênue esperança de uma família - tudo parecia uma piada cruel. Ele não era apenas emocionalmente distante; ele era uma traição ambulante. O homem que eu amei por uma década, o menino que uma vez preencheu meus sonhos, era um estranho. E pior, ele era meu inimigo.
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