
Império de Mentiras, Amor Destruído
Capítulo 2
"Você tem certeza absoluta, Luana? Uma vez que este documento seja assinado, não há volta. A Luana que o mundo conhece deixará de existir. Legalmente, fisicamente, em todos os sentidos."
A voz do homem era grave, sem emoção, um som que combinava com as paredes cinzentas e impessoais da sala.
Luana olhou para o papel à sua frente, o nome dela impresso em negrito no topo. Contrato de Adesão ao Programa de Proteção e Reintegração de Testemunhas. Não era uma testemunha de um crime, não no sentido legal. Mas era vítima de algo tão destrutivo que a única saída era a morte social.
"Tenho," ela respondeu, sua voz firme, surpreendendo a si mesma.
O homem, que se apresentou apenas como Agente Silva, a estudou por um momento. Ele viu uma mulher jovem, cujo rosto deveria estar radiante de felicidade. As notícias não falavam de outra coisa há semanas. Luana, a órfã que encontrou um conto de fadas. Ricardo, o bilionário do entretenimento, o homem que a perseguiu por dez anos, que construiu um império com o nome dela em cada tijolo, estava prestes a pedi-la em casamento no evento mais espetacular que o país já vira.
Silva pigarreou, ajustando os óculos.
"Ricardo Monteiro construiu o Luana Entertainment Group para você. Ele está prestes a transformar o maior anfiteatro da cidade no palco de um pedido de casamento. A imprensa está chamando de 'o evento da década' . Desistir de tudo isso... é uma decisão monumental."
Luana sentiu um gosto amargo na boca. Monumental. Sim, essa era a palavra.
Um flash da memória, nítido e cruel, invadiu sua mente sem permissão. A porta do escritório de Ricardo, entreaberta. Ela estava indo fazer uma surpresa, levando o café que ele tanto gostava. Mas a surpresa foi dela.
As vozes. A risada de Clara, a assistente dele. Os sons inconfundíveis de intimidade.
Ela não precisou ver os rostos, mas viu. Viu Ricardo, o homem que prometeu o mundo a ela, com Clara sobre a sua mesa de mogno. A mesma mesa onde ele assinou os contratos que a fizeram, publicamente, a mulher mais sortuda do mundo. Clara a viu no vão da porta. Não houve pânico no rosto dela. Apenas um sorriso lento, vitorioso, antes de se inclinar e sussurrar algo no ouvido de Ricardo.
Esse era o seu crime. A traição que a sentenciou a essa sala cinzenta.
Luana pegou a caneta. A ponta pairou sobre a linha de assinatura por um segundo. A imagem de Ricardo, o seu Ricardo de dez anos, o jovem apaixonado que jurou amá-la para sempre, tentou lutar contra a imagem do traidor na sala de reuniões. Mas a memória recente era mais forte, mais brutal.
Ela pressionou a caneta contra o papel. O som da tinta arranhando a fibra foi o único ruído na sala. Um traço firme. Luana. O último ato da mulher que um dia existiu.
"Está feito," ela disse, empurrando o papel para o Agente Silva.
Ela se levantou, sentindo uma estranha leveza, como se um peso que ela carregava desde o orfanato tivesse finalmente sido removido. A busca por amor, por segurança, havia terminado da forma mais trágica possível. Agora, só restava o recomeço. Do zero absoluto.
Ao sair do prédio do governo, o ar da cidade a atingiu como um golpe. Em um outdoor digital gigantesco, o rosto sorridente de Ricardo preenchia o espaço. A legenda piscava em letras douradas: "Luana, meu amor, meu império. O mundo será nosso. Esta noite."
A promessa pública dele era uma piada de mau gosto.
Duas mulheres passaram por ela, olhando para o telão com admiração.
"Nossa, você viu? Ele é tão apaixonado," disse uma.
"Que sorte a dela! Um homem desses não existe mais. Dez anos de perseguição, um império em nome dela... é um verdadeiro conto de fadas," respondeu a outra.
Luana baixou a cabeça, puxando o capuz do moletom para cobrir o rosto. O conto de fadas havia se tornado um pesadelo. E ela era a única que sabia a verdade. Ela continuou andando, sem olhar para trás, cada passo a levando para mais longe de Ricardo e para mais perto de uma identidade que ela ainda não conhecia. A Amazônia a esperava. Um nome novo, uma vida nova. Sem amor, sem Ricardo. Apenas sobrevivência.
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