
Império de Mentiras, Amor Destruído
Capítulo 3
A memória era um veneno doce. Luana se lembrava do início, dez anos atrás. Ricardo não era o magnata que era hoje. Ele era apenas um jovem ambicioso com um brilho nos olhos e um plano.
Ele a encontrou no pequeno café onde ela trabalhava para pagar os estudos. Ela, uma garota recém-saída do orfanato, desconfiada do mundo, vendo gentileza como uma armadilha.
"Eu vou construir um império para você, Luana," ele disse, segurando as mãos dela sobre a mesa de fórmica manchada. "Cada prédio, cada show, cada negócio terá seu nome. Para que você nunca mais se sinta sozinha ou desprotegida. Para que o mundo inteiro saiba o quanto eu te amo."
Ela riu na época, achando que era o delírio de um sonhador. Mas ele cumpriu. O Luana Entertainment Group cresceu de uma pequena produtora para um conglomerado monstruoso. E ele a manteve ao seu lado, tratando-a como uma rainha, isolando-a em uma torre de ouro e promessas.
Luana, imersa naquela felicidade fabricada, começou a acreditar. Ela sonhava com o casamento, com a casa cheia de risadas de crianças, com uma velhice ao lado do homem que a adorava. A segurança que ela nunca teve, o amor que ela sempre buscou, pareciam finalmente ao seu alcance. A noite do pedido de casamento seria a coroação de tudo isso.
Então veio o dia. O dia em que o castelo de cartas desmoronou.
Ela decidiu ir ao escritório dele sem avisar. O coração dela batia forte com a excitação boba de uma surpresa. Ela segurava uma pequena caixa com o relógio que ele queria há meses, um presente dela para ele, antes do grande presente dele para ela.
Quando chegou ao andar da presidência, a assistente dele, Clara, a interceptou no corredor. Clara sempre a olhou com uma hostilidade velada, disfarçada de eficiência profissional.
"Luana! Que surpresa boa," disse Clara, com um sorriso que não alcançava os olhos. "Ricardo está numa ligação muito importante. Acho melhor você esperar aqui."
"Eu só queria deixar isso na mesa dele. Não vou demorar," Luana respondeu, segurando a caixa.
Clara hesitou por um instante, um cálculo rápido passando por seu olhar.
"Tudo bem, mas seja rápida. A porta está só encostada," ela disse, virando-se para sua própria mesa, mas não antes de Luana notar o movimento sutil que garantiu que a porta do escritório de Ricardo ficasse, de fato, com uma fresta.
Uma fresta para o inferno.
Luana se aproximou em silêncio. Ela ouviu um som, uma risada baixa, feminina. Não era uma ligação. Ela empurrou a porta suavemente.
A cena a paralisou. Ricardo estava sentado em sua cadeira de couro, a camisa desabotoada. E Clara estava no colo dele, as mãos dela em seu cabelo, o corpo dela se movendo contra o dele de uma forma que não deixava dúvidas. Eles não a viram.
O ar foi roubado de seus pulmões. O relógio em suas mãos pareceu pesar uma tonelada.
Foi então que Clara, como se sentisse sua presença, virou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Luana por cima do ombro de Ricardo. Um choque de triunfo, puro e cruel, brilhou no olhar de Clara. Ela se inclinou para frente, mordendo levemente o lóbulo da orelha de Ricardo, e sussurrou alto o suficiente para que Luana ouvisse:
"Ricardo, querido... Acho que temos uma visita."
Ricardo se virou, o pânico estampado em seu rosto. Ele empurrou Clara, mas o gesto foi tardio, patético.
"Luana! Não é o que você está pensando!" ele gritou, a voz rouca. "Clara, o que você está fazendo? Saia daqui agora!"
A repreensão dele era uma farsa. As mãos dele ainda estavam na cintura dela segundos antes. O corpo dele tinha respondido ao dela. A traição estava ali, nua e crua, no meio do escritório que levava o nome dela.
Luana não disse uma palavra. Ela não chorou. Não gritou. Um frio avassalador tomou conta dela, congelando cada célula do seu corpo. O amor, a esperança, os dez anos de dedicação... tudo se transformou em cinzas naquele exato momento.
Ela apenas se virou e foi embora, deixando a caixa com o relógio no chão do corredor.
Naquele instante, a decisão foi forjada. Ricardo não teria a chance de se explicar, de mentir, de manipulá-la de volta para a gaiola dourada. Ela não iria quebrar. Ela iria desaparecer. Ele a matou naquele dia. E um fantasma não precisa de um império.
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