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Capa do romance Homens Possessivos

Homens Possessivos

Após um evento traumático, chego em casa no mais absoluto silêncio para não alertar minha irmã. Oculta pela escuridão, rastejo escada acima suportando uma dor agonizante a cada movimento. O medo de encarar meus próprios ferimentos me impede de acender as luzes principais. Ao alcançar o refúgio do meu quarto, tateio as paredes em busca de apoio até encontrar minha mesa de estudos. Com esforço, estendo a mão para a luminária, prestes a revelar minha real situação.
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Capítulo 3

Maria Eduarda

Há dois anos eu não sei o que é ter paz. E aqui estou, me olhando no espelho do banheiro, tentando esquecer o meu pior pesadelo. Desde aquela noite eu não comemoro mais o meu aniversário. Não tenho razão para festejar. Como eu gostaria de ter morrido! É errado eu ainda ter esses tipos de pensamentos? É errado eu ainda me sentir suja? São tantos sentimentos contraditórios que eu ando sentindo!

No início, eu não conseguia dormir devido aos acontecimentos. Eu era sedada e também era restringida no leito do hospital. A dor que eu sinto na alma é tão grande, que acabei tirando o soro da veia que estava me hidratando e machucando-me mais ainda, só via o sangue saindo novamente, e sorria entre as lágrimas que já estavam escorrendo.

Para mim era tão bom, porque a morte viria e me levaria do meu sofrimento. De uma coisa eu tinha certeza: eu não saberia como viver com aquilo. Só que eu não contava que as enfermeiras fossem entrar tão rápido e gritando. E apaguei novamente.

E aqui estou eu novamente posicionada no mesmo lugar, onde eu tentei me matar da primeira vez. E mais uma vez não funcionou. Minha irmã foi avisada que eu tinha tentado novamente me matar. Agora ela me olha chocada.

— O que você fez, Duda? — ela me questiona, com lágrimas nos olhos.

— Você não entende! — sussurro.

— Então me faça entender! — ela diz, séria. Tento me mexer, e não consigo. Vendo o que eu estava fazendo, ela explica: — Eles tiveram que te amarrar.

— Deu para perceber — resmungo.

— Então, vai ou não me fazer entender o que está acontecendo com você?

— Há quanto tempo eu estou aqui?

— Há quase dois dias. Você se lembra daquela noite?

— Sim… — sussurro.

— Então é verdade? — ela me questiona, e sinto meu sangue fugir completamente do meu rosto.

— Sim… — volto a sussurrar, com vergonha de mim mesma.

— Duda, você não quer saber o que aconteceu com você?

— Sinceramente, acho que você não precisa me lembrar do que aconteceu exatamente comigo! — sem querer, sou grossa, e logo estou me desculpando: — Me perdoa, não queria ser grosseira.

— Eu sei que não! Você não sabe o que eu senti quando te vi no chão do banheiro toda ensanguentada.

Minha irmã linda… Ela não tinha ideia de como eu a admirava, me criou desde pequena, a nossa diferença é de dez anos.

— Me perdoa! — peço novamente, e ela me abraça, colocando a cabeça em meu colo. Começa a chorar. Muito.

— Eu pensei que você estava morta! — ela sussurra.

— Era o que eu queria naquele momento — confesso, sentindo as lágrimas dela em minha barriga.

— Não, eu não quero que você atente mais contra a sua vida! — ela diz, brava, e se levanta. Assim pude reparar em como ela estava abatida.

— Eu preciso morrer!

Ela me olha chocada.

— Nunca mais fale uma merda dessas!

— Você acha que é fácil?

— Eu imagino que não deva ser fácil.

— Não, você não imagina! — praticamente grito, e tento me controlar: — No dia do meu aniversário eu fui estuprada!

— Duda, fica calma — ela pede, ao ver como estava agitada.

— Eu não posso ficar calma! — olho firme para ela. — Além de ter sido violentada, posso estar grávida e ainda correr o risco de ter pegado uma DST.

— Eles fizeram o teste de gravidez e DST.

— E qual foi o resultado? — pergunto, com medo.

— O resultado mostra que você, Senhorita Sanches, não está grávida e também não contraiu o vírus — ouço uma voz de um homem e fico tentando saber quem é. Não preciso muito, pelo jeito da minha irmã, que ficou muito vermelha.

— Oi, doutor Leão — minha irmã diz, ainda corada.

Ele abre um sorriso que acho sensual e nos cumprimenta.

— Então eu não estou grávida?

— Não senhorita! Mas isso não significa que a senhorita não tenha que tomar a pílula do dia seguinte e muito menos o coquetel, pois vai tomar como prevenção.

— Mas o senhor não disse que eu não estou grávida e também não contraí DST? Por que eu tenho que tomar? — questiono, já ficando nervosa.

— Senhorita, como eu estava dizendo, a senhorita tem que tomar, e vamos fazer mais exames. Você também vai ser acompanhada por um psicólogo.

— Eu não preciso de nenhum psicólogo — respondo, grossa, e a minha irmã me olha feio.

— Ela vai, sim, doutor Leão!

— Ótimo, a enfermeira já vai trazer as medicações, e vamos fazer logo mais exames.

— Eu estou bem! — resmungo.

— A senhorita passou por um grande trauma, e sei que está abalada, mas precisa fazer mais exames e também começar a tomar a medicação, tudo bem? — aceno a cabeça em concordância. Não demora muito, ele sai, e vem uma enfermeira, e sou tirada da restrição. Foi assim que comecei a minha longa jornada para esquecer o meu pesadelo.

— Dudaaaaaa! — ouço a minha irmã me chamar e sou tirada do passado. Logo desço as escadas e vejo-a toda arrumada.

— Aonde você vai? — pergunto, curiosa.

— Eu vou trabalhar, esqueceu? — ela brinca. — E a senhorita tem que ir para a aula, e não se esqueça de vir logo para casa.

Ela me dá um beijo e sai correndo como louca. Minha irmã ama e ao mesmo tempo odeia o trabalho como secretária do Senhor Leon Vitorino. Sinceramente, eu ainda não o conheci, e nem quero. Minha irmã diz que o homem é um gato e que eu deveria arrumar um namorado.

Decidi que nunca vou me relacionar com ninguém. O medo ainda bate em mim quando algum homem se aproxima. Mesmo sabendo que não pode me fazer nada de mal, eu ainda fico com um pé atrás.

Pego a mochila e sigo para o curso, pedindo mais uma vez a Deus para me fazer esquecer de tudo que me aconteceu. Será que é pedir muito? Solto um longo suspiro triste.

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