
Herdanças do amor
Capítulo 2
O céu estava claro naquela tarde, mas nem o sol conseguia iluminar o ânimo sombrio dentro do escritório principal da Villaseñor & Associados. Das janelas panorâmicas no último andar do arranha-céu, Isabela Villaseñor observava a cidade em constante movimento, com uma xícara de café frio na mão. Sua mente não estava na paisagem, mas nos números que acabara de receber.
- Isso não faz sentido - disse em voz baixa, mais para si mesma do que para quem estava presente.
- Faz todo sentido, Isa. Estamos à beira do abismo. - Santiago, seu melhor amigo e também o diretor financeiro da empresa, revisava os papéis sobre a mesa com a testa franzida.
- Como isso aconteceu tão rápido? - perguntou ela, deixando a xícara sobre a mesa com um som seco.
Santiago levantou o olhar, com uma mistura de compaixão e preocupação no rosto.
- Não foi rápido. Foi um processo lento, como um veneno. O que acontece é que ninguém quis ver isso a tempo.
Isabela suspirou. A voz de seu amigo era uma constante nos momentos difíceis, mas dessa vez as palavras não traziam consolo. Os números não mentiam: a receita da empresa havia caído drasticamente no último ano, enquanto os custos continuavam a disparar. Más decisões em investimentos internacionais, o fracasso de um ambicioso projeto imobiliário e uma série de escândalos menores haviam minado a confiança dos investidores.
- Quão grave é? - perguntou finalmente, embora já soubesse a resposta.
Santiago não precisou consultar os papéis para responder.
- Grave. Se não encontrarmos uma injeção de capital logo, não vamos chegar ao fim do ano.
Isabela sentiu um nó no estômago. Ela havia passado a vida toda se preparando para liderar a empresa da família. Seu avô sempre disse que ela tinha a mente mais afiada de todos os Villaseñor, e desde jovem ela havia assumido as rédeas das decisões estratégicas mais importantes. Mas agora, diante do colapso iminente, se perguntava se havia falhado.
- E meu pai? - perguntou, embora a pergunta tivesse um tom ácido. Sabia que não podia contar com ele para resolver isso.
- Mal soube, me pediu para "fazer o que fosse necessário". Traduzido: ele espera que você resolva, como sempre.
Isabela apertou os dentes. Seu pai, embora fosse tecnicamente o diretor-geral, havia sido pouco mais que um símbolo por anos. A verdadeira responsabilidade recaía sobre ela e a equipe que ela havia formado.
- Marque uma reunião com os investidores amanhã. Preciso saber quais opções temos.
Santiago assentiu, embora sua expressão fosse sombria.
- Isa... se os bancos nos fecharem as portas, não teremos opções.
Ela o olhou com determinação.
- Sempre há uma opção.
A vários quilômetros de distância, no moderno prédio que abrigava os escritórios da Altamira Global, Javier Altamira terminava de ler o relatório trimestral em seu tablet. Ao contrário de Isabela, ele não mostrava nem um vestígio de preocupação. Com um sorriso despreocupado, deixou o dispositivo sobre a mesa e esticou os braços como se acabasse de acordar de uma soneca.
- Então, o que você quer me dizer, Adrián? - perguntou, virando-se para seu sócio e amigo de infância, que estava sentado à sua frente com uma expressão muito menos relaxada.
- Que estamos ferrados, Javier. Como você pode estar tão tranquilo?
Javier soltou uma gargalhada, como se a situação não fosse tão grave quanto parecia.
- Porque não adianta entrar em pânico. Além disso, sempre saímos dessas.
Adrián olhou para ele como se tivesse perdido a cabeça.
- Desta vez não é tão fácil. As exportações estão paradas, os contratos maiores estão sendo renegociados e os acionistas estão furiosos. Precisamos cortar gastos, demitir pessoas...
Javier levantou uma mão, interrompendo-o.
- Demitir pessoas? Você acha que isso vai resolver alguma coisa?
- Não vai resolver tudo, mas é um começo. Se continuarmos assim, vamos ser obrigados a vender ativos.
O sorriso de Javier desapareceu ligeiramente, embora ele ainda se esforçasse para manter sua atitude relaxada. Sabia que Adrián estava certo. Os Altamira haviam construído uma reputação de audaciosos e visionários, mas nos últimos anos, suas decisões tinham sido mais arriscadas do que nunca. As apostas tinham dado frutos por um tempo, mas agora as perdas superavam os ganhos.
- Vou falar com minha mãe - disse finalmente, levantando-se da cadeira.
Adrián assentiu, embora não parecesse totalmente convencido.
- Faça isso logo, Javier. Não podemos nos dar ao luxo de esperar.
Naquela noite, enquanto as luzes da cidade piscavam como estrelas terrestres, dois jantares familiares aconteceram em paralelo.
Na mansão Villaseñor, a atmosfera estava carregada de tensão. Isabela havia reunido sua família imediata na sala de jantar principal, um espaço decorado com opulência barroca que agora parecia sufocante.
- O que significa isso de que estamos à beira da falência? - perguntou Andrés, o irmão mais novo de Isabela, enquanto brincava com um talher de prata.
- Significa exatamente o que você está ouvindo - respondeu ela, com um tom cortante. - Precisamos tomar decisões drásticas se quisermos evitar isso.
- E o que você sugere? Vender a mansão? - disse Andrés com sarcasmo.
- Se for necessário, sim. - A resposta de Isabela foi tão fria quanto inesperada, e todos na mesa a olharam surpresos.
- Isso não pode ser! - exclamou seu pai, batendo na mesa. - Esta casa é o nosso legado.
- Um legado que não vale nada se estivermos na rua - replicou ela, sem perder a calma. - Se não estivermos dispostos a sacrificar algo, vamos perder tudo.
Enquanto isso, no penthouse dos Altamira, a conversa era igualmente acalorada.
- Isso é inaceitável, Javier - disse Emilia Altamira, sentada na ponta da mesa de vidro. - Trabalhei a vida inteira para construir esta empresa, e não vou permitir que ela colapse agora.
- E o que você sugere, mãe? - perguntou Javier, deixando sua taça de vinho sobre a mesa com um gesto despreocupado. - Que eu roube um banco?
- Não seja ridículo - respondeu Emilia, fulminando-o com o olhar. - Mas precisamos de aliados.
- Aliados? - repetiu Javier, levantando uma sobrancelha. - Quem iria se associar conosco neste momento?
A resposta de Emilia veio com uma calma calculada, como se já tivesse pensado em cada detalhe.
- Os Villaseñor.
Javier soltou uma gargalhada que ecoou por toda a sala.
- Os Villaseñor? Aqueles que tentaram nos esmagar a cada oportunidade?
- Exatamente eles - disse Emilia, sem se mover. - Estão na mesma situação que nós, embora tentem disfarçar. Se unirmos forças, ambos podemos sobreviver.
Javier balançou a cabeça, ainda incrédulo.
- Aquela família está cheia de arrogantes. Especialmente Isabela.
- Deixe de pensar com o orgulho - interrompeu Emilia. - Isso não se trata de quem ganha ou perde. Trata-se de sobreviver.
Naquela mesma noite, enquanto a cidade dormia, Isabela e Javier, sem saber, compartilharam o mesmo pensamento: "Isso não pode continuar assim."
A ruína iminente de ambas as famílias não era um boato, mas uma realidade que cada um enfrentava à sua maneira. Mas enquanto o orgulho e as diferenças continuavam sendo barreiras intransponíveis, uma reviravolta inesperada estava prestes a reuni-los em uma batalha comum que mudaria suas vidas para sempre.
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