
Gritos no Vazio da Alma
Capítulo 2
"O vidente disse que estas crianças são amaldiçoadas" , a voz de Mateus era fria, sem qualquer traço da paixão que um dia nos uniu na escola de culinária.
Ele segurava meu braço com força, seus dedos cravados em minha pele.
"Elas trarão desgraça para nossa família, Sofia. Você precisa abortar."
Eu olhei para ele, para o homem com quem sonhei em abrir uma confeitaria, o chef promissor cujo sorriso um dia aqueceu minha alma.
Agora, seu rosto era uma máscara de gelo, seus olhos manipulados pelo medo e pela ambição de sua mãe.
"Não, Mateus, por favor" , eu supliquei, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "São nossos filhos, nossos gêmeos."
Meus soluços ecoavam no quarto silencioso, mas minhas palavras não o alcançavam.
Atrás dele, sua mãe, Helena, observava com um sorriso mal disfarçado.
Seu olhar era de puro triunfo. Ela, que sempre me odiou, que via meu talento na confeitaria como uma ameaça, finalmente tinha o que queria.
Ela me via de joelhos, destruída.
"É para o seu próprio bem, querida" , disse Helena, sua voz soando falsamente doce. "Estamos apenas protegendo a família."
Mateus não disse mais nada, ele apenas me arrastou para fora de casa, me empurrando para o carro.
A viagem até a clínica clandestina foi um borrão de terror e desespero.
Eu implorei, chorei, lembrei-o de nossos sonhos, do nosso amor, dos nomes que tínhamos escolhido para os bebês.
Ele permaneceu em silêncio, seu rosto virado para a janela, como se eu fosse uma estranha.
A dor do procedimento foi insuportável, mas nada se comparava à dor no meu coração, um vazio que se abriu onde meus filhos deveriam estar.
Quando tudo acabou, ele me levou de volta para casa, me jogando na cama como um saco de batatas.
Helena entrou no quarto logo depois, não com um copo de água ou uma palavra de conforto, mas com uma tigela de um líquido escuro e fedorento.
"Beba isso" , ela ordenou. "É uma sopa de purificação, para limpar a maldição que você trouxe para esta casa."
Eu me encolhi, o cheiro nauseante me revirando o estômago.
"Não vou beber isso" , eu sussurrei, minha voz fraca.
Helena riu, um som cruel.
"Ah, você vai sim."
Ela fez um sinal para Mateus, que se aproximou e segurou minha cabeça para trás.
Ele abriu minha boca à força enquanto Helena despejava o líquido amargo pela minha garganta.
Eu engasguei, tossi, o gosto horrível queimando meu esôfago.
Eles me observaram sofrer, seus rostos impassíveis.
Quando terminaram, saíram do quarto, trancando a porta atrás de si.
Fiquei sozinha na escuridão, meu corpo doendo, meu espírito quebrado.
A dor e a febre me consumiram.
Em meu delírio, eu vi dois pequenos rostos flutuando na penumbra.
Meus bebês.
Eles sorriam para mim, estendendo suas mãozinhas.
Eu tentei alcançá-los, chamando seus nomes em um sussurro.
"Mamãe está aqui", eu chorei.
Mas eles se afastaram, suas imagens se dissolvendo na escuridão, me deixando sozinha com o eco da minha dor.
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