
Gritos no Vazio da Alma
Capítulo 3
Passei dias naquele quarto, um fantasma em minha própria casa.
A febre ia e vinha, e meu corpo ainda sangrava, um lembrete constante da minha perda.
Mateus mal entrava no quarto, e quando o fazia, seu rosto era uma máscara de repulsa.
Em uma tarde particularmente sombria, ele invadiu o quarto, seu rosto contorcido de raiva.
Ele jogou um travesseiro em mim.
"De quem são eles, Sofia?" ele gritou, sua voz cheia de veneno.
Eu o encarei, confusa e atordoada.
"Do que você está falando?"
"Os bebês!" ele rosnou. "Eles não podiam ser meus. O vidente disse que eram amaldiçoados. Você me traiu, não foi? Você dormiu com outro homem!"
O ar saiu dos meus pulmões.
A acusação era tão absurda, tão cruel, que por um momento não consegui respirar.
Este era o homem que eu amava, o pai dos filhos que ele mesmo me forçou a matar.
E agora ele me acusava de traição.
"Você enlouqueceu?" eu gritei, uma onda de raiva me dando uma força que eu não sabia que tinha. "Como você ousa? Depois de tudo que você me fez passar?"
Levantei-me da cama, minhas pernas trêmulas, mas minha determinação era de ferro.
"Você destruiu nossa família por causa de um charlatão e da sua mãe invejosa, e agora você me acusa disso?"
Eu tentei empurrá-lo para fora do quarto, mas ele era muito mais forte.
Ele agarrou meus pulsos, me sacudindo com força.
"Não minta para mim, sua vagabunda!"
Naquele momento, a porta se abriu.
Helena entrou, um sorriso de falsa preocupação no rosto.
Ao lado dela, havia uma mulher mais jovem, com um vestido caro e um olhar arrogante.
Eu a reconheci vagamente. Laura, uma antiga rival da escola de culinária, alguém que sempre me invejou.
E ela estava grávida.
Sua barriga estava proeminente, uma celebração de vida que era uma facada no meu luto.
"Mateus, querido, não se estresse" , disse Helena, passando a mão pelo braço do filho. "Olhe, Laura veio nos visitar. Ela tem ótimas notícias."
Laura sorriu, colocando a mão protetoramente sobre a barriga.
"Eu estou grávida, Mateus. E o filho é seu."
O mundo ao meu redor girou.
A traição era dupla, tripla, um monstro de mil cabeças.
A dor no meu coração era tão intensa que se tornou física.
Senti uma pontada aguda no peito, e a escuridão me engoliu.
Quando acordei, não estava mais no meu quarto.
Eu estava na sala de estar, ajoelhada em algo duro e pontiagudo.
Olhei para baixo e vi um tapete de sisal grosso e áspero, com pedaços de cascalho e espinhos entrelaçados. Cada movimento enviava ondas de dor pelas minhas pernas já feridas.
Helena e Laura estavam sentadas no sofá, tomando chá, me observando como se eu fosse um espetáculo.
Mateus não estava em lugar nenhum.
"Isso é para você aprender a ter humildade" , disse Helena, tomando um gole de seu chá. "Uma mulher adúltera e amaldiçoada precisa ser purificada."
Laura riu.
Ela se levantou e caminhou até mim.
Ela estava usando um dos aventais de chef de Mateus, um que eu mesma havia bordado para ele.
Ela o ajustou sobre a barriga, um gesto deliberado de provocação.
"Sabe, Sofia, Mateus sempre disse que eu entendo muito melhor as ambições dele do que você" , ela sussurrou, perto o suficiente para que só eu pudesse ouvir. "Ele precisa de uma mulher que o eleve, não de uma confeiteira de bairro que o ofusca."
Ela sorriu, um sorriso vitorioso.
"Agora, seja uma boa menina e reze pelo seu perdão."
Ela se virou e voltou para o sofá, deixando-me ajoelhada na dor e na humilhação, o símbolo do meu amor perdido agora usado como uma arma contra mim.
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