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Capa do romance Fugindo do Passado

Fugindo do Passado

Renan enfrenta uma realidade doméstica cruel, contando apenas com o apoio de seu amigo Mark para lidar com a escassez de recursos básicos. No entanto, o equilíbrio entre eles é abalado quando Mark inicia um relacionamento com Rebeka, cujos problemas pessoais são profundos. Encurralado por segredos perigosos e situações que fogem de seu controle, Renan conclui que sua única saída para sobreviver emocionalmente é abandonar sua vida atual e fugir.
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Capítulo 2

Mark estava boiando em cima de uma esteira flutuante na piscina, com óculos escuros e um copo de uma limonada gelada na mão. Eu estava sentado na borda, com os pés dentro da água, apenas aproveitando o sol.

Felizmente, ser momentaneamente expulso de casa em um domingo assim era quase uma sorte. Os pais de Mark sempre saiam e a casa ficava toda para nós, então eu não precisava lidar com os olhares de preocupação e pena de Lavinia.

- Eu chamei a Rebeka para vir para cá. Você não se importa, não é? – Mark ergueu os óculos.

- Não. – respondi com sinceridade.

Ela demorou para chegar, e quando Mark foi abrir a porta escutei os dois conversando em voz baixa.

- O que deu em você para dizer quem era para minha mãe? – ela reclamou, visivelmente irritada.

- O que eu deveria dizer? – ele retrucou, confuso – Se você tivesse um celular...

- Um dia. – Rebeka cortou – Quando eu juntar dinheiro suficiente.

- Demorou por isso? – as vozes estavam ficando mais claras, eles estavam logo atrás de mim.

- Óbvio. – ela suspirou – Oi, Renan.

- Oi. – respondi sem me virar.

Mark voltou para a esteira, e Rebeka sentou logo ao meu lado.

- Problemas em casa também? – perguntou numa voz baixa.

- Meu pai me chutou para fora. – sussurrei também – E você?

- Minha mãe está ficando louca por causa do namorado novo. – sua voz era controladamente irritada –

Um completo babaca, o peguei tentando me espiar no banheiro.

Rebeka jogou o cabelo castanho para trás, depois tirou a camiseta e ficou com a parte de cima de um biquíni rosa meio fluorescente.

- Pode passar o protetor nas minhas costas? – perguntou já se virando, passando a embalagem para as minhas mãos.

- Claro. – concordei um pouco preocupado.

Enquanto eu espalhava o creme nas costas dela, olhei de relance para Mark, mas ele não parecia se incomodar com o que estávamos fazendo. Não dava para ter certeza por causa dos óculos escuros, mas ele estava virado na nossa direção então não havia como não ver.

- Obrigada, Renan. – ela se endireitou novamente e começou a passar no restante do corpo – Não gosto muito de sol, mas não tem como negar uma piscina. Não acha?

- Claro. – balancei a cabeça afirmativamente.

- Você não fica vermelho com essa pele tão branca? – Rebeka apoiou o braço ao lado do meu, logo em cima da minha coxa.

Nosso contraste era grande. Sua pele era bronzeada e a minha tão branca que as veias se tornavam todas visíveis.

- Querem comer algo? – Mark nos interrompeu.

- Claro. – Rebeka logo ficou em pé, esquecendo que havia me feito uma pergunta.

Segui os dois para dentro da cozinha, onde Mark já estava colocando uma variedade imensa de comida em cima da mesa.

A garota era como eu, nunca negava uma oportunidade de comer, então por algum tempo apenas mastigamos tudo que foi possível. Eu sempre tentava parecer natural ao comer as coisas que nunca tive em casa, e podia perceber que ela fazia a mesma coisa.

- Você precisa trabalhar hoje? – Mark puxou assunto com Rebeka, apoiando a mão em sua perna.

- Preciso. – ela suspirou, ainda focada em mastigar.

- Onde você está agora? – perguntei verdadeiramente interessado.

- No quiosque de sorvete do shopping. – deu de ombros – Foi o melhor que consegui agora com o fim das aulas.

Eu também precisava me arranjar logo, pensei com desânimo. O fim do ensino médio marcava o início de uma longa jornada de trabalhos na minha família. Meu pai logo estaria exigindo que eu fizesse qualquer coisa que fosse para ter um dinheiro extra.

- Meu colega de trabalho está para sair. Se quiser posso indicar você. – Rebeka pareceu entender meu silêncio.

- Seria ótimo. – agradeci sinceramente.

Mark permaneceu em silêncio. Ele não precisava se preocupar com trabalho, no ano seguinte iniciaria alguma faculdade e continuaria sem se preocupar por mais alguns anos.

- Tenho que chegar logo lá. – ela olhou para o relógio – Posso tomar banho aqui?

- Claro que sim. – Mark sorriu, levantando-se.

Fiquei sozinho por alguns minutos, mas demorei para perceber que provavelmente os dois estavam tomando banho juntos. Fui para a piscina novamente quando me dei conta, e tentei aproveitar a água.

- E aí? – Mark apareceu alguns minutos depois, com o cabelo bagunçado e molhado – Quer tomar um banho também? Posso te emprestar uma roupa.

- Aceito o banho. – impulsionei meu corpo para fora da piscina – Mas posso colocar a mesma roupa, está limpa.

- Você é quem sabe.

O banheiro de Mark, que eu já achava incrível por ficar no seu quarto, era maior do que a sala da minha casa e o chuveiro tinha uma pressão invejável. Eu nunca recusava tomar um banho relaxante como aquele.

- Tem algo que queira fazer hoje? – Mark perguntou assim que sai do banheiro – É um domingo meio parado.

- Nada em mente. – respondi indo me sentar ao lado dele na cama.

- Vou pedir alguma coisa para a gente almoçar. – ele pegou o celular e teclou por um tempo.

Ficamos um tempo passando os canais da televisão dele, até que a comida chegasse, depois nos sentamos outra vez na cozinha. Eu estava sendo mais bem alimentado naquele dia do que provavelmente seria a semana toda em casa.

- Gosta da Rebeka? – perguntei cuidadosamente.

Eu estava curioso. Mark não era de ter segredos comigo e, no entanto, eu não fazia ideia de que os dois estavam tendo algum tipo de interação. Não que ele não a conhecesse, mas com certeza não eram próximos.

- Ainda é cedo para dizer. – ele deu de ombros outra vez.

Balancei a cabeça, como quem dizia entender.

- Eu a encontrei na festa da Sabrina, semana retrasada. – Mark prosseguiu – Aquela em que você não quis ir.

“Não querer” era uma expressão muito forte. Na noite em questão meu pai havia chegado completamente bêbado em casa e atirado um pedaço de madeira na minha direção. Eu só não queria ter que explicar os hematomas no rosto.

- Eu nunca tinha prestado muita atenção na Rebeka. – Mark sorriu, girando o garfo em seu prato – Mas aquele naquele dia, ela estava completamente incrível.

Balancei a cabeça outra vez, agora sabendo melhor do que ele falava. Rebeka sempre havia sido bonita, mesmo sem a produção a que ele se referia.

- Mas é só isso por enquanto. – concluiu despreocupadamente.

Me peguei pensando se Rebeka o via do mesmo modo, ou se ela estava realmente gostando dele.

Deslumbrada deveria estar, com a casa, com as coisas que ele podia proporcionar.

- Você também deveria ter um celular. – a mudança de assunto me pegou desprevenido.

- Você sabe que sem emprego não vai ter como. – respondi com desânimo. Nem com emprego eu poderia comprar, já que teria que deixar uma boa parte do salário para as contas da casa.

- Não. – Mark ficou em pé de repente – Eu preciso de um novo. Eu compro e você fica com esse.

Não era de se espantar. Ele sempre me dava de tudo, não apenas refeições. A própria roupa que eu estava usando naquele instante havia sido um presente.

Abri a boca para recusar, afinal um celular parecia um presente um pouco caro demais, mas Mark fez sinal para que eu me calasse e saiu em disparada para seu quarto. Logo em seguida ele estava trocado e com as chaves do carro na mão.

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