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Capa do romance Fugindo do Passado

Fugindo do Passado

Renan enfrenta uma realidade doméstica cruel, contando apenas com o apoio de seu amigo Mark para lidar com a escassez de recursos básicos. No entanto, o equilíbrio entre eles é abalado quando Mark inicia um relacionamento com Rebeka, cujos problemas pessoais são profundos. Encurralado por segredos perigosos e situações que fogem de seu controle, Renan conclui que sua única saída para sobreviver emocionalmente é abandonar sua vida atual e fugir.
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Capítulo 3

O shopping era um lugar onde eu me sentia mais à vontade, já que eu sempre podia ir para lá e não gastar nenhum dinheiro, mas entrar nas lojas para ver celulares era algo com que eu não estava habituado.

Mark pegou um modelo moderno, o qual eu não entendia metade das funcionalidades, e logo me passou o seu antigo com um número novo e só meu.

- Vamos pegar um sorvete e ver a Rebeka. – ele me guiou até o quiosque.

A garota estava em um momento calmo, encostada no balcão e sozinha. Provavelmente uma enorme quantidade de pessoas já havia passado por ela naquele horário, eu já havia visto a fila enorme que se formava no horário de almoço.

- Sério. É impossível fazer isso sozinha. Meu colega saiu hoje. – ela me disse assim que nos aproximamos

– Amanhã você vem comigo, já conversei com meu chefe.

Demorei um segundo para perceber que eu estava empregado.

- Muito obrigado! – exclamei, verdadeiramente agradecido pelo que ela havia feito.

- Vou ter que passar muito aqui para ver vocês dois. – Mark se inclinou para beijar levemente os lábios dela, sem qualquer preocupação, mas eu notei o olhar que Rebeka lançou ao redor.

Levamos algumas horas para voltar para a casa de Mark, já que ele aproveitou para comprar algumas roupas novas, e quando estacionamos na garagem, o carro dos pais dele já estava lá.

Mark fazia aniversário em agosto, então ele podia andar com o carro legalmente há quatro meses. Eu, que fazia aniversário no último dia do último mês, ainda não sabia como conseguiria sequer tirar minha habilitação, quanto mais ter um veículo só meu.

Lavinia veio animadamente ao nosso encontro, sem parecer nem reparar nas sacolas que o filho equilibrava nos braços.

- Você janta com a gente, não é, Renan?

- Claro. – concordei – Se quiserem.

- Claro que queremos. – Mark me cutucou.

- Mark, empreste umas roupas para ele. Nós vamos em um restaurante novo que abriu. – ela saiu quase saltitando.

Eu preferia comer em casa, mas depois de já ter concordado não havia uma forma de escapar, então fui até o quarto com Mark e deixei que ele colocasse uma sequencias de camisas na minha frente até decidir o que ficaria melhor em mim.

- A preta fica melhor. É isso. – decretou.

Coloquei as peças selecionadas e me olhei no espelho. Automaticamente eu ri.

- O que foi? – Mark estava vestindo uma camisa branca.

- Não sei, é estranho me ver assim. – virei de um lado para o outro, sentindo que nunca estivera tão bem vestido antes.

- Você está ótimo. – ele elogiou, sem se preocupar em me olhar outra vez.

- Vai levar Rebeka? – pensei em sentar na cama, mas desisti por medo de amassar o tecido da calça.

- Com meus pais? Jamais. – ele afastou a ideia com um tremor – Mamãe ficaria alucinada, pensando que ela é minha namorada. De toda forma, ela ainda deve estar trabalhando.

O restaurante não era tão chique quanto eu temia, mas todas as pessoas estavam muito bem arrumadas e a decoração era um pouco exagerada para os meus padrões. Fiquei com medo de esbarrar em algo e acabar quebrando.

Por um tempo nós apenas comemos - para minha alegria a comida era ótima -, mas depois Lavinia olhou para Mark com olhos brilhantes demais.

- Mark, sua irmã vai vir para casa. – anunciou com a voz alegre.

- Megan vai voltar? – Mark largou os talheres com um ruído.

Seu sorriso foi tão alegre quando os dos pais naquele momento, e eu me senti sobrando.

- Não é ótimo? – Eduardo estimulou o filho.

- Claro que é! Não sei nem por que ela quis estudar em um internato.

Eu lembrava vagamente de Megan. Um ano mais velha do que nós, loira e de olhos azuis – praticamente uma versão feminina de Mark.

- Bom, depois de passar um ano viajando, ela resolveu voltar para casa. – Eduardo prosseguiu o assunto.

- Isso é ótimo. – Mark repetiu, mais para si mesmo, enquanto pegava os talheres outra vez.

Sentados no banco de trás do carro, enquanto Lavinia e Eduardo cantarolavam uma música antiga, resolvi conversar sobre o assunto.

- Então, realmente animado com a volta de Megan?

- Claro que sim! Meus pais a visitaram há alguns meses, mas eu não a vejo há uns dois anos.

Balancei a cabeça, concordando, por mais que não entendesse. Eu tinha um irmão mais velho, Robert, mas não sabia nada dele há tanto tempo que já estava começando a acreditar que ele nem mesmo existia.

Pensei seriamente em voltar para casa, mas sabia que ainda era cedo demais e meu pai poderia discutir comigo outra vez, então quando me dei conta já estava sentado na cama de Mark usando as roupas de antes.

Meu amigo revirava seu guarda-roupa, tirando várias peças para encaixar as novas, e eu já havia percebido que me daria todas elas.

- Quer que eu coloque nessa sacola? – ele não esperou resposta para iniciar o movimento.

- Obrigado. – agradeci – De verdade.

- Que é isso? – ele deu um tapinha nas minhas costas – Somo como irmãos.

Mark era cuidadoso comigo. A primeira roupa que me deu, eu nunca me esqueci, foi um casaco vermelho após uma semana que havíamos nos conhecido. Eu estava com frio na escola, mesmo usando a melhor roupa de frio da época, e ele simplesmente tirou e me disse que era presente.

Ele era assim. Apesar de conseguir gastar altas quantias num tempo assustadoramente curto, também distribuía presentes sem precisar pensar. Seus pais não eram muito diferentes, e eu tinha certeza que Mark havia aprendido com eles.

- Talvez seja melhor eu ir para casa agora. – falei sem nenhum ânimo, sabendo que já era tarde o suficiente para meu pai ter despachado a namorada.

- Pode ficar, se quiser. Você sabe. – Mark disse, sentado ao meu lado com os olhos vidrados na televisão.

Eu adoraria ficar, claro. Mas meu pai seria terrível quando eu voltasse, dizendo que eu estava virando as costas para a família. Era tudo completamente sem cabimento, já que era ele mesmo que sempre me afastava, mas eu já tinha desistido de tentar entender.

Saí pela porta da frente, para poder me despedir e agradecer aos pais de Mark mais uma vez, e depois andei lentamente para casa.

Tudo estava silencioso quando entrei, mas os indícios do domingo festivo de meu pai estavam por todo lugar. A casa estava terrivelmente bagunçada e com os mais variados cheiros, então apenas pulei por cima da confusão e me escondi no quarto.

Quando meu pai acordou na manhã seguinte, mal humorado e com dor de cabeça, eu já havia limpado a maior parte da bagunça. Eu não fazia isso por ele, mas por mim mesmo, eu merecia ter um pouco de organização em meio ao caos das nossas vidas.

- Vou ir trabalhar, garoto. – sua voz estava rouca.

- Tudo bem. – procurei não o encarar – Só para avisar... Arrumei um emprego, começo hoje.

- Ótimo. – retrucou, já abrindo a porta da frente.

Respirei aliviado quando a porta se fechou. Era tudo tão mais simples quando meu pai não estava, mesmo que ficar em casa fizesse eu sentir muita falta de minha mãe.

Rebeka apareceu para irmos juntos trabalhar, já com uniforme que eu deveria usar em mãos, e sentou na sala enquanto eu me trocava no quarto.

- Aqui é mais familiar para mim. – sorriu de lado.

- É, posso entender. – fechei a porta do meu quarto antes de sairmos.

Fomos andando lado a lado. O shopping não ficava muito longe, seria uma caminhada de mais ou menos meia hora.

- Mark é mesmo o cara legal que parece? – ela me perguntou, de um jeito despreocupado demais para alguém que não estava desconfiada.

- É. – confirmei com lealdade – Nós nos conhecemos há muito tempo. Ele é ótimo.

- A casa é incrível, não é? Eu nunca tinha visto nada assim antes. – havia animação em sua voz – A primeira vez fiquei completamente perdida. É tudo tão lindo.

Não respondi nada. Eu podia entender o deslumbramento dela, eu mesmo já passara por aquilo no começo, mas fiquei me perguntando se esse era o maior atrativo de Mark em sua opinião.

- Você gosta dele? – perguntei depois de alguns minutos.

- Você conhece, Mark. – Rebeka deu uma risadinha – Ele é um cara legal, atencioso e... não sei, ele é uma pessoa especial.

Fiquei com a impressão de que a garota estava muito mais interessada nele do que ele nela, mas não disse nada.

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