
Fuga de Um Sonho Sombrio
Capítulo 2
O vento no topo do penhasco era forte, chicoteando os cabelos de Luna em seu rosto. Abaixo, as ondas batiam violentamente contra as rochas, um som furioso e constante. Era o lugar perfeito. Ninguém a encontraria aqui.
Ela olhou para o céu cinzento, sentindo o peso de uma exaustão que ia além do corpo. Era uma fadiga na alma.
Uma voz fria e mecânica soou em sua mente, sem emoção.
[Anfitriã, a localização atual tem uma taxa de sucesso de morte de 98,7%. É uma excelente escolha.]
Luna fechou os olhos. Finalmente.
Ela não pertencia a este mundo. Ela era apenas uma alma que foi puxada para o corpo de "Luna", a personagem principal de um romance de vingança doentio. Sua tarefa era simples, mas brutal: experimentar todo o sofrimento destinado à personagem original e, no final, morrer para poder voltar para casa.
No seu mundo real, ela estava em coma, deitada em uma cama de hospital. Sua família estava esperando por ela. A única maneira de acordar era completar essa missão estúpida.
[Condições para o retorno ao mundo original: completar a linha principal da história e morrer com sucesso. Se a morte for impedida por personagens-chave, a missão será considerada um fracasso temporário.]
Um fracasso temporário. Luna quase riu do termo. Cada dia que passava neste mundo era um inferno. Os homens que a cercavam, os supostos protagonistas masculinos da história, eram como gaiolas. Cada um com um tipo diferente de barra de ferro, mas todos com o mesmo propósito: aprisioná-la.
Arthur, o empresário possessivo que a via como um troféu brilhante para sua coleção.
Bernardo, o amigo de infância sensível, cujo amor não correspondido se transformou em uma devoção sufocante.
Carlos, seu mentor intelectual, cuja admiração se tornou uma obsessão em moldá-la à sua imagem.
E Daniel, o noivo ambicioso, que a via como um degrau na sua escalada social.
Eles a amavam, diziam. Mas o amor deles era um veneno. A "morte" dela deveria ser a libertação final. Para ela, e para eles.
"Eu estou cansada", ela sussurrou para o vento.
O cheiro do mar salgado encheu seus pulmões. Ela deu um passo à frente, sentindo as pequenas pedras se soltarem sob seus sapatos e caírem no abismo. O som demorou a chegar.
Seus nervos estavam tensos, uma mistura de medo e antecipação. O medo era apenas um instinto do corpo, uma reação biológica à aniquilação iminente. A antecipação era de sua alma, o desejo desesperado de finalmente ir para casa.
Ela pensou em sua mãe, no rosto dela. No cheiro da comida do seu pai. Coisas simples. Coisas reais.
O sistema falou novamente, seu tom tão monótono quanto o de um relatório meteorológico.
[Detectada alta concentração de adrenalina. Frequência cardíaca elevada. Anfitriã, por favor, execute a ação final.]
A ação final. Luna respirou fundo uma última vez. O ar frio queimou sua garganta. Ela inclinou o corpo para a frente, entregando-se à gravidade.
Por um segundo, houve a sensação de queda livre. O vento assobiava em seus ouvidos, um grito agudo. O mundo se tornou um borrão de cinza e azul. A liberdade estava a um instante de distância.
Seu corpo ficou leve. A consciência começou a se desfazer nas bordas, a escuridão se aproximando. Estava quase no fim.
Então, um som cortou o barulho do vento. Um grito.
"LUNA!"
A voz era profunda, cheia de pânico e fúria. Uma voz que ela conhecia bem demais.
Uma força bruta a atingiu, envolvendo sua cintura e a jogando para trás, para longe da borda. Ela caiu com força no chão rochoso, o impacto tirando o ar de seus pulmões.
A escuridão que a acolhia recuou, substituída pela dor aguda em suas costas e pela realidade dura e fria do chão.
A missão falhou.
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