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Capa do romance Fome e Amor: Uma Conexão Eterna

Fome e Amor: Uma Conexão Eterna

Desde os sete anos, convivo com a fome constante. Ao vencer um concurso de desenho, ganhei um frango assado, mas meus pais comeram tudo sozinhos, ignorando meu esforço e minha necessidade. A dor do desprezo foi pior que o estômago vazio. Naquela noite, após roubar vegetais da vizinha para me alimentar, fiz um juramento sob o luar: nunca mais dependeria de ninguém para saciar meus desejos ou garantir minha sobrevivência física e emocional.
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Capítulo 2

A fome era uma criatura viva dentro de mim, com garras e dentes, roendo meu estômago sem parar.

Eu tinha sete anos e já sabia que o mundo era dividido entre os que comiam e os que olhavam.

Na minha casa, a gente mais olhava do que comia.

Meu pai, Seu João, gastava o pouco dinheiro que aparecia no bar, apostando em cavalos que nunca ganhavam.

Minha mãe, Dona Sônia, passava o dia suspirando, como se o ar que ela soltava pudesse encher a barriga do meu irmão mais novo, Pedrinho.

Para Pedrinho, sempre tinha um pão guardado, um restinho de feijão, um ovo.

Para mim, tinha o cheiro da comida dos vizinhos.

Eu deitava na minha cama, um colchão fino no chão, e ficava imaginando o gosto das coisas. A professora na escola era um grande pão de ló, macia e doce. O diretor era um torresmo, duro e salgado.

A fome me deixava com a cabeça estranha.

Um dia, a professora anunciou um concurso de desenho. O prêmio para o primeiro lugar era uma caixa de lápis de cor e um frango assado da padaria da esquina.

Um frango assado.

A imagem daquele frango dourado, com a pele crocante e a carne soltando do osso, tomou conta de todos os meus pensamentos. Eu nunca tinha comido um frango assado inteiro. Às vezes, minha mãe cozinhava um pescoço ou um pé de galinha na sopa rala, e era uma festa.

Eu precisava daquele frango.

Passei três dias desenhando. Usei os tocos de lápis que achava no chão da sala de aula. Desenhei minha casa, mas com uma mesa farta no meio. Tinha pão, queijo, frutas e, no centro de tudo, um frango assado gigante, brilhando como o sol.

Eu ganhei.

A professora Ana me entregou a caixa de lápis e o vale para retirar o frango. Meu coração parecia que ia explodir. Eu segurei aquele papel como se fosse ouro.

Corri para a padaria, troquei o vale pelo frango. Ele veio numa embalagem de alumínio, quente, pesado. O cheiro me deixou tonta.

Eu não comi no caminho. Queria comer em casa, na mesa, como no meu desenho. Queria que minha mãe e meu pai vissem o que eu consegui.

Cheguei em casa correndo, gritando:

"Mãe! Pai! Olha o que eu ganhei!"

Mostrei o frango.

Minha mãe pegou a embalagem da minha mão. Seus olhos brilharam, mas não para mim.

"Pedrinho, vem comer! Sua irmã trouxe janta!"

Meu pai, que estava no sofá, levantou a cabeça.

"Até que enfim essa menina serviu para alguma coisa."

Eles sentaram à mesa. Minha mãe abriu o alumínio e o vapor perfumado encheu a cozinha. Ela partiu o frango. Deu a coxa mais gorda para o Pedrinho. Deu o outro lado para o meu pai. Deu o peito para ela mesma.

Eu fiquei de pé, esperando.

Eles comeram. Comeram tudo. Lamberam os dedos.

Não sobrou nada. Nem um pedacinho. Nem um ossinho para eu roer.

Eles nem olharam para mim.

A fome dentro de mim não roía mais, ela urrava. Um buraco se abriu no meu peito, um lugar frio onde o frango assado deveria estar.

Naquela noite, enquanto eles dormiam de barriga cheia, eu levantei. Fui até a cozinha e peguei a faca de pão.

Não era para machucar ninguém.

Fui até a casa da vizinha, Dona Elvira, que tinha uma pequena horta no quintal. A luz da lua iluminava as folhas verdes das couves e os pés de tomate.

Com a faca, cortei dois tomates bem vermelhos e uma espiga de milho.

Voltei para casa, em silêncio. Escondi meu tesouro debaixo da minha cama.

Sentei no chão do meu quarto escuro e dei a primeira mordida no tomate. O suco escorreu pelo meu queixo. Era ácido, doce e real. Era a comida mais deliciosa que eu já tinha provado.

Era o meu frango assado. E ninguém ia tirar de mim.

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