
Fome e Amor: Uma Conexão Eterna
Capítulo 3
No dia seguinte, na escola, a menina que sentava do meu lado, a Lúcia, abriu um pacote de bolacha recheada. O cheiro de chocolate invadiu o ar.
Eu engoli em seco. A fome, minha velha companheira, se remexeu no meu estômago. O tomate e o milho da noite anterior já eram uma memória distante.
Lúcia me viu olhando.
"Quer uma?"
Ela me estendeu uma bolacha. Tinha um recheio de chocolate grosso, quase preto.
Eu hesitei. Ninguém nunca me oferecia nada. Minha primeira reação foi desconfiar. Mas a fome venceu.
Peguei a bolacha. "Obrigada."
Comi devagar, aproveitando cada pedacinho. O açúcar derreteu na minha língua, uma sensação quase esquecida.
"Gostou?", ela perguntou, sorrindo.
"Sim. Muito."
No outro dia, ela trouxe um sanduíche de queijo e me deu um pedaço. No dia seguinte, uma maçã. E assim, uma amizade nasceu, alimentada por lanches compartilhados.
Eu me sentia estranha. Feliz por ter uma amiga, feliz por comer algo diferente todo dia. Mas também sentia uma pontada de vergonha. Eu não tinha nada para oferecer em troca.
Essa sensação começou a me incomodar. Eu não queria ser só a menina que recebia. Queria dar alguma coisa também.
Então, a ideia veio. Uma ideia perigosa.
O dinheiro da merenda.
A prefeitura dava um pequeno valor para cada aluno, que a gente usava para comprar um lanche na cantina da escola. Minha mãe sempre pegava o meu dinheiro. Dizia que era para "ajudar nas contas de casa", mas eu sabia que ia para o bolso do meu pai ou para comprar alguma coisa extra para o Pedrinho.
Eu nunca tinha visto a cor daquele dinheiro.
Mas eu sabia que a diretora entregava os envelopes com o dinheiro para os pais uma vez por mês, na reunião.
No dia da reunião, eu bolei um plano. Falei para minha mãe que a reunião tinha sido cancelada e remarcada para a semana seguinte. Ela acreditou, mal prestava atenção no que eu falava.
Fiquei escondida perto da sala da diretora. Vi os pais saindo, um por um, com os envelopes brancos na mão.
Quando minha mãe não apareceu, a secretária guardou o meu envelope numa gaveta.
Esperei a escola ficar vazia. A porta da secretaria estava só encostada. Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Entrei. A gaveta estava destrancada. Peguei o envelope com o meu nome: Maria.
Corri para o banheiro e abri. Dentro, algumas notas de dinheiro. Parecia uma fortuna.
No dia seguinte, antes da aula, fui até a padaria. Com o meu dinheiro, comprei o doce mais caro que tinha na vitrine. Um sonho, cheio de creme, coberto de açúcar.
Entreguei para a Lúcia na hora do recreio.
"Pra você."
Os olhos dela se arregalaram. "Nossa, Maria! Que lindo! Mas não precisava!"
"Eu quis te dar."
Ela comeu o sonho com gosto, e eu me senti a pessoa mais rica do mundo. A sensação de dar era ainda melhor que a de receber.
Mas a felicidade durou pouco.
Naquela noite, minha mãe chegou em casa furiosa.
"MARIA!"
O grito dela ecoou pela casa inteira. Ela segurava um cinto de couro na mão. O cinto do meu pai.
"A diretora me ligou. Onde está o dinheiro da merenda?"
Eu gelei.
"Eu não sei do que a senhora está falando."
"Não sabe? Mentirosa! Ladra! Roubando dentro da escola! Que vergonha!"
Ela me arrastou para o meio da sala. Meu pai e Pedrinho assistiam, como se fosse um programa de televisão.
A primeira cintada acertou minhas costas. Doeu. Uma dor aguda, queimando.
A segunda, nas pernas.
"Você vai aprender a não roubar! Vai aprender a não mentir!"
Eu caí no chão. Ela continuou me batendo. A fivela do cinto arranhou meu braço.
Mas algo estranho aconteceu.
Enquanto a dor explodia pelo meu corpo, um pensamento claro surgiu na minha cabeça.
Atrás do sofá, caído no chão, estava o papel que embrulhava o sonho que eu dei para a Lúcia. E no papel, ainda tinha um pouco do açúcar que caiu do doce.
Enquanto minha mãe gritava e o cinto estalava na minha pele, eu me arrastei, devagar, em direção ao sofá.
Fingindo me encolher de dor, estiquei a mão e passei o dedo no açúcar.
Levei o dedo à boca.
O gosto doce se espalhou na minha língua.
Naquele momento, em meio aos gritos e à dor, eu sorri.
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