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Capa do romance Foi por contrato

Foi por contrato

Isadora preza por sua liberdade e carreira, mas vê seu mundo ruir ao ser envolvida em um casamento por conveniência entre empresas. O noivo é Caio, um herdeiro pragmático que aceita a união apenas para salvar seu império da falência. Embora o desprezo mútuo dite o início dessa convivência forçada, a hostilidade cede espaço a uma atração genuína. Agora, entre cláusulas e pressões, eles precisam decidir se o amor pode florescer de um pacto meramente estratégico.
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Capítulo 2

Caio

Pontualmente às sete, o despertador toca. Não porque eu precise dele. Estou acordado há vinte minutos, como sempre. Nos últimos dias, além de acordar mais cedo, tenho passado noites difíceis.

Acordo antes da cidade, antes do barulho do trânsito, antes até da luz do sol atravessar as cortinas. Disciplina é liberdade. Isso meu avô costumava dizer. E, com o tempo, percebi que ele estava certo. A rotina não me aprisiona, me protege. Ter foco e saber como será o meu dia, me dá a sensação de controle.

Levanto, calço os chinelos e sigo direto para a cozinha. Preciso de um café forte, sem açúcar. Torradas integrais, uma fatia de queijo branco. Tudo cronometrado. Enquanto como, leio os jornais do dia no tablet. Política, economia, negócios. Nenhuma surpresa significativa. O país continua andando como um navio com o leme quebrado. E ainda assim, alguns aprendem a velejar.

Depois do café, me arrumo e sigo para o escritório. A vista do 24º andar revela São Paulo em todo o seu caos organizado. Carros engarrafados como veias congestionadas. Pessoas apressadas como um formigueiro em fervorosa. Negócios acontecendo em silêncio atrás de cada janela. E eu, no meio disso tudo, tentando manter nossas empresas que sangram discretamente.

A Vasques Empreendimentos já foi referência no setor hoteleiro no Brasil e no mundo. Hoje, mal conseguimos manter a fachada de grandeza. Dívidas se acumulam. A manutenção de alguns imóveis está atrasada. Fornecedores batem à porta com sorrisos falsos e olhos desconfiados. E, claro, a imprensa ainda acredita que estamos "renovando o portfólio" e fazendo um plano secreto para revolucionar tudo com um marketing diferenciado.

Hipocrisia de mercado. Eu a conheço bem.

Meu pai, por outro lado, prefere se iludir.

- Precisamos conversar - diz ele assim que entro na sala dele, no final da manhã. A voz está baixa, mas tem o tom grave de quem não está disposto a adiar o inevitável.

Fecho a porta atrás de mim e me sento em frente à sua mesa. O escritório é o mesmo há mais de trinta anos. Madeira escura, quadros antigos, uma aura de autoridade que já não combina com o momento. Deveríamos repaginar tudo, mas com qual dinheiro?

- Sobre o que exatamente? - pergunto.

Ele gira a cadeira lentamente, os olhos fixos na cidade lá fora. Está mais magro do que lembro. O terno parece grande demais nos ombros.

- A empresa. O que mais seria? - diz, por fim.

Cruzo os braços e fico quieto, esperando-o continuar.

- Os números não mentem, Caio. Estamos encolhendo.

- Eu sei. Estou acompanhando cada planilha.

- E o que pretende fazer?

- Cortar contratos, vender dois hotéis que não geram lucro, renegociar as dívidas. Já falei com três fundos interessados. Se conseguirmos um aporte até o fim do trimestre, ainda podemos reverter parte da imagem. Não gosto muito da ideia de fazer empréstimos com bancos, mas talvez seja o caso de repensar...

- Isso não é suficiente - ele me corta.

Sua voz carrega a frustração de quem já teve tudo sob controle e agora observa o império ruir.

- Eu sei, pai. Mas o que podemos fazer?

- Tem uma outra possibilidade - ele continua, devagar, como se ainda escolhesse as palavras. - Um investimento indireto, mas sólido.

- Seja claro, pai. O que está sugerindo?

Ele se levanta e caminha até o bar no canto da sala. Serve um copo de uísque, embora seja cedo demais para isso. Bebe um gole e me oferece, nego com um aceno. Ele se aproxima e me encara.

- Os Monteiro têm capital de sobra. E influência.

Sinto o corpo enrijecer com o rumo da conversa.

- Que tipo de negócio você está propondo?

Ele dá um meio sorriso. Cínico. Cansado. Confuso.

- Um acordo. União entre famílias. Os Monteiro têm uma filha em idade de casar. Você é o herdeiro da Vasques. É o tipo de aliança que dá manchete de jornal e segurança nos bastidores.

Fico em silêncio por alguns segundos. Não porque estou considerando a ideia. Mas porque tento entender se ele realmente acredita no que está dizendo.

- Você está sugerindo que eu me case para salvar a empresa?

- Estou sugerindo que você pense como um homem de negócios. Um casamento estratégico não é novidade. Não é sobre amor. É sobre sobrevivência.

- Eu não preciso de uma esposa. Preciso de investidores.

- Você precisa de estabilidade, fala de imagem, mas que eu me lembre todos falam sobre você ser distante e até sem sentimentos. E uma aliança com os Monteiro garante exatamente isso, uma melhora de imagem. - Respira fundo. - Sabia que muitos investidores gostam de colaborar com pessoas sérias, com famílias e imagem inabalada?

Bato a mão sobre a mesa com mais força do que pretendia.

- Eu não sou moeda de troca.

- Não é troca, Caio. É estratégia. Você sempre foi o mais racional da família. Pense com a cabeça. Esse casamento pode ser o passo mais inteligente que você já deu.

Me levanto e caminho pelo espaço, inconformado. Passo a mão pelos cabelos, tentando conter a irritação.

- Eu não vou casar com uma desconhecida só porque você não soube administrar bem os negócios.

- Não precisa jogar na minha cara que investi de forma errônea - diz com um tom seco. - A decisão é sua. Mas saiba que, sem essa união, é provável que a Vasques precise declarar falência até o fim do ano.

Olho para ele. Para o uísque na mão, para os olhos duros. Ele não está blefando.

O nome da empresa carrega o sobrenome da minha família. O mesmo nome que moldou minha infância, que me ensinou a ser frio quando necessário, firme quando desafiado. É mais do que orgulho, é responsabilidade. Eu aprendi a ser responsável com meus antepassados e sempre segui.

Mas e quanto a mim? Minha vida, minhas escolhas? Vou ser mais uma peça nesse tabuleiro?

Saio da sala sem responder e bato a porta sem me preocupar com os bons costumes. O ar parece mais pesado no corredor.

De volta ao meu escritório, fecho a porta, encosto as mãos na mesa e encaro meu reflexo na tela do computador desligado.

Um casamento.

Com alguém que eu não conheço.

Por obrigação.

Por estratégia.

E o pior de tudo? Parte de mim já sabe que tem grandes chances de aceitar.

Porque quando o navio afunda, você segura o leme com as duas mãos e faz o que for preciso.

Mesmo que isso custe sua própria liberdade.

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