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Capa do romance Finalmente te Encontrei

Finalmente te Encontrei

Angeline amou Arthur em segredo até que um incidente peludo iniciou um romance que ela julgava eterno. Contudo, um novo acidente mudou tudo. Cinco anos após a separação dolorosa, Arthur reencontra sua amada, mas ela não é mais a mesma. Independente e ferida, Angeline resiste ao homem que despedaçou seu coração. Enquanto ela protege sua liberdade, Arthur enfrenta o próprio inferno para não perdê-la de novo. Conseguirá o perdão curar as marcas de tanto ódio e mágoa?
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Capítulo 3

Tirei as luvas suadas e dependurei a regata na porta do meu armário.  

Mais um dia de treino extenuante. Com a competição se aproximando o treinador pegava mais pesado. Estava exausto.  

— Corno, me espera — xinguei-o fazendo se virar para trás.  

Guardei as luvas e as faixas dentro da mochila e caminhei até eles.  

— Vamos assistir as dançarinas treinando — Lucca sugeriu com seu jeito safado de sempre.  

— E subir lá em cima só para vê-las dando piruetas? — Marcus debochou.  

— Deixa de ser escroto. Sabe que o ballet é mais do que piruetas — contradisse ele.  

— Como é? — perguntou me encarando como se tivesse brotado garras do predador no meu rosto.  

— Arthur tem razão. São belas garotas com roupas coladas...  

Novamente, começaram a falar besteiras. Às vezes participava das piadas, mas na maioria das vezes os ignorava. Como não tinha o que fazer resolvi segui-los. Mas sabia que o verdadeiro motivo era para vê-la.  

Passamos pelo corredor estreito e esgueiramos atrás das cortinas. Marcus, desastrado como sempre quase derrubou alguns materiais empilhados numa prateleira.  

Lucca deu um tapa na nuca dele.  

— Fica quieto!  

— A culpa não é minha se o espaço é pequeno.  

Os dois discutiam enquanto isso meus olhos vasculhavam o estúdio a procura dela como um predador, o que não foi difícil. De cara fui atraído pela dona dos cabelos ruivos mais exóticos que conhecia. 

— Caralho!  

Elas faziam exercícios em dupla. Uma ficava no chão, deitada e com as pernas na posição de borboleta, enquanto a outra, com o corpo esticado, tinham seus pés sobre uma barra e suas mãos apoiavam na parte adutora das coxas da garota de baixo e então ela fazia flexão.  

— Mano, que isso... — Marcus estava embasbacado.  

— Ah, nem deve ser tão foda assim — Lucca como sempre tinha que fazer algum comentário maldoso.  

Angeline estava por baixo, ao passo que uma das gêmeas custava fazer a flexão apoiada nas coxas dela, dava para ver seus braços finos tremendo. Angeline parecia dar apoio a ela, subindo levemente as coxas. Três flexões depois, a australiana não aguentou e caiu entre as pernas dela.  

— Nossa! Que visão — Como sempre, Lucca tinha que ver malícia em tudo.  

Depois daqueles exercícios elas se alongaram nas barras fixas a parede. A flexibilidade delas era fora do normal, mas a dela, como sempre, destacava.  

Assim que a professora liberou, elas saíram uma de cada vez.  

Lucca e Marcus saíram atrás delas, pareciam dois cachorros tarados, nem notaram que eu não os segui.  

Esperei que todas as bailarinas saíssem e entrei no estúdio. Era bem diferente do nosso. Mais iluminado, com espelhos ao redor e barras fixas. Atravessei-o e fui para o vestiário. Também completamente diferente do nosso.  

Com um ar totalmente feminino, em cada armário tinha fotos delas.  

A encontrei de costas para mim, sentada num dos bancos, desamarrando os laços da sapatilha. Iria descobrir sobre o episódio do banheiro ali mesmo. Aproximei mais um pouco, ela ainda não tinha notado minha presença, parecia focada com...  

— Ish! — resmunguei de dor só de olhar para seu pé. Estava avermelhado e com bolhas, a unha do seu dedão parecia querer se descolar. Ver aquilo fez meu estômago revirar. Não de nojo, mas sim pela dor que ela não devia estar sentindo, só que ela não demonstrou.  

Angeline me olhou, assustada. Algumas mechas ruivas tampavam seu rosto. Quis tirar aquela mecha para que pudesse ver melhor seus olhos. Era raro fazer contato visual com ela. Tão raro que me deixou desnorteado esquecendo o real motivo de estar ali, logo voltou sua atenção ao pé. Quase pronta para arrancar a unha.  

— Se eu fosse você não faria isso...  

Ela parecia confusa quanto a minha intromissão, mas resoluta em não me dar ouvidos.  

— O que estava fazendo no banheiro masculino, Intocável? — voltei o foco e nisso seu corpo ficou rígido parando tudo o que fazia. Antes de cutucar na unha praticamente descolada, olhou-me novamente. 

Ela era linda, mas intocável. Como se fosse a pintura mais famosa em um museu e todos pudesse apenas admirá-la de longe, pois teria aquela faixa amarela de restrição, a faixa no caso seria sua mãe. Ri internamente.  

— Está querendo ensinar-me como cuidar dos meus pés? — retrucou com um tom divertido. — Uma bailarina que praticamente saiu do útero da mãe já fazendo um pliê? — elevou uma sobrancelha. Meus olhos foram atraídos para sua boca que formou um sorriso tímido, quase imperceptível, mas eu notei. 

— Uaau! — estava surpreendido por ter se dirigido a mim e por aquela nova face que descobri, talvez sarcasmo? — Consegui fazer você falar comigo, de novo. Duas vezes na semana. Que avanço! — disse enquanto passei uma perna sobre o banco e me sentei a sua frente. 

Sorri feliz por ter conseguido falar com ela. E não passou despercebido como ela ficou afetada com meu sorriso. Gostei.  

— Não estou querendo te ensinar, até porque sei que vocês, bailarinas, sofrem bem mais com esses machucados nos pés do que nós, meros e reles boxeadores.  

Senti seu olhar indagador em mim. Como se duvidasse das minhas palavras.  

— Mas acho que se você arrancar vai doer...  

— Eu não ia arrancá-la, só estava tentando deixá-la menos incomoda até chegar em casa — explicou enquanto cortava a ponta da unha — Não é o correto, mas... — deu de ombros como se já fizesse aquilo várias vezes.  

— Quer ajuda? — ofereci tentando realmente ajudá-la. Ver aquela unha quase solta balançar e seu dedo avermelhado parecia sofrimento demais.  

Ela negou num murmúrio e se levantou, mas a impedi. Tinha avançado a mão para segurá-la, mas no final não tive coragem.  

— O que quer que eu faça? — Na mesma velocidade em que me encarou, ela cortou o contato visual. — Se não falar, vou te interrogar novamente sobre o banh...  

— Pega uma faixa dentro do meu armário — disparou — é aquele ali, aberto.  

Balancei a cabeça diante da sua insistência em não me contar. Levantei-me e fui até seu armário. Era extremamente organizado, tinha várias fotos dela em apresentações, outras com sua amiga. Uma em especial me chamou a atenção, era a foto mais destacada ali. Ela usava uma roupa branca, assim como as sapatilhas. O fotografo soube capturar o momento. Ela parecia voar... como um anjo. Tão linda. 

Escutei ela soltar um suspiro e então me dei conta que demorei demais para pegar uma simples faixa. Assim que fiquei a sua frente, bati na minha coxa para que colocasse sua perna ali. Ela parecia curiosa, o que deixou sua expressão facial mais fascinante ainda. Sua beleza ficava a cada segundo mais atraente ainda, se é que isso era possível.  

— Coloque sua perna aqui para eu enfaixar — pedi.  

Só naquele momento percebi que ela não era tão tímida assim, mas sim assustada. Tinha algo a mais dentro dela. Que ela era inteligente isso era de conhecimento geral, mas tinha algo que cintilava em seus olhos, algo que queria descobrir.  

— Não precisa... Na verdade vou fazer isso em casa — disse, claramente nervosa.  

Deixei que se levantasse, mas no primeiro passo que deu não aguentou perdendo o equilíbrio. Desastrosamente ela caiu em cima de mim.  

Soltei um gemido de dor quando seu cotovelo bateu no meu olho, mas não forte o bastante para ficar roxo no dia seguinte. Aquilo doeu, mas foi esquecido ao sentir todo seu corpo sobre o meu, sentir seu cheiro, sua pele. Minha nossa! 

Ajudei a se sentar novamente a todo o momento fitando-a. Seu rosto ficou vermelho como um pimentão. Ao pegar sua perna para colocar sobre minha coxa tentei ignorar a sensação quente que tive do toque da sua pele sob a meia calça fina. Raspei a garganta me ajeitando melhor.  

— Você é bem teimosa, Intocável — disse enquanto enfaixava delicadamente seus dedos machucados. — Só queria te ajudar... Sei que não falamos muito, quer dizer nunca conversamos, mas não sou nenhum estranho. 

Fiquei observando cada movimento seu, vez ou outra sentia seus olhos subirem, mas não fazia contato visual.  

— Prontinho! — passei a mão sobre a faixa no seu pequeno pé.  

— Obrigada! É... é melhor eu ir... 

— Tudo bem — não a permiti que terminasse, pois sabia que se tratava da sua mãe. — A gente se vê amanhã, espero que não seja no banheiro masculino de novo — brinquei e com isso seus olhos quase saltaram. Não aguentei e soltei uma risada alta e ela retribuiu com um sorriso discreto.  

Fiquei um tempo ali, parado. Ainda em choque. Todas as partes em mim gritavam para conhecê-la melhor.  

Se estar perto dela, estar com ela, significasse entrar naquela aposta boba, então que assim fosse. Não deixaria que o Lucca ou qualquer outro garoto chegasse perto dela.

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