
Feridas do Passado, Força do Presente
Capítulo 2
O salão de festas do prêmio de arquitetura estava lotado, o ar vibrava com conversas animadas e o tilintar de taças de champanhe. Eu estava ali, com um sorriso que mal cabia no rosto, observando meu noivo, Pedro Almeida, no centro de todas as atenções. Ele tinha acabado de ganhar o prêmio de "Arquiteto Revelação do Ano" .
Meu coração transbordava de orgulho. Foram dez anos ao lado dele, sonhando com esse momento, com a nossa casa, com a nossa vida juntos. O casamento estava marcado para o próximo mês.
Pedro era charmoso, um mestre das palavras, e todos no meio da arquitetura o adoravam. Ele discursou no palco, agradecendo a todos, e por um momento seus olhos encontraram os meus na multidão. Ele sorriu, e eu senti como se fôssemos os únicos ali.
Depois que ele desceu do palco, foi cercado por uma multidão de colegas e admiradores. Eu esperei pacientemente, mas ele parecia ocupado demais. Decidi ir até a área reservada, nos fundos do salão, para esperá-lo com mais calma. Era um pequeno lounge com sofás de veludo e pouca luz.
Foi quando eu vi.
A cena se desenrolou diante dos meus olhos como um filme em câmera lenta. Pedro estava lá, de costas para a entrada, mas eu o reconheceria em qualquer lugar. E em seus braços, com as mãos em seu pescoço, estava Sofia Mendes.
Sofia. A jovem e talentosa estudante de arquitetura que ele "apadrinhava" .
Ela era sua protegida, sua sombra nos últimos meses. Ele a havia trazido para nosso escritório, insistindo que ela tinha um futuro brilhante e precisava de um mentor. Eu, na minha ingenuidade, a acolhi. Ensinei a ela alguns dos meus truques, dividi projetos, a tratei como uma irmã mais nova.
E agora, ela estava ali, beijando meu noivo.
Não era um beijo de agradecimento, nem um selinho de admiração. Era um beijo profundo, desesperado, do tipo que se vê em filmes, do tipo que eu e Pedro não compartilhávamos há muito tempo.
Meu primeiro instinto foi gritar, fazer um escândalo. Mas algo me paralisou. Uma frieza tomou conta do meu corpo, congelando a raiva e a dor. Fiquei parada na penumbra, observando a cena. A ironia era esmagadora. Lá fora, ele era o noivo perfeito, o profissional exemplar. Aqui dentro, ele era outra pessoa.
Eles se separaram, e eu pude ouvir a voz dela, um sussurro carregado de urgência.
"E a Isabela? Pedro, como vamos fazer?"
A resposta dele foi o que quebrou o feitiço que me prendia ao chão.
"Calma, meu amor. A Bela é ingênua, ela acredita em tudo que eu digo. Vou dar um jeito."
Aquilo foi a pá de cal. A dor se transformou em um tipo de clareza assustadora. Eu não fiz barulho. Apenas me virei e voltei para o salão principal, meu rosto uma máscara de normalidade.
Pouco tempo depois, a notícia explodiu, mas não da forma que eu esperava. Um fotógrafo de uma revista de fofocas, que provavelmente estava no lugar errado na hora certa, conseguiu uma foto. Não do beijo, mas dos dois saindo juntos do lounge, a mão de Pedro nas costas de Sofia de um jeito íntimo demais.
A foto viralizou. Em minutos, os celulares no salão começaram a apitar. As pessoas me olhavam de soslaio, cochichando. A humilhação pública era uma onda que ameaçava me afogar.
Pedro veio até mim, o rosto uma máscara de preocupação fingida.
"Bela, não acredite no que estão dizendo. É tudo um mal-entendido."
Eu apenas o encarei, meus olhos vazios.
Ele me puxou para um canto, sua voz baixa e apressada.
"Olha, isso saiu do controle. A imagem da Sofia vai ficar arruinada, e a minha também. Pensei em uma coisa. Vou levá-la para uma viagem, para a Europa, talvez. Para longe dos holofotes, até a poeira baixar. É o melhor para todos."
Eu olhei para ele, para o homem com quem planejei passar o resto da minha vida. Ele não estava preocupado comigo, com a minha dor, com a nossa relação. Estava preocupado com a reputação dele e com a amante. Ele queria levar a amante para uma viagem romântica para "fugir do escândalo" que ele mesmo criou.
A calma que senti foi sobrenatural.
"Tudo bem, Pedro."
Ele pareceu surpreso com minha aceitação rápida.
"Sério? Você entende?"
"Sim, eu entendo perfeitamente," respondi, e pela primeira vez naquela noite, meu sorriso foi genuíno, embora tingido de um amargor que ele não conseguiu decifrar. "Vá. Cuide da Sofia. Faça o que for preciso."
Ele sorriu, aliviado, e me deu um beijo na testa. Um beijo que me causou náuseas.
"Eu sabia que você era a melhor, Bela. Eu volto logo, e a gente resolve tudo."
Ele se virou e foi atrás de Sofia. Eu o observei ir embora. E no momento em que ele desapareceu na multidão, peguei meu celular. Meu plano de vida tinha acabado de ser rasgado em mil pedaços, mas um novo já estava se formando na minha mente.
Rolei minha lista de contatos, passando pelo nome "Pedro" sem sequer hesitar. Parei em um nome que não discava há algum tempo.
Lucas Fernandes.
Meu amigo de infância. O herdeiro da Construtora Fernandes, a maior do país. O homem que, segundo minha tia, sempre me amou em segredo.
Apertei o botão de ligar. Ele atendeu no segundo toque.
"Bela? Aconteceu alguma coisa?"
Sua voz era quente e familiar, um porto seguro em meio à tempestade.
"Lucas," eu disse, minha voz firme, sem um pingo de hesitação. "Você ainda quer se casar comigo?"
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha. A proposta de casamento entre nossas famílias era uma piada antiga, uma aliança de negócios que nossos pais sempre desejaram.
Eu continuei, antes que ele pudesse responder.
"O casamento com o Pedro foi cancelado. Mas a data, a igreja, o salão... tudo continua de pé. O noivo é que vai mudar. Você aceita?"
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