
Feridas do Passado, Força do Presente
Capítulo 3
O silêncio de Lucas ao telefone durou apenas alguns segundos, mas para mim pareceu uma eternidade. Eu podia imaginar sua confusão. Nós éramos amigos, confidentes, mas a ideia de um casamento real entre nós sempre pareceu uma fantasia de nossos pais.
"Bela, onde você está? O que aconteceu?" A preocupação em sua voz era palpável.
"Estou na festa do prêmio. Mas isso não importa. Apenas me responda, Lucas. Você aceita?"
"Eu aceito," ele disse finalmente, a voz firme e decidida, sem fazer mais perguntas. "Estou indo te buscar."
Desliguei o telefone e senti uma onda de alívio tão forte que minhas pernas fraquejaram. Saí do salão sem me despedir de ninguém, ignorando os olhares curiosos e os sussurros. A primeira pessoa para quem liguei depois de Lucas foi minha tia Lúcia.
Ela era a única família que me restava, minha figura materna, minha conselheira. Contei tudo a ela no carro, a caminho de sua casa, enquanto esperava Lucas.
Tia Lúcia ouviu tudo em silêncio, seu rosto se endurecendo a cada palavra minha. Quando terminei, ela não expressou pena, mas uma raiva contida.
"Eu nunca confiei naquele Pedro," ela disse, a voz cortante. "Ele sempre teve olhos de quem quer o mundo, mas não quer pagar o preço por ele. E aquela Sofia... eu avisei você, minha filha. Cobra se cria em casa."
Suas palavras, em vez de me machucarem, me confortaram. Era a validação que eu precisava.
"E o que você vai fazer agora?" ela perguntou.
"Eu vou me casar com o Lucas. No mesmo dia, na mesma hora."
Tia Lúcia me olhou, seus olhos examinando meu rosto. Ela viu a dor, mas também viu a determinação. Ela sorriu, um sorriso pequeno e orgulhoso.
"Esse é o espírito da minha sobrinha. Você não vai deixar um canalha destruir sua vida. A família Fernandes vai adorar a notícia. Aquela aliança é o sonho da vida do pai do Lucas."
Quando Lucas chegou, ele não fez perguntas. Apenas me abraçou e me levou para sua casa. Senti-me segura pela primeira vez naquela noite.
Na manhã seguinte, a notícia da minha troca de noivos se espalhou como fogo. Nossas famílias, sendo proeminentes, transformaram o que era uma fofoca de traição em um escândalo de negócios. A união Silva-Fernandes era muito mais poderosa do que a união Silva-Almeida.
Meu celular não parava de tocar. Eram mensagens de Pedro.
"Bela, que brincadeira é essa? Casar com o Lucas? Você enlouqueceu?"
"Estamos no aeroporto. Volto agora mesmo. Me espere."
Eu li as mensagens e senti um gosto amargo na boca. Ele achava que podia me trair, me humilhar, e depois voltar como se nada tivesse acontecido. A lembrança de suas palavras no lounge – "A Bela é ingênua" – ecoava na minha mente. A dor era profunda, uma ferida aberta por dez anos de amor e confiança jogados no lixo.
Eu estava na sala de estar da mansão dos Fernandes, olhando a chuva cair lá fora, quando a campainha tocou. A empregada atendeu e, para minha surpresa, era Pedro.
Ele não tinha viajado. Tinha voltado.
Ele entrou na sala, o cabelo molhado pela chuva, o rosto uma mistura de raiva e incredulidade. Ele ignorou a presença da mãe de Lucas, que estava sentada no sofá, e veio direto até mim.
"Isabela, o que significa isso? Você está tentando me punir? É isso?"
Eu o encarei, fria como gelo.
"Não há nada para explicar, Pedro. Acabou."
Ele riu, um riso sem humor.
"Acabou? Nós temos um casamento em um mês! Nossas vidas estão entrelaçadas! Você não pode simplesmente me trocar pelo Lucas como se troca de sapato!"
Ele me agarrou pelo braço, sua voz se tornando um sussurro desesperado.
"Olha, eu errei. Eu admito. Mas foi um deslize, não significou nada. A Sofia é só uma garota, uma distração. Por favor, Bela. Pense na nossa história. Pense em tudo que construímos."
Ele então se aproximou, sua voz ainda mais baixa, para que a mãe de Lucas não ouvisse. Ele apresentou a proposta mais absurda e egoísta que eu já tinha ouvido.
"Vamos fazer o seguinte. Você cancela essa loucura com o Lucas. Nós continuamos com o nosso casamento. Eu prometo que vou me afastar da Sofia. Publicamente. Mas você precisa me ajudar. Diga à imprensa que a foto foi um mal-entendido, que ela é como uma irmã para mim. Nós precisamos controlar essa narrativa, ou nossa carreira vai por água abaixo. Depois do casamento, eu resolvo a situação com ela discretamente. Ninguém precisa saber."
Eu olhei para ele, para o descaramento em seus olhos. Ele não estava pedindo perdão. Estava me pedindo para ser cúmplice de sua mentira, para limpar a sujeira que ele fez, para salvar a pele dele. A náusea voltou, mais forte do que nunca.
Eu queria gritar, esbofeteá-lo, expulsá-lo dali. Mas a frieza ainda estava no comando. Uma parte de mim, a parte que queria vê-lo pagar por tudo, assumiu o controle.
Forcei um suspiro, como se estivesse exausta e confusa.
"Pedro... eu não sei..."
Ele viu minha hesitação como um sinal de fraqueza, um sinal de que eu ainda estava sob seu controle.
"Pense em nós, Bela. Dez anos. Você vai jogar tudo fora por um erro estúpido?"
Eu baixei o olhar, fingindo ponderar.
"Tudo bem," sussurrei, a palavra saindo como veneno da minha boca. "Eu... eu vou pensar. Eu vou falar com o Lucas."
O alívio no rosto dele foi instantâneo e repulsivo. Ele sorriu, o mesmo sorriso charmoso que um dia me fez apaixonar.
"Eu sabia que você me entenderia."
Ele se inclinou para me beijar. Instintivamente, eu virei o rosto, e seus lábios encontraram minha bochecha. O contato de sua pele na minha foi como tocar em algo sujo. Meu estômago se revirou.
"Eu preciso de um tempo para pensar," eu disse, me afastando dele.
"Claro, meu amor. Tire o tempo que precisar. Mas não demore muito."
Ele saiu da casa com a arrogância de quem acabara de vencer uma batalha. Mal sabia ele que a guerra estava apenas começando. E ele já a havia perdido.
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