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Capa do romance Faminto e sedento

Faminto e sedento

Após impedir o plano de seu próprio pai para assassinar o Pakhan, um jovem leal às normas da máfia russa luta pela vida. Valorizado por sua coragem, ele é poupado para servir aos futuros herdeiros da Irmandade. Movido puramente pela lógica e pela ordem, e não por sentimentos, ele enxerga o mundo através de padrões e regras rígidas. Para este soldado implacável, a traição do pai era um caos que precisava ser eliminado para manter seu cronograma perfeito.
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Capítulo 3

Capítulo 3

Boston — Massachusetts

Três anos depois

— Parece entediado — Leonid fala, com ironia.

Essa é sua ideia distorcida de piada porque segundo ele, estou sempre entediado.

No começo, eu não compreendia muito bem quando ele me dizia coisas assim. Ou melhor, eu entendia ao pé da letra. Ler as pessoas não é o meu forte. Muito menos captar que nem todas as vezes suas palavras correspondem ao que meu interlocutor quer dizer, mas depois de quase duas décadas convivendo com o cretino, já sei diferenciar uma brincadeira de quando está falando sério.

— Foi muito divertido — o motorista, um novato, diz, se intrometendo na conversa ao olhar para trás.

Hoje em dia, é muito raro que eu vá às ruas resolver problemas. Principalmente porque estamos em guerra contra um cartel mexicano e Yerik deu ordem de que nos expuséssemos o mínimo possível. Dessa vez, entretanto, foi inevitável. Primeiro porque a merda voou no ventilador no meu território e segundo porque gosto de punir os traidores eu mesmo.

Muita coisa mudou desde a madrugada em que Ruslan me salvou da morte.

Leonid diz que sou quase humano agora.

Hoje em dia, eu já consigo entender um pouco mais das pessoas e suas emoções.

Medo, alegria, irritação. Sei detectar cada uma dessas vibrações.

Sentimentos, no entanto, ainda continuam sendo uma espécie de código secreto para mim.

Há algo, porém, que segue sendo o meu norte. Regras. Ainda sou obsessivamente apegado a elas.

Não dou uma segunda chance a quem quer que quebre as minhas.

— Você é muito bom com a faca, chefe. Não sobrou muitas partes deles que não parecessem bifes fatiados.

— Foco na estrada — comando e o garoto imediatamente se vira. Nossos olhos se encontram pelo retrovisor e vejo medo em seu semblante.

Não é algo que eu deseje. Na verdade, me é totalmente indiferente que me temam.

Alguns homens da Organização se regozijam de despertar o pavor de todos às suas voltas, para mim basta que obedeçam minhas ordens sem questionamentos e que nunca quebrem nossas malditas regras. Isso lhes garantirá uma morte honrosa, quando a hora chegar. Porque mais cedo ou mais tarde, ela chegará.

A vida de um comandado não é difícil. Ele obedece seus superiores e mantém a boca fechada. Em troca, o bolso estará sempre cheio. Tirando a parte de que os soldados podem ser abatidos a qualquer momento, claro. Mas quem entra para a Organização sabe que tem um alvo nas costas.

— Maxim — Leonid me chama outra vez, porque estou preso dentro da minha cabeça, como acontece na maior parte do tempo.

Seu tom muda e agora sei que está falando sério.

Todos os cinco homens com quem mais convivo, incluindo o ex-Pakhan, se preocupam comigo. Sempre foi assim, desde que me juntei à Irmandade, ainda adolescente.

Ruslan disse que é porque eu não falo muito. Mas depois de tanto tempo, já não era para terem se acostumado?

Talvez o único que consiga me entender seja Ruslan. No começo, era apenas ele com quem eu conversava e assim mesmo, não tinha muito a dizer. Nunca tive amigos, já que até que meu pai descobrisse minhas habilidades, eu vivia trancado na gaiola.

Depois que cuidaram dos meus ferimentos quando me resgataram, o ex- Pakhan quis saber por que enfrentei meu pai naquela noite, quando as chances de que ele me matasse eram grandes.

Eu falei a verdade. Não aceito que regras sejam quebradas porque elas geram mudanças. Gosto de fazer tudo igual. Da rotina. Ela permite que eu compreenda o mundo à minha volta.

— Achei que você se divertiria ao sairmos para brincar, como nos velhos tempos. — Ele continua.

— Não brincamos. Torturamos aqueles homens para que servissem como exemplo.

— Foi maneira de dizer. Volto-me para ele.

— Sangue não é divertido. Suja minhas roupas e agora vou ter que jogar esse terno fora.

— Tem dinheiro para comprar a empresa que faz esses ternos, irmão. É verdade, mas não gosto de nenhum tipo de sujeira ou desordem.

— Por que achou que seria divertido sairmos juntos como no passado?

— Não sente falta do trabalho nas ruas?

— Não. Nunca gostei daquilo. Prefiro o escritório — falo, começando a me irritar.

— Eu sei, gênio. Gosta de planejar e é bom nisso. Não estou querendo ser um filho da puta.

— Seria uma novidade.

— Está sendo irônico?

— Não. É só o que eu penso. Não conheço sua mãe, mas sei que é uma expressão que se usa quando alguém é um bastardo, e você é um.

Ele gargalha.

— Você é esquisito para caralho, Maxim e ainda assim, uma das minhas pessoas favoritas no mundo.

— Não tem como saber disso. Não conhece tanta gente assim para uma análise comparativa.

— Jesus, eu senti saudade de você, cara!

Olho para ele porque nunca sei quando está falando sério. Gosto tanto de Leonid quanto dos outros, mas com ele eu quase chego a ter conversas. Assim, acho que ele me fez falta também. Não deveria porque é um cara imprevisível, o que vai na contramão do que prefiro em minha vida.

Há muito tempo não nos concentramos mais em Atlanta. Desde que Yerik assumiu como Pakhan, os territórios foram divididos e cada um dos subchefes mais próximos — nós quatro — enviado para um estado-chave da Organização.

— Vai mesmo ter que sair da Califórnia? — pergunto.

No começo, a subchefia dele era em Seattle, mas não aguentou ficar muito tempo por lá. Se mudou meses depois do casamento de Dmitri[15] com Yulia[16] para a Califórnia.

Foi logo após a primeira guerra contra um cartel mexicano menor ser controlada. Há cerca de três meses, no entanto, o inferno explodiu. Dessa vez, contra o mais poderoso cartel de drogas da América do Norte, Los Morales[17].

Yerik ordenou que Leonid voltasse, já que era o único dos seus homens de confiança que permanecia no comando na costa oeste.

Há também um cuidado maior em relação às esposas e aos filhos. Os do Pakhan são os mais próximos da adolescência e principalmente seu garoto mais velho, anda meio incontrolável, segundo Talassa reclamou ao telefone comigo ontem.

É diferente quando nós somos ameaçados do que quando o perigo recai sobre a família. Acho que ninguém do alto escalão da Organização teme a morte, mas uma sensação estranha enche minha cabeça quando penso em um dos meus sobrinhos — os filhos de Yerik, de Grigori e de Dmitri — feridos.

— Vou ficar entre Atlanta e aqui com você. Não há muito o que ser feito na outra costa por ora. Já tem algum plano?

— Agora não — falo, porque além do novato, há um dos nossos homens conosco no carro.

Ele acena com a cabeça, porque entendeu o que eu não disse: não podemos confiar em qualquer um depois do vazamento de uma de nossas rotas que descobrimos hoje.

— Certo, e o que tem de bom nessa cidade?

— Quer uma mulher para foder?

— Você, como sempre, um lorde. Sim, amigo. Quero uma. Ou várias. — Ele ri. — Vamos à sua boate. Soube que há uma stripper nova por lá. Estou precisando me distrair depois dessa merda toda hoje.

— Divirta-se. Eu não posso. Tenho uma reunião com Ruslan. Preciso tomar um banho antes, no entanto.

— Ele está no país?

— Sim — digo simplesmente, sem explicar que não tenho a menor ideia de por que o antigo Pakhan deseja me ver.

— É por isso que quer ir em casa antes? Para se trocar? Sabe que o Papa não se importará com um pouco de sangue. — diz, olhando para minha roupa que contém somente alguns respingos que, no terno escuro, mal aparecem. Como bem disse o garoto há pouco, sou hábil com a faca. — Depois podemos ir juntos à boate. Acho que precisa transar também, cara. Seu humor está uma merda.

— Não, o que eu preciso é me limpar. Eu não gosto de sujeira e estou imundo.

Ele me encara em silêncio. Às vezes eu acho que ele sabe sobre o meu passado, mesmo que nunca tenha tocado no assunto. Eu não me importo.

Volto a olhar para fora da janela.

— Tudo bem, irmão. Vá cuidar da sua limpeza. Podemos sair amanhã.

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