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Capa do romance FAMÍLIA BRAGANÇA: PELO BEM MAIOR

FAMÍLIA BRAGANÇA: PELO BEM MAIOR

Entre a nobreza, casamentos por conveniência são a regra. Josephine Bragança, filha de um duque, está prometida ao gélido príncipe Ezequiel Alcântara, um herdeiro focado apenas no dever. Apesar da vida luxuosa, Josephine despreza o noivo e ressente seus pais, que deram todo o afeto à sua irmã caçula, Pandora. Criada com uma liberdade que a primogênita nunca teve, Pandora torna-se o alvo perfeito para o plano de vingança que Josephine arquiteta contra a própria família.
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Capítulo 3

Os corredores da residência Bragança estavam silenciosos demais.

Silêncio político.

Silêncio estratégico.

Silêncio perigoso.

No gabinete do grão-duque, relatórios diplomáticos repousavam sobre a mesa como ameaças veladas. George Bragança lia cada documento com a serenidade de um homem acostumado ao peso do poder.

Helena observava, inquieta.

- Valença não desistirá.

George fechou o relatório lentamente.

Sem pressa.

Sem hesitação.

- Que não desistam.

- Uma aliança matrimonial com eles poderia ser vantajosa.

O olhar do duque ergueu-se.

Frio.

Inquestionável.

- Pandora não é uma negociação.

- George, estamos falando de equilíbrio continental.

Ele se levantou.

A presença imponente dominando o ambiente.

- Não entregarei minha filha preciosa como prêmio político.

A firmeza na voz não deixava espaço para réplica.

Helena suspirou.

- Não é entrega.

- É exatamente isso que casamentos arranjados são.

Silêncio.

Pesado.

George caminhou até a janela.

- Já fizemos isso uma vez.

A tensão na sala tornou-se quase tangível.

- Josephine aceitou seu destino.

- Josephine suportou seu destino.

A correção veio dura.

Precisa.

Dolorida.

- Pandora terá escolha.

Helena desviou o olhar.

Porque ambos sabiam.

Escolhas eram luxos raros naquela família.

Nos aposentos de Bernarda Bragança, o ar parecia ainda mais rígido.

Josephine mantinha a postura impecável, mas algo em seu olhar revelava inquietação.

- Avó...

Bernarda ergueu os olhos lentamente.

- Sim, Josephine.

A jovem hesitou por um instante.

- Por que eu?

- Você precisará ser mais específica.

- Por que fui escolhida para ser princesa herdeira?

Silêncio.

Bernarda fechou o livro que lia.

Movimento calculado.

Resposta calculada.

- Porque essa é uma posição que poucas mulheres no mundo podem ocupar.

Josephine sustentou o olhar.

Mas buscava algo além da formalidade.

- Isso não responde minha pergunta.

Bernarda levantou-se.

Elegante.

Imponente.

Inevitável.

- Você é a primogênita.

- Isso é apenas ordem de nascimento.

- Isso é ordem de sucessão.

A resposta veio afiada.

Irrefutável.

Bernarda aproximou-se.

- Você foi preparada desde o berço.

- Pandora também é uma Bragança.

- Pandora jamais suportaria a corte.

Josephine permaneceu em silêncio.

- Pandora é livre demais.

- Pandora é despreparada.

- Pandora é... diferente.

Bernarda estreitou levemente os olhos.

- Pandora não possui a disciplina necessária.

Uma pausa.

- Nem a frieza.

Josephine absorveu cada palavra.

- Você é a mais adequada.

Adequada.

Sempre aquela palavra.

Sempre aquela sentença.

- Inteligente, estratégica, impecável.

Bernarda ergueu o queixo da neta.

- A realeza exige controle.

Outra pausa.

Mais dura.

- Pandora seria destruída pela corte.

Josephine manteve o olhar firme.

Mas algo se movia por trás da serenidade.

Algo que Bernarda não conseguiu ler completamente.

No Palácio Alcântara, a tensão era menos sutil.

Felipe encarava o filho herdeiro com uma mistura rara de autoridade e preocupação.

- Você precisa demonstrar mais sentimentos.

Ezequiel permaneceu impassível.

Como sempre.

- Sentimentos não alteram estabilidade política.

- Mas sustentam a imagem da coroa.

- Imagens são construções frágeis.

Felipe respirou fundo.

- Josephine não é apenas uma aliança.

- Para o reino, ela é exatamente isso.

O rei aproximou-se.

- E para você?

Silêncio.

Pesado.

Incômodo.

Ezequiel sustentou o olhar do pai.

Frio.

Direto.

Absoluto.

- Estou me casando porque é meu dever como futuro rei.

Nenhuma hesitação.

Nenhuma culpa.

Nenhuma emoção.

Apenas verdade.

Brutal.

Felipe estreitou os olhos.

- Não há mais nada além disso?

- Reis não escolhem luxos emocionais.

O rei recuou lentamente.

Porque conhecia aquele tom.

Conhecia aquela rigidez.

Conhecia aquela frieza.

- O povo não segue apenas reis fortes.

Uma pausa.

Carregada de significado.

- Segue reis humanos.

- Humanidade é vulnerabilidade.

Felipe permaneceu em silêncio.

Porque temia.

Temia que o filho confundisse força com isolamento.

E dever com vazio.

Na residência Bragança, Josephine observava seu reflexo.

A safira brilhava em seu pescoço.

Majestosa.

Fria.

Poderosa.

Adequada.

Mas agora uma pergunta ecoava em sua mente.

Se Pandora era preciosa...

E ela era adequada...

Qual delas realmente possuía o poder?

E, mais importante...

Qual delas estava disposta a fazer o impensável para conquistá-lo?

O nome Augusto Delciro carregava respeito nos salões nobres.

O Barão Delciro não possuía a fortuna dos Bragança nem o brilho da realeza Alcântara, mas detinha algo igualmente valioso.

Confiança.

Era um homem conhecido por sua fidelidade inabalável à coroa, um aliado político sólido, discreto e estrategicamente útil.

Seus filhos herdaram não apenas o título...

Mas a entrada irrestrita nos círculos mais poderosos.

Na elegante residência do barão, o clima era leve - ao menos na superfície.

- Você deveria ter visto - dizia Jeferson Delciro, recostado na poltrona, com um sorriso quase nostálgico.

Safira Delciro observava o irmão com visível impaciência.

- Você já contou essa história três vezes.

- E ainda assim você continua ouvindo.

- Apenas porque insiste em dramatizar.

Jeferson riu.

- Não é dramatização. É fato.

Ele ergueu a taça lentamente.

- Pandora Bragança simplesmente paralisou aquele salão.

Safira revirou os olhos.

- Claro que sim.

- Você não estava lá.

- Felizmente.

O sorriso dela carregava um traço evidente de desdém.

Safira Delciro era conhecida por sua postura refinada, quase aristocrática. Elegante, calculada, perfeitamente alinhada às convenções da alta sociedade.

Por isso combinava tão bem com Josephine.

Por isso se entendia tão bem com Donatella.

E por isso...

Detestava Pandora.

- Era um baile em Montreval - continuou Jeferson, ignorando a ironia da irmã. - Nobres, diplomatas, membros da realeza...

Ele inclinou levemente a cabeça, como se revivesse a cena.

- E então ela entrou.

Safira bufou.

- Sempre essa entrada teatral.

- Não foi teatral.

O tom dele mudou.

Mais sério.

Mais sincero.

- Foi inevitável.

Safira estreitou levemente os olhos.

- Beleza não é algo raro nos nossos círculos.

- Pandora não é apenas bela.

Silêncio.

Até Safira percebeu o peso daquela afirmação.

- Ela tem presença.

Uma pausa.

- Liberdade.

Outra pausa.

- Vida.

Safira cruzou os braços.

- Ela tem excesso.

- Ela tem autenticidade.

Safira riu, seca.

- Você sempre foi facilmente impressionável quando se trata dela.

Jeferson sorriu.

Sem negar.

- O salão inteiro ficou encantado.

- Homens costumam ficar.

- Não apenas homens.

Safira permaneceu em silêncio.

- Mulheres, nobres, até membros da realeza.

Ele bebeu um gole lento.

- Pandora não precisava fazer nada.

Safira estreitou o olhar.

- Esse é exatamente o problema dela.

- Qual?

- Ela nunca precisa se esforçar.

A frase saiu carregada de algo mais profundo que simples antipatia.

Inveja.

Competição silenciosa.

Ressentimento social.

- Josephine construiu sua posição - continuou Safira. - Pandora apenas nasceu sendo adorada.

Jeferson observou a irmã com atenção.

- Josephine é extraordinária.

- Pandora é inconveniente.

- Pandora é... Pandora.

Safira soltou um suspiro irritado.

- Não entendo como você consegue tolerar aquela impulsividade infantil.

- Porque ela é real.

Safira riu, fria.

- Realidade é uma coisa perigosa na nobreza.

Horas depois, no Palácio Alcântara...

Safira Delciro caminhava ao lado de Donatella e Josephine.

Três mulheres.

Três elegâncias distintas.

Três ambições silenciosas.

- Seu irmão continua obcecado por Pandora? - perguntou Donatella.

Safira sorriu com leve ironia.

- Infelizmente.

Josephine manteve-se em silêncio.

Mas ouvindo.

Sempre ouvindo.

- Ela sempre teve esse efeito sobre os homens - continuou Safira.

Josephine ergueu levemente os olhos.

- E sobre os reinos, ao que parece.

Safira franziu a testa.

- Refere-se a Valença?

Josephine sorriu.

Serena.

Impecável.

- Refiro-me à facilidade com que Pandora conquista atenção.

Safira cruzou os braços.

- Atenção não é poder.

Josephine inclinou levemente a cabeça.

- Às vezes é exatamente isso.

Donatella observou a amiga com atenção.

Havia algo diferente nela.

Mais frio.

Mais afiado.

Mais perigoso.

Safira, alheia à mudança sutil, continuou:

- Pandora é adorável para bailes.

Uma pausa.

- Mas jamais sobreviveria à corte.

Josephine sustentou um leve sorriso.

Mas seus olhos...

Seus olhos brilhavam com algo impossível de ignorar.

Porque Josephine começava a enxergar algo que poucos percebiam.

Pandora não precisava de títulos.

Pandora não precisava de estratégia.

Pandora não precisava de esforço.

E ainda assim...

O mundo inteiro parecia girar em torno dela.

E isso...

Isso era algo que Josephine Bragança já não estava disposta a aceitar.

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