
Êxtase Eterno
Capítulo 2
Cidade do México, 1998.
Rodrigo Montenegro, um menino de cinco anos, estava sentado no chão da sala de estar, cercado por blocos de construção. A luz suave da tarde iluminava o ambiente, mas seu olhar estava fixo na figura imponente de seu pai, Antônio, que atravessava o saguão do novo edifício Montenegro. O homem estava vestido em um terno escuro impecável, seu cabelo ainda negro brilhando sob a luz. Rodrigo o observava com admiração, seu pequeno coração cheio de orgulho.
“Vê, meu filho?” Antônio dizia, sua mão pesada pousando no ombro do menino. “Respeito se conquista nos detalhes.” A voz profunda e autoritária de Antônio reverberava na mente de Rodrigo, moldando a maneira como ele via o mundo.
Naquela noite, enquanto a cidade se iluminava sob um céu estrelado, Rodrigo estava na biblioteca de mogno e couro de sua casa. O cheiro de livros antigos e conhaque preenchia o ar enquanto Antônio contava histórias sobre como começou a vender terrenos no subúrbio. “Seu avô me deixou apenas dívidas e um nome manchado,” ele explicava, o copo de whisky tilintando com gelo. “Mas um Montenegro não aceita derrota.”
Rodrigo ouvia atentamente, os olhos arregalados em admiração. A história de seu pai era uma narrativa de superação e poder que o fascinava. “Em 1980, comprei meu primeiro terreno de verdade,” Antônio continuava, seus olhos perdidos nas chamas da lareira. “As pessoas diziam ser loucura, que aquela área nunca seria desenvolvida. Seis meses depois, o governo anunciou a expansão do metrô.”
Embora apenas compreendesse parcialmente, Rodrigo sentia a grandeza das conquistas do pai. Ele não entendia os envelopes pardos que apareciam ocasionalmente sobre a mesa, nem os apertos de mão demorados com políticos em jantares formais. Para ele, a vida era um grande jogo de xadrez, e seu pai era o mestre.
Oaxaca, 1998.
Enquanto Rodrigo se encantava com o mundo dos negócios, uma realidade diferente pulsava em Oaxaca. Catarina, também com cinco anos, estava sentada aos pés de sua avó, Carmen, na varanda desgastada de sua casa. O cheiro de tortilhas e flores de marigold preenchia o ar enquanto Carmen trabalhava em seu tear manual.
“Vê como os fios se entrelaçam, meu amor?” Carmen mostrava, suas mãos enrugadas movendo-se com precisão ancestral. “Assim como nossa comunidade. Cada fio sustenta o outro. Quando um se rompe, todos sofrem.”
Carmen havia trabalhado toda a sua vida como empregada para famílias ricas, incluindo um breve período para os Montenegro nos anos 80. Suas mãos calejadas contavam histórias de décadas de serviço, e seus olhos guardavam segredos que nunca foram completamente compartilhados com Catarina. A avó se tornara seu porto seguro, a fonte de resistência e amor em um mundo muitas vezes hostil.
À noite, enquanto estrelas brilhavam sobre Oaxaca, Carmen contava à neta histórias de sua infância. “Nossa terra tem memória, Catarina,” ela dizia, seu rosto iluminado pela luz de velas. “Cada pedra, cada árvore, lembra quem esteve aqui antes. Os poderosos pensam que podem apagar essa memória com concreto e dinheiro, pero la tierra nunca olvida.”
Essas palavras ecoavam na mente de Catarina, moldando sua identidade e seu desejo de lutar por justiça. Para ela, a resistência não era apenas uma palavra; era um legado, uma herança que carregava em seu coração.
Cidade do México, 2005.
Seis anos depois, Rodrigo tinha doze anos e acompanhava seu pai em um evento social no elegante Terraço do Bancomer. Ele observava as pessoas ao seu redor, a elite da cidade, todos com sorrisos falsos e conversas superficiais. “Progresso exige sacrifício,” Antônio falava em tom grave enquanto explicava o que estava acontecendo ao seu redor. “Aquelas famílias receberam compensação justa.”
Rodrigo observou uma senhora idosa chorando enquanto era escoltada para fora de um prédio prestes a ser demolido. Algo em seu rosto lhe lembrava sua própria avó. “Pai, para onde eles vão?” ele perguntou, o coração apertando na expectativa de uma resposta que o confortasse.
“Não é nossa responsabilidade, filho. Negócios são negócios,” Antônio respondeu, sua voz desprovida de emoção. Rodrigo sentiu um frio na barriga. As palavras do pai soavam como uma sentença, e a imagem da senhora o perseguiu por semanas.
Oaxaca, 2005.
Na mesma época, Catarina também tinha doze anos e estava em uma manifestação contra a venda de terras comunais. Carmen, envelhecida, mas determinada, mantinha-se firme à frente do protesto. “Olhe nos olhos deles, mi amor,” Carmen instruiu, apontando para os policiais. “Não com raiva, mas com determinação. Que vejam que não têm poder sobre seu espírito.”
Foi naquele dia que Catarina viu pela primeira vez o logotipo da Montenegro Incorporações nos tapumes de construção. A conexão entre suas vidas ficou mais clara, um fio invisível as ligava. A avó, após retornar para casa, chegou tossindo sangue, resultado dos confrontos com a polícia. Catarina se lembrou das histórias que Carmen contava, sobre a luta constante contra os poderosos, e a determinação em seu coração cresceu.
Cidade do México, 2010.
Aos dezessete anos, Rodrigo já era um jovem promissor, acompanhando o pai em reuniões importantes. As conversas eram sempre sobre contratos, subornos velados e ameaças disfarçadas. “Poder verdadeiro,” Antônio ensinava, “é fazer com que as pessoas aceitem sua vontade pensando que foi ideia delas.”
Naquela época, Rodrigo começou a ver as consequências diretas das ações de sua família. Ele assistiu a seu pai destruir três famílias apenas com telefonemas, tudo legal, tudo documentado, tudo justificável aos olhos da lei. Uma sombra de dúvida começou a se formar em sua mente, e a imagem da senhora idosa o assombrava.
Oaxaca, 2010.
Catarina, também aos dezessete, segurava a mão de sua avó no hospital público. Carmen, consumida por um câncer que os médicos não conseguiam explicar, ainda tentava ensinar. “La lucha nunca termina, mi amor,” sussurrou entre acessos de tosse. “Mas não deixe que o ódio consuma seu coração. Lute com amor pela justiça, não com raiva pela vingança.”
Antes de morrer, Carmen entregou à neta um envelope amarelado. “Quando for hora, você saberá o que fazer.” As palavras reverberavam na mente de Catarina, que não tinha certeza do que o futuro guardava, mas sabia que o desejo de resistência corria em suas veias.
Presente.
Agora, enquanto Rodrigo observava a cidade do alto do Bancomer, as palavras de seu pai ecoavam em sua mente. Cada prédio, cada empreendimento tinha uma história de “progresso” que ele ajudou a construir, mas a verdade era que suas mãos estavam tão sujas quanto as do pai. Ele começou a questionar não apenas as decisões de Antônio, mas também suas próprias escolhas.
Em seu apartamento modesto, Catarina abria finalmente o envelope que sua avó lhe deixara. Entre documentos antigos e fotos amareladas, uma verdade começava a se revelar. O nome Montenegro aparecia repetidamente, conectado a uma série de “acidentes” e “coincidências”. A conexão entre suas famílias ficava mais clara à medida que ela juntava as peças do quebra-cabeça, uma teia complexa de traição e opressão.
Os destinos de Rodrigo e Catarina estavam entrelaçados em uma herança que ambos não podiam evitar. As raízes de seus legados pesados se entrelaçavam em um solo que estava prestes a explodir. A atração que começava a crescer dentro deles era como um fogo oculto, e ambos sentiam a chama ardente de suas lutas individuais se aproximando.
O que nem Rodrigo, nem Catarina sabiam era que a batalha que se aproximava não era apenas a deles. Era uma luta que afetaria não apenas suas vidas, mas também o futuro de toda a cidade. O peso do passado, os segredos familiares e as lealdades divididas se tornariam uma força poderosa que moldaria suas escolhas e testaria seus corações.
Enquanto a noite caía sobre a Cidade do México, um novo capítulo de suas vidas se desenrolava, e a tensão entre eles prometia uma história de amor e conflito que desafiaria tudo o que haviam aprendido até então.
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