
Ex-Esposa: A Deusa da Dor
Capítulo 2
Era o nosso aniversário de casamento. Dez anos.
Eu preparei o jantar, o prato favorito dela, e abri uma garrafa do vinho que guardávamos para ocasiões especiais. A mesa estava posta, as velas acesas, e a única coisa que faltava era a minha esposa, Sofia.
O relógio na parede da sala marcava nove da noite. Depois dez. Depois onze.
A comida esfriou. As velas derreteram até o fim.
Eu comi um pedaço do bife frio, sozinho, olhando para a cadeira vazia à minha frente. A solidão era uma velha conhecida, mas naquela noite ela parecia mais pesada, mais densa.
Peguei o celular, pensando em ligar, mas o que eu diria? "Onde você está?" Eu já sabia a resposta. Trabalhando. Sempre trabalhando. Pelo menos, era o que ela sempre dizia.
Desisti da ligação e, por puro tédio, abri as redes sociais. Foi quando eu vi.
Uma foto postada por Lucas Santos, o assistente bajulador de Sofia. Ele estava encostado em um carro esportivo de luxo, um modelo que custava mais do que a entrada da nossa casa. A legenda era puro deboche: "Obrigado, chefe! O melhor presente de todos! Você é a melhor!"
E na foto, ao lado dele, estava Sofia.
Ela sorria, um sorriso largo e vitorioso, com o braço em volta dos ombros de Lucas. Eles pareciam um casal celebrando uma grande conquista.
Meu estômago gelou. Não foi pelo carro, nem pelo sorriso dela para outro homem. Foi pela mão dela, a mão que repousava no ombro de Lucas.
Estava nua. Sem a aliança.
A aliança de ouro que eu coloquei em seu dedo dez anos atrás, a mesma que ela jurou nunca tirar, tinha desaparecido.
O choque foi como um soco no estômago, tirando meu ar. Senti uma náusea subir pela garganta. Era mais do que uma traição emocional, era uma declaração. Uma declaração de que nosso casamento, para ela, já não significava nada.
Eu olhei para a minha própria mão, para a aliança que eu nunca tirei. Parecia pesada, um pedaço de metal frio e sem sentido.
Respirei fundo, tentando reprimir a onda de fúria e dor que ameaçava me consumir. Levantei-me, joguei os restos do jantar no lixo, lavei a louça e apaguei as luzes da sala de jantar. Agi no piloto automático, a mente em um nevoeiro de incredulidade.
Foi então que o meu celular tocou. Era ela.
Atendi, a voz presa na garganta.
"Ricardo? Onde diabos você enfiou o relatório de projeção do terceiro trimestre?" A voz dela era ríspida, impaciente, como se eu fosse um empregado incompetente.
Eu fiquei em silêncio por um segundo, tentando processar a pergunta.
"Qual relatório?" consegui dizer.
"Não se faça de idiota! O relatório que eu pedi para você finalizar! O cliente está me ligando sem parar! Por sua causa, eu pareço uma amadora!"
A ironia era tão absurda que quase ri. Ela estava com o assistente dela, comemorando a compra de um carro de luxo, e me ligava para gritar sobre um relatório que eu nem sabia que era urgente. Um relatório que, aliás, eu tinha enviado para o e-mail dela dois dias antes.
"Eu te enviei na terça-feira, Sofia. Verifique seu e-mail." Minha voz saiu fria, monótona.
"Não me interessa! Se eu não achei, a culpa é sua! Reenvie agora! E da próxima vez, seja mais organizado!"
E ela desligou. Na minha cara.
Eu olhei para o telefone, para a tela escura. O silêncio da casa era ensurdecedor. Uma sensação estranha tomou conta de mim. Não era mais só dor ou raiva. Era um sentimento de libertação. A absurdidade da situação era tão grande que quebrou algo dentro de mim.
Pela primeira vez em anos, eu não senti a necessidade de correr para o computador para resolver o problema dela. Não senti o peso da responsabilidade dela sobre os meus ombros.
Fui até a sala, liguei o videogame que estava empoeirado há meses e comecei a jogar. O som dos tiros e explosões virtuais preencheu o vazio da casa e da minha mente. Era um alívio. Um alívio perigoso e viciante.
Meu celular vibrou novamente. Uma mensagem. Era de Lucas.
Uma foto dele dentro do carro novo, o painel de LED aceso, com a legenda: "Algumas pessoas trabalham duro para conseguir o que querem, outras apenas ficam em casa jogando videogame. Níveis diferentes, eu acho."
O sangue subiu à minha cabeça. A provocação barata, o ar de superioridade de um cara que não seria nada sem a minha esposa... sem o meu trabalho.
Minha paciência, que eu cultivei por uma década, finalmente se esgotou.
Digitei uma resposta rápida, sem pensar duas vezes.
"Aproveite bem o carro que o meu dinheiro comprou, seu encostado. Espero que ele seja confortável para você continuar sendo o cachorrinho da minha esposa."
Enviei.
E, em seguida, bloqueei o número dele. Bloqueei em todas as redes sociais. Um clique, dois cliques. Acabou.
A sensação foi imediata. Um peso gigantesco saiu das minhas costas.
Não demorou nem cinco minutos para o celular tocar de novo. O nome de Sofia brilhava na tela. Eu imaginei o pequeno verme correndo para contar para ela, choramingando sobre como eu fui mau com ele.
Eu olhei para o nome dela na tela. Deixei tocar. Tocou uma, duas, três vezes. Até cair na caixa postal.
Ela ligou de novo, e de novo.
Eu ignorei. Coloquei o celular no modo silencioso e o joguei no sofá.
Voltei para o meu jogo, mas minha mente já estava em outro lugar. Estava planejando. Planejando o divórcio. Planejando minha saída. Planejando minha vida sem Sofia.
Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, eu dormi profundamente. Sem pesadelos, sem acordar de madrugada pensando nos problemas da empresa ou nas exigências de Sofia.
Foi um sono tranquilo, o sono de um homem que finalmente percebeu que a corrente que o prendia não era feita de amor, mas de exploração. E ele tinha acabado de encontrar a chave.
Enquanto dormia, minha mente repassava os últimos dez anos. Anos em que eu trabalhei nas sombras, codificando os softwares que eram a base da nossa empresa de tecnologia, enquanto Sofia, com seu carisma e rosto bonito, ficava com todo o crédito. Anos em que eu sacrifiquei meus próprios projetos, minhas próprias ambições, para construir o império dela. Anos em que fui dado como certo, uma peça de mobília útil, mas facilmente ignorável.
O carro para Lucas não foi o motivo. Foi apenas o catalisador. O símbolo final e inegável da minha desvalorização.
Eu acordei na manhã seguinte com uma clareza que não sentia há anos. Eu sabia exatamente o que precisava fazer.
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