
Ex-Esposa: A Deusa da Dor
Capítulo 3
Sofia chegou em casa pouco antes do amanhecer, parecendo exausta e irritada. Ela jogou a bolsa no sofá com força, fazendo um barulho seco no silêncio da manhã.
Eu estava na cozinha, tomando uma xícara de café, calmo.
"Você tem ideia da confusão que você me causou ontem à noite?" ela começou, sem nem me dar bom dia. Sua voz estava carregada de acusação.
Eu tomei um gole do meu café, sem pressa.
"Eu?"
"Sim, você! O cliente da TechCorp ficou furioso! Tive que passar a noite inteira acalmando os ânimos e refazendo a apresentação. Por sua causa!"
Ela me olhava como se eu fosse o único responsável por todos os problemas do mundo.
"E o que exatamente eu fiz?" perguntei, minha voz perigosamente calma.
"Você não me enviou o relatório a tempo! E ainda por cima, foi grosseiro com o Lucas! Ele ficou super chateado!"
Eu quase ri. Quase.
"Sofia, o relatório estava no seu e-mail desde terça. Se você não consegue gerenciar sua própria caixa de entrada, o problema não é meu. E quanto ao Lucas... ele que aprenda a não me provocar."
Sofia me encarou, boquiaberta. Seus olhos se arregalaram em choque. Ela não estava acostumada com essa versão de mim. Ela estava acostumada com o Ricardo que pedia desculpas mesmo quando não estava errado, o Ricardo que engolia o orgulho para manter a paz.
"O que deu em você? Desde quando você fala assim comigo?"
"Desde que eu cansei de ser seu capacho", respondi, dando de ombros e voltando minha atenção para a TV da cozinha, onde passava um desenho animado qualquer.
Eu peguei meu celular e comecei a jogar um joguinho simples, ignorando-a completamente. Eu podia sentir o olhar dela queimando na minha nuca, a fúria crescendo.
"Ricardo, eu estou falando com você! Temos uma crise na empresa e você está aí, jogando no celular como um adolescente? Você é o gênio da programação, o cérebro por trás de tudo. Preciso que você resolva o bug no sistema do novo cliente. Agora!"
A arrogância dela era impressionante. Em um momento, eu era um inútil que causava problemas, no outro, eu era o gênio indispensável.
Eu continuei olhando para a tela do celular, a música irritante do jogo preenchendo o ar.
"Ah, agora eu sou o 'gênio da programação'?", eu disse, com um sarcasmo cortante. "Engraçado, ontem à noite parecia que a única coisa que eu sabia fazer era atrapalhar. E quem ganhou um carro esportivo por ser tão genial foi o seu assistente, não eu."
"Não misture as coisas! O Lucas é um excelente assistente, ele me ajuda a manter a imagem da empresa! É marketing, Ricardo, algo que você não entende! Agora, pare com essa criancice e vá trabalhar!"
Ela estava perdendo o controle, a voz subindo de tom a cada palavra.
Eu finalmente olhei para ela, um sorriso frio nos lábios.
"Não."
Uma única palavra. Simples, direta. E para Sofia, foi como se eu tivesse jogado uma bomba na cozinha.
"O quê?"
"Eu disse não. Não vou resolver bug nenhum. A empresa é sua, o sucesso é todo seu, não é? Foi o que você disse na última entrevista. Então, vá lá, Sofia. Seja a CEO genial que você diz ser e resolva você mesma. Ou melhor, peça para o seu 'excelente assistente' resolver. Talvez ele consiga codificar com o mesmo talento que tem para te bajular."
A fúria no rosto dela se transformou em uma máscara de ódio.
"Você está louco? Você sabe que sem você, a parte técnica da empresa para!"
"Eu sei. E parece que você finalmente está começando a perceber isso também. Que pena que precisou de dez anos."
Ela pegou um vaso decorativo da bancada, um presente de casamento dos pais dela, e o atirou na minha direção.
Eu me desviei com facilidade. O vaso se espatifou na parede atrás de mim, os cacos se espalhando pelo chão da cozinha.
"Você é um ingrato! Ingrato!", ela gritava, o rosto vermelho, descontrolada. "Eu te dei tudo! Essa casa, essa vida!"
A risada que saiu de mim foi amarga e alta.
"Você me deu tudo? Sofia, acorde! Quem pagou por esta casa? Fui eu, com o dinheiro da venda do meu primeiro software, antes mesmo de nos casarmos. Quem desenvolveu cada linha de código que fez a 'sua' empresa decolar? Fui eu! Quem trouxe os maiores clientes, usando contatos que eu fiz na faculdade, enquanto você só sabia sorrir e apertar mãos? Fui eu!"
Eu me levantei, caminhando lentamente na direção dela. Ela recuou um passo, surpresa com a minha intensidade.
"Você não me deu nada, Sofia. Você pegou. Você pegou meu talento, meu tempo, minhas ambições e construiu sua imagem em cima deles. Você é uma fraude, e o seu maior medo é que todo mundo descubra que a grande CEO da Almeida Tech não passa de uma fachada bonita. O verdadeiro cérebro da operação sempre esteve em casa, sendo tratado como lixo."
Ela ficou sem palavras, o peito subindo e descendo com a respiração ofegante.
"Eu te odeio", ela sussurrou, a voz cheia de veneno.
"O sentimento é mútuo", eu respondi, sem hesitar. "Agora, se me dá licença, tenho um jogo para terminar."
Ela me lançou um último olhar de puro ódio, virou-se e saiu batendo a porta com uma força que fez as janelas tremerem.
Eu olhei para os cacos do vaso no chão. Símbolos de um casamento quebrado. Não senti nada. Nenhum pingo de tristeza ou remorso.
Foi então que meu celular tocou. Era um número desconhecido. Por um momento, pensei que fosse Sofia usando outro telefone. Hesitei, mas atendi.
"Ricardo Costa?" uma voz jovial perguntou.
"Sim, quem fala?"
"Aqui é o Sr. Oliveira, da Innovate Corp. Nos conhecemos no último simpósio de tecnologia. Eu estava com o pessoal da TechCorp."
Eu me lembrava dele. Um dos maiores investidores do setor.
"Sr. Oliveira, claro. Como vai?"
"Vou bem, meu caro, vou bem. Liguei para te dar os parabéns. Aquele seu insight sobre a integração de IA no gerenciamento de dados... brilhante! Simplesmente brilhante! Sofia tem muita sorte de ter um marido com uma mente como a sua nos bastidores. Honestamente, todos nós no mercado sabemos que você é o verdadeiro motor daquela empresa."
Eu sorri. Um sorriso genuíno, pela primeira vez em muito tempo.
"Obrigado, Sr. Oliveira. Fico feliz em ouvir isso."
A validação externa, vinda de alguém tão importante, foi como um bálsamo. Confirmou tudo o que eu já sabia, mas que Sofia sempre fez questão de diminuir. O mundo lá fora sabia do meu valor. Só a pessoa que dormia ao meu lado escolhia ignorá-lo.
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