
Eu não sou a vilã
Capítulo 2
A pior semana da minha vida estava finalmente acabando. A escola não ficou surpresa após descobrir que eu havia perdoado mais uma traição do Luke — que havia mudado da água para o vinho, se tornando extremamente carinhoso e amoroso como nunca foi antes.
Faltavam menos de dez minutos para o sinal tocar, para eu finalmente sair desse inferno. Trancada no banheiro feminino do terceiro ano, eu verificava as mensagens que recebi de Lya e Stella perguntando em que lugar da escola eu estava, e as reclamações de Ethan sobre o professor Klaus de biologia. Revirei os olhos e os ignorei, estava pronta para sair da cabine, quando as vozes de outras veteranas me chamaram atenção.
Port Angeles High era famosa pelas festas clandestinas que Aaron Smith costumava dar na casa do lago de sua família na fronteira da cidade, como forma de boas vindas das férias de inverno, que já tinham acabado há uma semana.
Apesar das trovoadas que vinha do lado de fora em decorrência a mais uma tempestade que havia se formado, consegui captar perfeitamente o que elas estavam conversando.
— Aaron garantiu que dessa vez teremos uma fogueira na casa do lago, mas com essa chuva acho que não vai rolar. — Disse a garota, que logo reconheci a voz e concluí que era a Alison, uma das líderes de torcida.
— Ainda temos tempo até a chuva passar, não quero estragar o meu cabelo por causa dela! — Reclamou a outra, fazendo-me revirar os olhos.
Port Angeles era totalmente imprevisível. A semana inteira foi ensolarada, porém, justamente no dia mais esperado da semana, a chuva tomou conta de toda Port Angeles. Eu não estava ansiosa para ir, porque tudo de mais baixo acontecia na festa do Aaron, mas Lya não me deixaria dormir em paz à noite, e para garantir que o assunto da próxima semana não fosse eu, ficar em casa não era uma opção.
— Soube da Aurora Mckenney? — Sussurrou Alison.
— O que tem ela? — Rebateu sua amiga — Me passa o rímel. — Pediu.
Olhei pela abertura da porta e as observei se maquiarem. Aurora Mckenney era uma aluna do segundo ano, magra, alta, loira, de olhos azuis e muito cobiçada pelos alunos,típico de patricinha nojenta, no qual Aaron adoraria levar para a cama.
— Foi vista entrando na salinha do zelador com Luke Donovan. — Disse Alison.
Abri a porta num impulso, eu já não ficava mais surpresa com as atitudes do Luke, mas ainda sim me machucava — já que na noite anterior, ele me fez juras de amor enquanto transamos. Alison se assustou assim que me viu sair da cabine. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas eu me recusava a permitir que caíssem. Eu estava decidida de que agora eu seria corajosa o suficiente para colocar um ponto final.
— Eu não sabia que você estava aqui, Trix. — Alison estava visivelmente arrependida de ter dito.
— E faz diferença? Aliás, a essa altura a escola inteira já sabe. — Sorri amarga.
Não esperei uma resposta da loira, saí do banheiro decidida a ir de encontro a Luke, porém falhei miseravelmente. O sinal tocou fazendo um barulho ensurdecedor, levando os alunos a saírem de suas respectivas salas e aglomerando o corredor, impedindo minha passagem.
Enquanto eu era empurrada pela multidão,avistei Ethan, Lya e Stella, que ao me notarem juntaram-se a mim. Não consegui controlar as lágrimas, Lya me puxou para dentro de uma sala vazia e me abraçou, Stella se juntou ao abraço enquanto Ethan nos observava.
— Dessa vez eu vou quebrar ele! — Ameaçou Ethan.
— Você não fará nada! — Rebati tentando segurar o soluço.
A dependência emocional nos fazia aceitar coisas absurdas, que nenhuma pessoa em sã consciência aceitaria. Luke não me amava, e isso já estava mais do que visível, agora eu não aceitaria mais as suas desculpas, Luke conseguiu fazer o que ninguém em dezessete anos conseguiu. Me deixar com ódio.
— E o que você fará, Beatrix? — Stella me sacolejou desfazendo o abraço de Lya.
— Acabarei com tudo hoje mesmo.
Sequei minhas lágrimas e engoli o choro. Tirei um pequeno espelho do bolso da mochila e me olhei. Meu nariz e meus olhos entregavam que eu havia chorado, mas dessa vez o choro não duraria por dias, pelo menos não o meu.
— Vamos logo antes que o zelador Pierre apareça. — Chamou Ethan.
— O corredor já está vazio? — Lya se aproximou do seu namorado.
— Não exatamente — Ele coçou a cabeça.
Me aproximei para ver ao que o Ethan se referiu, e para a minha surpresa, a personificação do mal estava encostada no armário de frente a sala. Revirei automaticamente assim que ele deu o seu habitual sorriso cheio de ironia. Conhecendo Aaron, eu sabia que as mais possíveis atrocidades sairiam de sua boca, e eu já estava esperando, mas ele não fez.
— Quer carona para casa hoje, coelhinha? — Ele perguntou, caminhando em minha direção e me deixando incrédula.
Não havia ironia ou mentira nas suas palavras. Aaron Smith não estava blefando ou tentando me atingir. Cocei a garganta e olhei para Lya, que acenou com a cabeça em sinal de concordância. Era evidente que o pedido de Aaron confirmava as minhas suspeitas sobre o Luke ter deixado a escola, e que também Lya e Ethan não poderiam me levar até em casa, e andar cerca de um quilômetro na chuva não estava nos meus planos. Meu padrasto não viria, assim como minha mãe não sairia do seu plantão, restando apenas Aaron como opção.
— Sabe decidir por si só ou precisa que eu chame mais alguém? — Ele tirou a chave do bolso do seu moletom e começou a girar na mão.
— Aaron Smith e toda a sua presunção, achando que eu não sei tomar uma decisão.
Ele sorriu. Um sorriso totalmente debochado.
— E qual decisão você tomará hoje, Beatrix? — Ele se aproximou, perto o suficiente para que eu pudesse sentir a sua respiração no meu rosto.
Engoli seco com a sua proximidade.
Eu sabia muito bem sobre ao que ele se referia. Eu não era boba, e ele sabia bem disso — porém, a dependência e o poder que Luke exercia sobre mim, era maior do que qualquer outra coisa, mas ainda sim, eu não podia mais viver no inferno pessoal, chamado Luke Donovan.
— Uma totalmente nova, estrela da manhã. — Sorri decidida — Podemos ir?
— Damas primeiro. — Deu passagem.
Acenei brevemente para os meus amigos que retribuíram da mesma forma. Encarei os olhos azuis de Aaron sorri. Se compadecendo com a dor alheia, esse não era Aaron Smith, por trás da sua bondade, eu sabia que um plano perverso estava por vir, e que o ataque final seria dado por mim.
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