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Capa do romance Eu e o Fazendeiro

Eu e o Fazendeiro

Batidas persistentes na porta interromperam o sono de quem havia descansado apenas três horas após um turno exaustivo. Ao checar o relógio, eram quatro e vinte da manhã. Mesmo sob o cansaço extremo, a necessidade de atender o chamado falou mais alto. Afinal, ninguém buscaria ajuda em tal horário se o motivo não fosse uma emergência crítica. O mistério sobre quem estaria ali e qual seria a urgência impulsionou o despertar forçado em plena madrugada.
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Capítulo 2

Eu, bom, eu só era a Mandy, comum,

complicada demais e com uma responsabilidade que acabou de fazer três anos.

Talvez as coisas pudessem ser diferentes, se oportunidades como essa de ficarmos sozinhos acontecessem mais, pensei ao dar dois passos em direção a ele. Quem sabe eu criasse coragem e pudesse...

— Xerife? — gemi baixinho, após ouvir a sineta tocar e a porta dupla abrir em um rompante

— Temos um problema.

Foi como acordar de um sonho, como um dos muitos que tive com Dallas, refleti, frustrada.

— O que foi, Derek? — Um olhar duro tomou o lugar do olhar suave com que me encarava — Onde acontece o incêndio?

— É o Sr. Green... — informou seu assistente — causando confusão de novo.

O nome foi suficiente para fazer Dallas ajeitar o chapéu na cabeça e se afastar de mim. As

bebedeiras e escândalos de Dylan Green tornaram- se lendárias na cidade. Constantemente ele passava a manhã, tarde ou noite inteira dentro de uma cela. Não que fosse perigoso, mas o único que sabia manter Dylan quieto e comportado era o xerife.

— Bem. Até logo, Mandy.

— Até logo, xerife.

Com a mesma velocidade que a decepção caiu sobre mim, a Sra. Chan surgiu com Jody no colo, exibindo um olhar reprovador, possivelmente por eu ter deixado uma grande oportunidade de conseguir a atenção de Dallas escapar.

— Den-dy — Jody estendeu um prato de bolo para mim, exibindo um sorriso manchado de glacê — Jody ama Den-dy.

E quem poderia se sentir triste, com uma declaração tão sincera como a dela?

— E Mandy ama Jody.

Sua chegada foi assustadoramente

inesperada, mas não conseguia mais imaginar a minha vida sem ela.

Capítulo 2

Acorda, Mandy!

Você precisa parar de sonhar acordada. Com um suspiro preso em minha garganta,

observei Dallas sair acompanhado de seu assistente.

— E aí, como foi? — A Sra. Chan colocou Jody sentada no balcão, pronta para me encher de perguntas, provavelmente uma mais constrangedora que a outra — Marcaram de sair? Você disse que o bumbum dele é…

Ela ergueu os dois polegares, sorrindo em aprovação ao traseiro do xerife, que eu precisava concordar: Dallas possuía o bumbum mais atraente do Texas. Falando sério, ele todinho simbolizava os desejos secretos de uma mulher.

— Sra. Chan! — adverti, sentindo meu rosto corar.

Eu sentia falta da época que eu entrava na lanchonete muda e saía calada. Pelo menos minha vida amorosa – ou a falta dela – não era analisada dessa forma.

— Os jovens de hoje são tão lerdos. — Ela revirou os olhos, alisando o balcão — Na minha época…

— Na sua época — murmurei, pegando Jody, levando-a para o seu local seguro, onde poderia passar o dia sem que eu viesse a me preocupar enquanto trabalhava —, as pessoas eram muito mais recatadas que hoje.

A Sra. Chan sacudiu a mão no ar.

— Tudo bem, mas ele já teria me levado para tomar um sorvete e tentado passar as mãos nos meus peitos umas duas vezes.

Literalmente fiquei de boca aberta,

enquanto ela voltava para a cozinha resmungando que eu nunca conquistaria o xerife se continuasse agindo como uma palerma. Comecei a rir e fui finalmente colocar a plaquinha de ‘aberto’ na porta. Não demorou muito para os clientes começarem a surgir. O primeiro deles foi James, o melhor e único mecânico da cidade. Foi o melhor amigo de Julienne na cidade, irmã de Dallas. Ele tinha um excelente relacionamento com a família Walker.

— Café sem açúcar e torta de maçã? — perguntei, anotando o pedido que eu sabia de cor.

— Uma mulher que sabe o que um homem precisa. — Ele piscou de forma sedutora, e eu sorri

— Quando crescer, juro que me caso com você, Mandy.

Já havia perdido as contas de quantas vezes ouvi a mesma promessa, sem nenhum fundo de verdade. Exatamente todas as manhãs em que James aparecia aqui para o desjejum. Se a

declaração tivesse acontecido na época da escola, quando ele era um jovem magricelo e tímido demais para levar uma conversa fluída com alguma garota que não fosse Julienne, eu teria levado a proposta com mais seriedade. Mas agora, depois de anos dando duro na oficina, que assumiu logo após a morte de seu pai, e o tempo que deveria gastar malhando, fizeram de James um homem que não escapava dos olhares apreciativos das garotas que, um dia, ousaram olhar torto para ele.

— Dispenso o casamento — respondi sorrindo, ao buscar o bule de café — Mas ficaria feliz se me dissesse que encontrou a peça para a caminhonete.

— O que você deveria fazer é aposentar aquela sua lata velha — Ele me olhou com uma seriedade que me deixou preocupada — Não vai durar muito.

Se o meu mecânico afirmava que não era

seguro andar por aí com a carcaça ambulante que eu chamo de carro, acho que devo mesmo me preocupar. Já estava pensando em trocar a velha caminhonete por algo melhor, até mesmo para a segurança de Jody, mas desde que ela chegou, meus gastos dobraram. Suas roupas e sapatos pareciam encolher a cada mês e precisava colocar na lista as vezes que ela ficava doente, prejudicando ainda mais o meu orçamento. Ah, agora, mais do que nunca, tenho que trocar o telhado, o que deveria ter feito há dois anos, se necessidades mais importantes não tivessem surgido.

— Olha, eu vou até Houston nesse fim de semana. — Penso que minha cara de desolação se mostrou expressiva o suficiente para que James se compadecesse de mim e despertasse sua solidariedade — Acho que encontro as peças para você.

— Isso seria realmente incrível, James — agradeci, servindo sua xícara — Vou pegar a sua torta. Foi feita essa manhã.

Todas as pessoas, vez ou outra, enfrentavam obstáculos na vida, e comigo não poderia ser diferente, mas eu sempre encontrava boas pessoas que facilitavam esse caminho de alguma forma. Primeiro, a Sra. Chan, por me dar um emprego onde pudesse manter Jody comigo. Os clientes no café, em sua maioria sendo residentes de Peachwood, tratavam-me com gentileza e amabilidade. Esse era um lugar onde todos se conheciam e meio que formavam uma grande e calorosa família. E só por isso já me sentia uma pessoa grata e afortunada.

— Ovos mexidos, tiras de bacon, salsichas fritas e suflê de chocolate. — Ergui meu olhar da caderneta de pedido, antes mesmo de poder anotar os três últimos itens.

— A Sra. Brandon não disse que está proibido de comer bacon e batata frita, Sr. Brandon?

Devido ao colesterol altíssimo, a Sra. Brandon controlava as refeições do marido como um general. Há alguns meses, entrou como um furacão no café, com uma lista bem extensas de coisas que eu nunca deveria servir ao seu marido. E embora ela possuísse uma voz mansa e sorriso cordial, eu não era louca o suficiente de ignorar seus avisos, para ser convocada à sua casa onde me passaria um sermão de, no mínimo, uma hora, enquanto me fazia sentir a pior pessoa do mundo.

— A Sra. Brandon não está na cidade. — Ele resmungou, cruzando os braços como se me desafiasse.

Se meus avós estivessem vivos, acho que não me importaria se fossem como o casal.

— Ah, ela não está?

— Foi visitar nosso filho, você sabe que a mulher dele está para ter o bebê, e Marlene foi para lá ajudar — Ele se inclinou na mesa e fez um sinal para que eu me aproximasse — Sabe, Mandy, isso pode ser um segredinho nosso.

— Um segredinho nosso — repeti, em um tom conspiratório.

De jeito nenhum. Eu não daria até o fim dessa tarde para que a Sra. Brandon ligasse para o café e me exigisse os ingredientes de cada refeição que havia colocado no prato dele.

— Sim para os ovos — assinalei o item antes de continuar: — E sim para a maravilhoso rocambole de espinafre que a Sra. Chan acabou de tirar do forno. E para recompensar, trago depois um belo pedaço de torta de pêssego.

— Espinafre? Veja se eu tenho cara de quem come espinafre, mocinha. — Para um novato, o olhar encolerizado e rosto vermelho do invocado

velhinho poderiam ser intimidadores, mas não para mim — Veja, chame a Chan. Ela precisa saber que seus clientes não são bem tratados aqui.

— Você tem certeza? — Ergui a sobrancelha e cruzei os meus braços, abrindo um sorriso para ele — A Sra. Chan, com toda certeza, irá cortar a torta de maçã.

No fundo, ele sabia que sua tentativa em me intimidar não alcançaria o resultado desejado. Chan e Marlene Brandon eram amigas de longa data. E minha chefe adorava pegar no pé do Sr. Brandon, com a esposa dele dando, ou não, munições para isso.

— Pensando bem, a Chan deve estar bem ocupada — disse ele em um tom impressionantemente brando — Vou aceitar os ovos, o rocambole de espinafre e dois pedaços de torta de pêssego.

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