
Eu e o Fazendeiro
Capítulo 3
r. Brandon… — iniciei, pronta para
voltar a argumentar.
— Vou levar para o jantar, sua pequena intrometida — bufou ele, antes de resmungar — Os jovens de hoje não sabem a importância que cabelos brancos têm.
Visto que ele possuía uma calvície proeminente e bem poucos cabelos brancos, apenas sorri e me afastei, rindo, para providenciar seu pedido.
O café não ficava sempre cheio, mas pessoas entravam e saíam o tempo todo. Vi a sineta tocar e um casal acompanhado de duas crianças se dirigiram a uma das mesas. Forasteiros, disso eu tinha certeza.
Peachwood ficava na rota da interestadual e constantemente pessoas paravam por aqui para pedir informação, usar a oficina mecânica de James ou comer alguma coisa.
— Boa tarde. — Me aproximei da mesa
para fazer os pedidos — O que gostariam?
A mulher, assim como as crianças, não desviou os olhos fixos na mesa para olhar para mim. O homem, em compensação, me varreu dos pés à cabeça, dando um sorriso apreciativo que eu não gostei.
Já atendi clientes homens que ousaram dar o seu telefone ou me passaram uma cantada barata. Trabalhar em um café, mesmo que em um condado pequeno como esse, nos deixavam suscetíveis a isso. Mas nenhum deles era casado ou estava acompanhado.
— Uma cerveja, gracinha — disse o homem, e percebi que sua fala já se encontrava enrolada.
— Não servimos bebidas alcoólicas,
senhor.
Para isso havia o bar country do outro lado
da rua, que ficava aberto vinte e quatro horas.
fica…
— Mas o senhor pode ir ao Hell, que
— Aquela espelunca? — esbravejou ele,
fazendo tanto as crianças quanto a mulher se encolher no lugar — Já estivemos lá, aqueles caipiras não sabem como atender as pessoas.
Pela educação do senhor em questão, acho que o gerente não deve ter é tido paciência de lidar com alguém como ele. Embora uma vez ou outra acontecesse, aqueles “caipiras” não gostavam de confusão.
— Então, traga refrigerantes, dois hambúrgueres e batata frita.
Anotei o pedido com pressa, querendo me afastar dele o mais rápido possível. Se pessoas carregavam mesmo algum tipo de cor de energia, eu poderia dizer que a desse homem era muito escura.
Ajudei a Sra. Chan na preparação dos
pedidos, e antes de entregar dei uma olhada em Jody, que brincava, meio sonolenta, em seu cercado. Faltavam apenas três horas para que eu encerrasse meu turno, e estava tão cansada quanto ela. As sextas-feiras são cansativas, por serem final da semana, e pelo maior fluxo de pessoas e pedidos também.
Depois de atender os viajantes e aguentar mais uma vez os olhares lascivos do homem, me refugiei atrás do balcão. Limpei, organizei e reabasteci os potes de açúcar e sal. Troquei os frascos de ketchup, mostarda e maionese. Estava abrindo uma nova caixa de guardanapos, quando vozes exaltadas chamaram minha atenção.
Um dos garotos, o mais novo, pelo que parecia, derrubou refrigerante na mesa, sujando sem querer a calça do pai. Rapidamente peguei um bolo de guardanapo de papel e me dirigi até a mesa deles, para ajudar.
— Seu garoto retardado! — O grito do homem contra o menino me fez paralisar no lugar
— Olha o que você fez!
Assisti, atônita, o homem erguer a mão fechada em direção ao menino, que só não levou um grande soco no rostinho assustado porque a mulher entrou na frente, levando o golpe por ele.
— Sua cadela! — A fúria do maldito covarde agora estava sobre a mulher — Já avisei para não se intrometer. Por isso ele é um mariquinhas.
E quando ele segurou a mulher assustada pela garganta, fui obrigada a reagir.
— Não faça isso!
O senhor Brosnan, que ainda estava no café, apesar de já ter terminado sua refeição, saltou da mesa.
— Não seja covarde, meu jovem — disse ele, exaltado — Não é assim que se trata uma
mulher e crianças.
— Cala a boca, velhote! — disse o homem, raivoso.
Emiti um grito acuado quando o vi empurrar o Sr. Brosnan para longe, que caiu sobre uma mesa em um baque estridente.
— O senhor está bem? — indaguei, quase sem fôlego ao correr até ele.
Ele se ergueu lentamente, gemendo, e o ajudei a ocupar uma cadeira. Virei em direção ao monstro que tinha voltado a soltar sua fúria na esposa. Nesse momento, Chan saiu da cozinha com uma grande e pesada frigideira. O pânico de que o mesmo que aconteceu ao Sr. Brosnan pudesse acontecer com ela me fez voar para junto dela.
— Não, Chan! — Tirei a frigideira pesada de sua mão — Vá até a delegacia e chame o xerife.
Uma verdadeira confusão se instaurou no café. Brosnan, mais humilhado do que realmente
ferido, se enfurecia a cada nova cena agressiva que via. As duas crianças choravam abraçando uma a outra, encolhidas contra a mesa. E até Jody começou a chorar, assustada, gritando por mim.
— Vá, Sra. Chan! — Empurrei-a em direção à saída.
Eu sabia que ela queria enfrentar o grandalhão e dar uma bela lição nele. Mas alguém precisava agir sensatamente. Diante de nós estava um touro furioso e embriagado. Não admitiria que a Sra. Chan fosse machucada. Antes, o covarde metido a valentão teria que me derrubar.
— Você é uma estúpida que nunca aprende — Vi sua mão se erguer no ar e atingir o rosto da mulher, que já possuía um enorme hematoma na face esquerda, que eu não sabia se foi da agressão anterior ou de outras antes dessa.
Eu estava farta e com muita revolta de como o troglodita se comportava com os mais
frágeis que ele.
— Pare com Isso! — Segurei o cabo da frigideira com mais força ou me aproximar — O xerife está chegando.
Não sei se foi o objeto que usava como arma, o grito que dei ou a ameaça da chegada do xerife que o fez se afastar da mulher. Mas não pude respirar aliviada. Agora, a atenção do homem nojento estava focada em mim. Minhas mãos tremeram, e o ferro pesado fazia meus pulsos começarem a doer.
— Olha só, gracinha — balbuciou ele, dando um passo largo e vacilante em minha direção
— Sei bem como tratar uma belezinha como você.
Não foram suas palavras asquerosos e a forma repugnante que me encarava que me levaram a agir, mas o choro dos inocentes atrás dele e os gritos assustados de Jody. Ergui a frigideira o mais alto que consegui, e quando o homem se aproximou
mais, o atingi com toda força na testa.
Ele levou a mão à cabeça, onde um corte começava a sangrar, como se fosse uma torneira aberta.
— Sua… sua… — Ele cambaleou de um lado para o outro — Sua cadela maldi…
Assisti-o cair sobre uma mesa com meu olhar arregalado. O cabo deslizou pelas minhas mãos, caindo pesadamente no chão. Estava petrificada no lugar.
— Meu Deus! — gritou a mulher, olhando incrédula para mim — Você o matou.
Você o matou! Você o matou! Você o matou…
A declaração ricocheteava na minha cabeça, enquanto eu dava pequenos passos para trás. As perguntas surgiam como flashes, me deixando desnorteada.
O que aconteceria agora? Eu seria presa? O que seria de Jody sem a mãe e, agora, também sem mim?
Mesmo que tivesse sido em legítima defesa, ou não, eu havia matado uma pessoa.
Minha mente rodava e rodava como se eu tivesse sido jogada em um liquidificador gigante. E cada vez que olhava para o corpo esparramado em cima da mesa, sem vida, uma grande onda de pânico me dominava.
— Mandy?
Minha vista já começava a escurecer, quando vi Dallas entrar no café. E seu rosto preocupado foi a última coisa que vi, antes de perder a consciência em seus braços.
Acordei tão assustada que o meu salto fez com que caísse da estreita cama onde me
encontrava.
— Jody!
Olhei em volta, tentando me orientar. Vi as paredes cinzas e a lâmpada, que quase me cegou, fixada no teto. Uma pia e um vaso sanitário à minha esquerda. Mas o que me fez gemer e começar a chorar baixinho foi ver as grades grossas à minha frente.
Eu tinha mesmo sido presa e era uma criminosa que passaria o resto dos dias pagando por ter tirado a vida de outra pessoa, mesmo que fosse de alguém tão vil como aquele homem.
— Xerife! — gritei, ao agarrar as grades com força — Xerife.
Como um homem da lei, Dallas deveria ter uma ideia do que aconteceria comigo, e eu ansiava saber qual seria o destino de Jody.
Será que procurariam Glenda? Ou a enviariam a um orfanato?
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